RECEBI VÁRIAS AMEAÇAS DE MORTE

Passou ligeiro pela ditadura, pela revolução e o PREC, sempre a despedir-se “com amizade” no final dos programas. Só sucumbiu a Arlindo Cunha que calou o ‘TV Rural’ após 31 anos ao serviço dos agricultores portugueses. Sousa Veloso saiu de antena cheio de desgosto
22.08.04
  • partilhe
  • 7
  • +
Nasceu no fim da primeira república, quando o golpe militar dissolveu o parlamento e instaurou a ditadura, em 1926, filho de beirão estabelecido em Lisboa. E nem o seu avô poderia prever que aquele menino da cidade, que o ia ver à aldeia da Guarda passaria parte substancial da vida de adulto a falar aos agricultores através de uma modernice chamada televisão.
O programa ‘TV Rural’ foi o que mais tempo de antena teve, 31 anos, de 1959 a 1990. Quando Arlindo Cunha acabou com o patrocínio do programa, o engenheiro já falava mais para as crianças – que às 9h30 esperavam ansiosas que começassem os desenhos animados na TV – do que para a gente do campo.
Sousa Veloso passou airoso toda a ditadura e aguentou firme o 25 de Abril. Os militares deram-lhe uma moviola, ele montava os programas em estúdio, enquanto ao lado ouvia vociferar contra os fascistas. Mas nunca falou de reforma agrária.
Tem 78 anos, vive em Lisboa, num bairro de antigas casas económicas do Estado Novo. Estava a ver os Jogos Olímpicos, as provas de natação, e recebeu-nos numa pequena sala cheia de memórias e fotografias. Nem uma dele no Portugal agrícola a que deu cara na Radiotelevisão Portuguesa (e ele di-lo assim, o nome todo, sem abreviar para RTP).
Começou por contar-nos a suma importância do tal avô paterno de Chaves, “aquele que mais ficou em mim, que mais influência teve no meu caminho”.
Por que é que o seu avô teve tanta influência?
Por morte dos pais, o meu avô foi entregue a uns tutores, ligados à actividade agrícola – tinham um rebanho numa aldeia perto da Guarda. O meu avô, quando teve idade suficiente para colaborar, começou a ajudar na guarda das ovelhas. O que é certo, é que com oito anos decidiu ir a pé até à Guarda, a uns cinco ou seis quilómetros, queixar-se ao Tribunal de Menores que, embora gostasse das ovelhas, também gostaria de estudar. O juiz ficou tão impressionado que foi dizer ao tutor: “Ouça, você tem de deixar o rapazinho estudar.”
Aos 18 anos, o meu avô já era professor primário numa aldeia da Guarda, tinha casado com a minha avó aos 16, casamento do qual teve muito filhos, entre os quais o meu pai.
O meu pai, como era tradicional, foi para o seminário de que foi expulso por ser muito namoradeiro. Veio trabalhar para Lisboa para a Jerónimo Martins. Mas na Guarda estava o meu avô, professor primário, e eu e o meu irmão mais velho, íamos para lá desde muito pequeninos. São as minhas melhores memórias.
Eram meninos da cidade a visitar o avô no campo?
Pois éramos. E isso abriu-nos novos horizontes. Com o andar dos anos, o meu avô deve ter reunido umas patacas suficientes para comprar uma propriedade que era a Regada, onde toda a família ia em almoços de convívio. Na Regada havia um caseiro, que é uma pessoa que trabalha e que recebe metade do que produz porque a outra metade vai para o proprietário.
O que é certo é que desde pequeno comecei a perceber que a família do caseiro vivia muito menos bem que a família do meu avô. Com o andar dos anos percebi que isso era uma injustiça e comecei a querer que o caseiro e os outros pudessem ter uma vida equivalente à que nós tínhamos.
Isso era uma opinião politicamente incorrecta naqueles tempos.
Eu não seria muito divulgador dessa maneira de pensar... Era um sentir cá meu! E mesmo quando nas discussões do liceu esses assuntos vinham à baila não eram uma coisa politicamente menos considerada. Se quer que lhe diga, com o andar dos anos essas situações têm sido agravadas, por quanto hoje as pessoas passam para as zonas urbanas, abandonam as terras e não vivem melhor por isso.
