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Reais segredos dos nascimentos em Inglaterra

Aos partos de Isabel II já só assistiu o ministro da Administração Interna. A sua trisavó, Vitória, pôde beneficiar do clorofórmio.
Fernanda Cachão 5 de Maio de 2019 às 07:00
Rainha Isabel II
Rainha Isabel II
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Rainha Isabel II

Quando o mais novo, Eduardo, nasceu a 10 de março de 1964, os pruridos em relação à presença dos pais começavam a desaparecer e a mãe, já rainha Isabel II, quis que Filipe - ao contrário do que se passou nos primeiros três nascimentos dos filhos do casal - estivesse presente durante o trabalho de parto, e assim foi.

É que, por exemplo, a 14 de novembro de 1948, tinha Isabel apenas 22 anos, enquanto o primogénito Carlos gritava a sua chegada ao Mundo numa das alas de Buckingham, não muito longe, o pai, duque de Edimburgo, jogava squash.

Isabel II fez cumprir a tradição e teve todos os filhos em casa, ou melhor, no Palácio de Buckingham - à exceção de Ana, em 1950, que nasceu em Clarence House apenas porque o palácio atravessava uma fase de restauro; fora bombardeado sete vezes durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Aquele palácio em Westminster, residência oficial da monarquia inglesa em Londres, deixou no entanto de ser o primeiro berço real a 21 de junho de 1982, quando Diana foi mãe do neto primogénito de Isabel II. William foi o primeiro futuro rei, a nascer num hospital, no caso na ala privada do hospital de St. Mary’s, no bairro de Paddington (centro de Londres).

Diana contaria mais tarde ao seu biógrafo, Andrew Morton, "que já não aguentava a pressão dos media, e de todos. Era insuportável. Estava permanentemente sob o escrutínio de toda a gente".

A parteira Sheila Kitzinger, defensora do parto natural e autora de mais de uma vintena de livros sobre o assunto, assistiu, a pedido da parturiente, ao nascimento de William - escreveu mais tarde, nas suas memórias, que Diana teve o seu primogénito na posição vertical, enquanto o marido, Carlos, a segurava.( Kate Middleton terá seguido o exemplo da sogra, ao optar por partos naturais.)

Em 1984, o seu segundo filho nasceu uma semana mais cedo, também na mesma ala do hospital. Diana haveria de contar que durante as primeiras seis das nove horas de trabalho de parto de Harry leu um livro, chupou gelo para evitar a desidratação e aliviou os lábios maltratados graças a uma enfermeira que lhe ia pondo creme hidratante na boca, enquanto o marido, príncipe Carlos, dormitava num cadeirão no quarto, escreveu a ‘People’.

Cenário bem diferente encontrou a nora, Kate. Das três vezes que já foi mãe teve duas dezenas de profissionais de cuidados neonatais por sua conta no mesmo hospital em que a sogra teve os filhos.

Obstetras, pediatras, anestesistas, enfermeiros de bloco operatório, amas, etc. foram devidamente requisitados três meses antes do final da gestação - e todos eles assinaram um termo de confidencialidade. Os quartos do St. Mary’s custam atualmente mais de 8500 euros por noite, mas será muito difícil que outra mãe volte a ter filhos em Buckingham, tal como suportou a rainha.

O maravilhoso clorofórmio

Mas afinal a primogénita do duque e da duquesa de York nasceu na casa dos avós maternos, no número 17 da rua Bruton, na madrugada de 21 de abril de 1926, sem que nada previsse que um dia haveria de ser rainha.

Elizabeth Alexandra Mary era a terceira na linha de sucessão ao trono britânico, depois do seu tio, príncipe de Gales, mais tarde Eduardo VIII, e do seu próprio pai. Quando Eduardo VIII abdicou dez anos mais tarde, em 1936, o pai de Elizabeth Alexandra tornou-se rei Jorge VI e ela própria na eventual futura rainha que o tempo veio a confirmar - hoje em dia, a bisavó do novo bebé real, filho da americana Meghan Markle e de Harry, é o monarca há mais tempo no trono britânico.

A casa onde nasceu, cujo primeiro registo de propriedade data de 1920, já não existe - a data da demolição permanece incerta até hoje, tal como aconteceu a outras residências de Berkeley Square, área castigada durante o Blitz (a campanha de bombardeamentos da aviação alemã durante a Segunda Guerra Mundial, levada a cabo entre 7 de setembro de 1940 e 10 de maio de 1941, em várias cidades do Reino Unido. Em Londres durou 57 noites consecutivas).

Nos arquivos reais do Palácio de Windsor existe uma carta que foi escrita naquela morada pelo duque de York para a princesa Louise, duquesa de Argyll, dois dias depois do nascimento da futura rainha, e que aparece citada no livro de Elizabeth Longford ‘Darling Loosy, Letters to Princess Louise’.

