Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

"Quero trabalhar até morrer"

Nasceu em Angola em 1951 e garante que tem muito a ver com aquele país onde se come bem e as portas estão sempre abertas para quem queira entrar. Aos 60 anos – completa 61 a 11 de Junho – o actor Carlos Paulo celebra este ano, com João Mota, os 40 anos da Comuna – Teatro de Pesquisa, companhia que ajudou a fundar e onde neste momento protagoniza ‘A Controvérsia de Valladolid’. A título pessoal, também tem o que comemorar: já chegou à marca das cem peças.
3 de Junho de 2012 às 14:48
Carlos Paulo: "Nunca vou achar que fiz tudo. Aí penso como o João Mota: 'Saudades, só do futuro"
Carlos Paulo: 'Nunca vou achar que fiz tudo. Aí penso como o João Mota: 'Saudades, só do futuro' FOTO: Fotos: Bruno Colaço

Sente-se cidadão africano?

Em muitas coisas, sim. A minha mãe educou-nos à maneira africana e temos cruzamentos na família. Sou primo direito do Manuel Rui Monteiro, o poeta angolano. Acima de tudo aprecio esse lado da convivência entre as pessoas, a partilha.

Veio para Lisboa com a família quando tinha cinco anos.

Sim, mas depois ainda voltei, aos 18 anos, para inaugurar a Companhia Teatral de Angola.

O teatro não foi coisa de família? Não havia tradição...

Não. Mas eu tinha de ser uma coisa dessas. Eu desenhava, escrevia, pintava... Um dia vi uma peça pela companhia da Luzia Maria Martins, que fazia sessões para estudantes aos sábados com bilhetes a vinte e cinco tostões. Vi-a 17 vezes. E apaixonei-me. Foi paixão.

Apresentou-se à directora?

Fui ter com ela e disse-lhe que era aquilo que eu queria fazer na vida. Tinha 15 anos. A seguir, ela ia fazer uma peça que tinha um miúdo, que ia ser feito pelo filho da Isabel de Castro. Entretanto ele teve hepatite e a Luzia Maria mandou-me chamar. Estava eu a acabar o quinto ano.

A família não gostou?

A minha mãe e a minha avó apoiaram-me. O meu pai recusou-se a aceitar. Disse que não autorizava, e eu saí de casa. Fui viver para quartos, que era o que se fazia. Estávamos nos anos 60,havia o espírito de comunidade. Não foi difícil para mim, em casa éramos sete irmãos...

Quando é que o seu pai se reconciliou com a sua escolha?

O meu pai só me viu no primeiro espectáculo da Comuna. Antes, cada vez que eu aparecia na televisão, a fazer peças de teatro televisivo, ele desligava o televisor. Recusava-se a ver-me.

Mas nunca pensou desistir?

Nunca pensei ser mais nada. Cheguei a increver-me em Direito, mas era mais para provar ao meu pai que era capaz... Ele acabou por se reconciliar com a minha profissão e tornou-se grande admirador meu.

Entre os 15 e os 20 anos trabalhou em quase todas as companhias de teatro...

Trabalhei com toda a gente, com todos os consagrados. E mantive sempre com eles uma relação de cuidado, respeito e admiração. Nada me subiu à cabeça. Eu queria era aprender.

Alguém especial o marcou?

Muitos. Sou uma pessoa muito reconhecida. Ao fim de 45 anos de carreira agradeço às pessoas que me ensinaram o que sei.

Por exemplo?

Com a Luiza Maria Martins aprendi o que era rigor, trabalho, horários certos. Aprendi a fazer espectáculos para plateias vazias. Representávamos muitas vezes para sete ou oito pessoas.

Ter trabalhado com o Raul Solnado foi importante?

Houve uma peça que estávamos a ensaiar e que a censura cortou tanto que, na véspera da estreia, com tudo pronto, ele reuniu a companhia e disse que se recusava a fazer o espectáculo. Foi uma grande lição de ética.