Qual era diferença entre a vida do seu avô e a do caseiro?
O meu avô, por ser professor primário, ganhava mais do que a metade da produção que ia para ele e isso levava-o a ter uma casa melhor, com dependências como aquelas que nos permitem ter higiene. O caseiro não sabia o que era isso. A cama dele era muito primária e as paredes de casa eram pedras sobre pedras por onde o vento, às vezes, entrava.
Lisboa onde morava era muito diferente.
Sim, morávamos num 3º andar da João Crisóstomo, nas avenidas novas. Lisboa era uma cidade muito bonita, cujo prestígio defendia junto dos meus primos beirões. Em miúdos, havia aquela coisa de eu ser o lisboeta, embora procurasse não entrar em peleja clubística. Os bairros típicos e castiços daquela altura tinham vida real com pessoas a habitar e eu sempre apreciei Lisboa desde esses tempos.
O que apreciava?
A arquitectura, a simpatia que as pessoas irradiavam, os seus cantares; sou um apreciador muito grande de fado. Mas isto tudo, é preciso que não esqueçamos, para lhe dar conta sobre a influência do meu avô – a forma como eu encaro o mundo, esse orgulho de ser português, não sei se primário, é dele.
E foi o seu avô que o influenciou a ser engenheiro agrónomo.
Pois, sem querer. Ao conhecer tão perto o mundo rural, criou em mim a vontade de contribuir para que alguma melhoria acontecesse.
Onde se formou em Agronomia?
Aqui, em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, na Tapada da Ajuda. Quando terminei, fui fazer o estágio para a Junta de Colonização Interna, organismo que se preocupava em criar condições para os agricultores terem êxito, pelo menos os pouco dotados de meios. Era um organismo que proporcionava a construção de poços, o estabelecimento de regadio, emprestando dinheiro com juros baixos. Depois havia ainda outras operações como o emparcelamento – muitos agricultores tinham pequenos bocadinhos de terra espalhados e era importante convencer as pessoas a fazerem permuta por forma a criar blocos maiores para a máquina ser economicamente utilizada.
Chegou alguma vez a exercer a profissão de engenheiro agrónomo?
Comecei a fazer levantamentos topográficos para um organismo que era a Comissão Coordenadora do Comércio do Arroz. Como não existia comunidade europeia, tínhamos de produzir as quantidades de que carecíamos, e só depois importar. Essa organização destinava-se a saber a área que tinha sido utilizada com essa cultura, para se saber calcular as produções. E foi aí que conheci Portugal, para além das beiras. Passei também pelo Instituto Superior Agrário e Cadastral, onde andei empoleirado nos teodolitos. Estive ainda na Junta Nacional das Frutas, a colaborar com Vieira Natividade, na Estação Agrária de Alcobaça, onde se lançou as bases do Plano de Fomento Frutícola.
E donde vem esse seu gosto pela informação?
Eu não queria dar notícias diversas, mas divulgar conhecimentos que pudessem ser úteis ao tal progresso que tanto desejava. No Instituto de Agronomia, por exemplo, fui director da revista ‘Agros’ durante uns dois anos. No final de ‘O Século’ fui desafiado, com Mário Bettencourt e Jorge Garrido, a traduzir um livro chamado ‘La Vie Rural Moderne’, para publicar em fascículos naquele jornal. O projecto não foi para a frente com a confusão de Abril de 1974.
Com a transformação do ‘Diário de Notícias’ em empresa pública, o Lyon de Castro, da editora Europa-América, socialista e um grande português, foi para a presidência do conselho de administração, e lembrou-se que o grupo tinha uma revista chamada ‘Vida Rural’, quase falida. Pediu-me para dirigi-la. Eu cá, para ver como ele era, coloquei-lhe a questão – caso fosse director da revista poderia convidar certa pessoa do ‘Tempo’, jornal de direita, para escrever?
Na verdade, não tinha nenhuma intenção de o fazer, só estava a testá-lo. Ele disse-me: ‘Pois concerteza’. Fiquei lá 10 anos. E o tal livro acabou por ser publicado em quatro volumes.