Escreve o pai: "It was too nice of you to have written to me and I do thank you so much for congratulating us on our little girl. She is too delicious and is such a great joy to us both. Elizabeth [the Duchess of York] is progressing wonderfully well and the baby is flourishing. I do hope you will come in later and see your new niece, a great great niece..." ("Foi muito gentil da sua parte escrever-me a dar-me os parabéns pela nossa menina, muito lhe agradeço. Ela é uma delícia e uma grande felicidade para nós os dois. Elizabeth [a mulher, duquesa de York] está a recuperar maravilhosamente e a bebé a crescer. Espero que em breve possa vir ver sua nova sobrinha" - tradução livre).

Segundo o biógrafo Ben Pimlott, na casa da rua Bruton, durante o nascimento da futura rainha, terá estado também o então ministro da Administração Interna, William Joynson-Hicks, resquícios do hábito de membros do governo acompanharem os nascimentos na família real.

O arcebispo de Cantuária, a mais alta figura da Igreja Anglicana, também contribuía para que o nascimento fosse sobretudo um ato público - por exemplo, a ver pelos registos históricos, 42 ilustres estiveram no nascimento do filho do rei Jaime II, em 1688. O esvaziamento dos aposentos do parto começara no entanto em 1841, como conta o ‘The Guardian’, quando a Rainha Vitória, trisavó de Isabel II, resolveu que para assistir ao nascimento do seu filho Eduardo VII a presença do ministro da Administração Interna seria mais do que suficiente.

Mas não foi a princesa de Gales a primeira a mudar a tradição dos partos na realeza britânica. A rainha Vitória descobriu as maravilhas do clorofórmio (anestésico) em 1853, depois de ter dado à luz seis das nove crianças que teve.

Alexandrina Victoria, que nasceu em 1819 e ascendeu ao trono após a morte de seu tio, o rei Guilherme IV, odiava a gravidez e, por isso, rendeu-se facilmente às maravilhas da medicina da sua época, que permitia que não estivesse totalmente acordada durante o trabalho de parto. ‘That blessed Chloroform… soothing, quieting, and delightful beyond measure’ ("Este abençoado clorofórmio, suave, silencioso e a acima de tudo delicioso" - tradução livre), terá dito, segundo as crónicas.

O primeiro filho da Rainha Vitória foi do sexo feminino - Charles Locock, o médico que a assistia no Palácio de Buckingham, terá tido a resposta - ‘Never mind’ ("Não importa").

O segundo filho seria um menino, Eduardo VII. O nascimento do futuro rei obrigaria a um trabalho de parto de 12 horas, em que a rainha - rezam as crónicas - sofreu horrores, experiência que terá contribuído para a forma como a monarca encarou as sucessivas gravidezes. O príncipe consorte, Alberto, esteve sempre ao seu lado, diligente - Vitória ficou conhecida por preferir as delícias que antecedem os filhos.

Pior sorte, a da mulher de Jorge IV (1761-1830), Carolina de Brunsvique (1795-1796) que esteve 50 horas em trabalho de parto, acabando por morrer 24 horas depois do nascimento, de uma tremenda hemorragia.

‘Orgulho e Preconceito'

Reza a tradição que a notícia de nascimentos e mortes de membros da família real seja exibida nas grades do Palácio de Buckingham antes de ser confirmada por qualquer outro meio. O nascimento é divulgado num cavalete colocado na frente do palácio, no centro de Londres.

A rainha deve ser sempre a primeira a saber - e se a tradição ainda se mantém exatamente assim, no caso dos últimos bisnetos de Isabel II, os filhos de William e Kate, a velha monarca soube por telefone.

A rainha, os membros da família real mais importantes e a família Middleton foram os primeiros a receber a notícia - quase como na vida de todos nós. Só depois um assessor real foi enviado do hospital para o palácio, acompanhado de uma escolta policial, com o anúncio, em folha de papel timbrado com o selo do palácio, assinado por médicos, em que se informa à nação o sexo do bebé e o nome.

Os nascimentos reais britânicos são comemorados com uma salva de tiros de canhão da artilharia real. Na Torre de Londres devem ser disparados 62 tiros. As bandeiras britânicas devem ser hasteadas em todos os prédios do governo, nos navios da Marinha Real e em instalações militares.

O príncipe William, assim como o seu pai, o príncipe Carlos, foi batizado pelo arcebispo de Cantuária na sala de música do Palácio de Buckingham - e a túnica de batismo deverá ter sido uma réplica da que tem sido usada desde 1841.

A peça de rendas e cetim branco foi originalmente feita para o batismo da filha mais velha da rainha Vitória, a princesa Victoria Adelaide Mary Louisa - e todos aqueles que nasceram depois a terão usado nas cerimónia do batismo.

Apenas o nascimento da Rainha-Mãe, Isabel Ângela Margarida Bowes-Lyon, permanece um dos poucos mistérios da muito escrutinada família real inglesa: terá a mãe da atual rainha nascido mesmo a 4 de agosto de 1900? Nem William Shawcross, que escreveu a sua biografia autorizada em 2009, é muito claro acerca do assunto. E terá Isabel nascido em Londres ou em St. Paul’s Walden Bury, uma enorme casa de campo em Hertfordshire, o condado inglês citado na obra de Jane Austen ‘Orgulho e Preconceito’?

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