Trabalhou um ano com a Laura Alves?

Sim. Íamos ao cinema às segundas-feiras. Um dia ela diz-me que não pode ir e atira-me o dinheiro para o bilhete embrulhando num guardanapo. Fiquei ofendido. Explicou-me depois que a cabeleireira tinha ouvido dizer que ela tinha um caso com um rapaz com idade para ser seu filho. Era eu. A Laura tinha um grande cuidado com a imagem.

E o encontro com Eunice?

Eu, o La Féria e a Eunice interpretámos uma peça do Arrabal em Cascais. Na altura, ela tinha 40 anos, estava no auge das capacidades. Aprendi muito com a Eunice, em conversas intermináveis. Vejo todos os seus espectáculos e ela os meus.

O Mário Viegas também foi um amigo próximo...

Éramos como irmãos: eu, o Filipe La Féria e o Mário Viegas. Passávamos o tempo a sonhar, a falar do que queríamos das nossas vidas, do teatro... E a verdade é que cada um de nós fez o que queria. O Mário já tinha aquela paixão pela poesia e pelo teatro como intervenção. Ao Filipe chamávamos o Ziegfield, porque sonhava com grandes espectáculos... Eu dizia, apenas, que só queria ser actor.

Fundar a Comuna foi um acto de ruptura estética com o teatro que se fazia na altura?

Quando o João me apareceu com o projecto já eu tinha cinco anos de teatro. Já tinha feito de tudo. Diziam-me que eu tinha talento, mas o que eu sentia é que não sabia nada. Estava a pensar ir para Itália estudar. A ideia de formar uma companhia de actores pareceu-me ideal.

A Comuna foi o seu Conservatório?

Foi quando comecei realmente a aprender. Sobre a técnica do actor, sobre como respirar. Antes tinha trabalhado sobretudo com a intuição. O João Mota tinha vindo do Peter Brook, de Paris, e juntámo-nos todos. João Guedes, Manuela de Freitas, Luís Lucas, Fernando Heitor, Maria Elisa - que depois foi para a televisão. Com o João aprendi a não ter medo do palco - a ter prazer em estar em cena.

A Comuna ofereceu-se, também, como um projecto com a sua ética própria...

Ganhávamos todos o mesmo. Ainda hoje. O João não ganha pelas encenações, eu não ganho pelos figurinos. Percebemos que era fundamental nas relações entre as pessoas - obriga-as a outra postura, a outra responsabilidade. Aqui todos nos responsabilizamos por tudo.

Outros sairam, o Carlos Paulo ficou na Comuna.

É uma opção de vida. A Comuna é uma casa aberta. As pessoas passam por aqui e ficam o tempo que precisam, que entendem que devem ficar. E sempre se deu autonomia às pessoas para seguirem os seus projectos.

No seu caso fez televisão, cinema, deu aulas, disse poesia, escreveu textos...

Mas sempre com a Comuna como núcleo. A única vez que parei foi para cumprir a promessa de trabalhar com o La Féria e com o Mário Viegas. E também para fazer uma Revista.

Ganhou bastante popularidade na televisão.

Mas não era o meu caminho. Não tenho nada contra os colegas que fazem. Cada um deve fazer o que é bom para si.

Ter interpretado cem peças é um marco para si?

Nem penso nisso. É por não ter parado desde os 15. E nunca pedi um papel aqui na Comuna. Aceito o que me dão. Não tenho sonhos de fazer este ou aquele papel. Faço o que for preciso.

Chegará o dia em que vai achar que fez tudo?

Nunca. Porque estou vivo. Aí, penso como o João Mota: "Saudades, só do futuro". Quero trabalhar até morrer. No palco, é onde me sinto realmente feliz.

Carlos Paulo Comuna Teatro João Mota Laura Alves Mário Viegas Fernando Heitor
Ver comentários