Mas o ‘TV Rural’ aparece antes, em 1959…
O secretário de Estado da Agricultura, Quartim Graça, queria que fossem divulgados na televisão acontecimentos sobre a evolução positiva da agricultura portuguesa. E por coincidência estava na televisão o Camilo Mendonça, um colega de Agronomia mais velho do que eu. Politicamente, ele defendia maneiras de pensar que se ajustavam ao regime, foi deputado à Assembleia Nacional, e depois quando se criou a televisão foi o primeiro presidente do conselho de administração. Era também interessadíssimo no empreendimento de transformação agrícola do Cachão, donde ele era, e com as suas posições e as suas influências conseguia arranjar empréstimos e levar por diante a obra.
Mas qual era o verdadeiro propósito do programa?
O Quartim Graça entendia que a televisão deveria divulgar situações vividas na agricultura portuguesa, e junto do secretário de Estado levaram a obra por diante. Eu estava no Serviço de Informação Agrícola e com o Monteiro Alves, engenheiro florestal, servimos de voluntários para aquela missão, dando sugestões para imagens que deviam ser colhidas e mostradas.
Fornecíamos ideias e sugestões, chegámos a acompanhar os operadores de imagem, até que o director do ‘telejornal’, o Manuel Figueira, achou que seria mais interessante as imagens do programa serem apresentadas por um de nós. Escolheu-me a mim.
Qual foi a sua primeira reportagem?
Uma sobre o emparcelamento, e saí-me muito bem. O Monteiro Alves desistiu e seguiu a sua carreira profissional, chegou a ser vice-reitor da Universidade Técnica de Lisboa. Eu, na televisão, para além de apresentar, comecei a exigir coisas, meigamente, mas a exigir. Comentar no estúdio as coisas que passavam no ecrã, era muito pobre. O programa tinha de ir para fora do estúdio e comecei a a fazê-lo com o operador de imagem. E aí sucederam coisas curiosas.
Por exemplo…
Um concurso de aplicação de adubos no Cercal. Antes das provas de aplicação do adubo, tinha havido um curso sobre a maneira como as plantas se alimentavam, de fisiologia vegetal. Simplesmente, andava sem operador de som e não pode entrevistar os concorrentes. A imagem televisiva terminava com o Governador Civil a dar o prémio do primeiro lugar. Para contornar a falta de som, abeirei-me do vencedor e disse--lhe: “Você tem de ir à televisão!” Ele disse-me: “À televisão?! Pois se eu nem sequer fui alguma vez a Lisboa!”. “Mas vai! Se o Eusébio vai, o senhor também tem que ir porque este prémio é formidável”, respondi-lhe.
E foram?
Fui esperá-los, a ele e à mulher, no sábado a Cacilhas e trouxe-os para Lisboa. O programa era às oito da noite do dia seguinte, eu fui buscá-los às cinco. Naquela altura, o aeroporto não tinha vedações, mas sim morros de terra onde as pessoas paravam os carros para ver os aviões. Levei-os lá no meu carro. O vencedor ao meu lado, a mulher dele atrás que dizia: “Benditas as mulheres que pariram ‘homes’ capazes de inventar estas ‘mánicas’’.
Ela era muito mais viva do que ele. Tinha de explicar ao homem tudo: “A gente vai conversar sobre a sua alegria de ter ganho o prémio”. “Ah, eu gostei de ganhar”, dizia-me ele. “Mas gostou porquê? Talvez seja desamor para os outros”, dizia-lhe eu, “mas a gente gosta de fazer boa figura e para além disso o dinheiro vai-lhe fazer jeito para um poço, por exemplo”. Ele respondia-me: “Nã, nã, a gente não tem água”. Eles eram assalariados, portanto só tinham uma casinha. Disse-me ela: “O que a gente vai fazer é comprar uma ‘mánica’ de costura”. Então pronto, disse eu, “dá conta nisso na televisão”.
E na televisão, sairam-se bem?
Fomos para o estúdio: “Senhores telespectadores, hoje vamos assistir a nada mais nada menos do que uma prova muito interessante sobre a maneira de adubar correctamente. Vamos ver a prova”. E lá se mostrava a prova, e eu ia comentando as imagens. “E agora vemos que o senhor fulano tal a receber o prémio e agora ele está aqui connosco.” E lá a câmara mostra ele, ao meu lado, no estúdio. “Está aqui e radiante”, disse eu. “Estou sim senhor, satisfeito, por duas razões: a primeira é porque fiz boa figura, a segunda… a segunda não me lembro.” Isto em directo.
No dia seguinte toda a gente me acusava do programa ser preparado do princípio ao fim...
O programa esteve no ar entre 1959 a 1990. Como viveu esses anos?
Soube sempre adaptar-me. O tal secretário de Estado que esteve na origem do programa, o engenheiro Quartim Graça, ficou uma vez com dúvidas quando mostrei o aldeamento de Pegões e não disse quem tinha concretizado aquele empreendimento agrícola. Perguntou-me porque raio não tinha dito quem fora o responsável pela obra. Respondi-lhe: “Foi de propósito, senhor secretário de Estado, aquilo é uma coisa tão estupenda, que se eu pusesse lá que tinha sido o Governo, diziam logo que era propaganda”. Esta atitude explica como num regime autoritário prossegui.
E depois com a revolução?
Os militares deixaram-me entrar na Radiotelevisão Portuguesa a 26 de Abril, o dia seguinte, enquanto muitos ficaram à porta. E até quiseram falar comigo, para me dar conta que tinham mobilizado uma moviola para mim e queriam dois programas por semana.
Estava eu a montar e ouvia no estúdio ao lado aqueles programas dos militares a chamarem fascista a coisas como o emparcelamento. Durante esse período nunca falei da reforma agrária, nunca. Se falasse era para condenar – infelizmente, as coisas ocupadas eram as melhores e muitas delas eram de empresários que tinham nascido rendeiros e mercê do seu esforço tinham conseguido comprar terra.
Portanto, cheguei a ir ao Alentejo falar sobre a doença do sobreiro, da qualidade dos merinos, mas nunca da reforma agrária.
E nunca ninguém deu por isso?
Deram, tive ameaças de morte. Por escrito. Mas, curiosamente, antes das primeiras eleições, convidaram-me para ensinar as pessoas como se votava, o que foi bom, queria que elas votassem.
Quando olha para trás qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
Uma grande vaidade. Julgo que a minha vida activa foi útil. Tive essa sorte.
Mas ficou certamente desconsolado quando o ‘TV Rural’ acabou?
Ai tanto! Mas ainda hoje as pessoas continuam a conhecer-me e a tratar-me muito bem. Várias gerações me viram na televisão. Ainda ontem uma rapariga com um bebé dentro dela, quis beijar-me e falou-me com grande satisfação. Eu perguntei-lhe se preferia a mim ou aos desenhos animados. Quando o ministro Arlindo Cunha decidiu acabar com o programa, até ao final o ‘TV Rural’ passou às 9h30 da manhã. A essa hora só havia miúdos que o que queriam ver era os desenhos animados. O fim do programa foi um desgosto enorme.
O COLEGA AMÍLCAR CABRAL
Essa caricatura que tem na parede é do Amílcar Cabral (dirigente do PAIGC, na Guiné-Bissau)?
Eu fazia caricaturas, e esta é do livro de curso. Ele foi meu colega no Instituto de Agronomia.
Como era ele?
Estupendo. Nessa altura, muitos jovens de origem africana eram grandes futebolistas e, como estava para acontecer um jogo entre caloiros e veteranos… Portanto, toca a aproximar-me dele e a perguntar-lhe se jogava à bola.
E jogava?
Muitíssimo bem! Além disso era um poeta muito interessante, com versos muito bonitos que publicou no livro de curso, como este aqui que eu transcrevi para a caricatura que dele fiz: ‘Para ti mãe Iva/ eu deixo uma parcela do meu livro de curso/ Para ti que foste a estrela da minha infância agreste/ Para ti mãe que me deste/ a tua alma viva e o teu amor profundo / maior que o próprio mundo/ Aceita este tributo que tudo quanto eu for/ será do teu amor / a tua carne, mãe, teu fruto/ sem ti não sou ninguém/ só sou porque és mãe (Lisboa, 1949)’
Caricaturou-o a chorar…
Porque ele era poeta e os poetas comovem-se mais do que nós que não somos poetas. Pôs-lhe também as chuteiras e o equipamento da equipa e dois livros, do Engels e do Dostoeivski. Nunca vi nele um guerreiro.
E a actividade dele no PAIGC?
Vi com muita angústia, sobretudo a forma como foi assassinado por pessoas que ele queria defender.

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!