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Recessão: Arranja-me um emprego

A crise abateu-se sobre todos os sectores produtivos. A Banca secou o crédito às empresas e seduziu as famílias prometendo remunerar as poupanças com juros de 6%. Sem perspectivas de futuro e com o desemprego a crescer, os jovens ensaiaram os primeiros protestos e refugiaram-se no refrão dos Deolinda: “que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar”.
18 de Dezembro de 2011 às 00:00
A ‘geração à rasca’ saiu em Março à rua para protestar
A ‘geração à rasca’ saiu em Março à rua para protestar FOTO: Sérgio Lemos

Os sinais vinham de trás. O último trimestre de 2010 já tinha registado uma diminuição da riqueza produzida em Portugal (-0,3%), mas o ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, teimava em manter as perspectivas de um crescimento da economia de 0,2%. Um professor de Economia no Canadá, Álvaro Santos Pereira, comentava a situação portuguesa na televisão e deixava dois avisos: "A dívida líquida é de 112% do Produto Interno Bruto, o que é insustentável", e as "Parcerias Público-Privadas (PPP) são o maior atentado intergeracional e vão obrigar os portugueses a pagarem 2,5 mil milhões de euros por ano a partir de 2013".

O desemprego apresentava--se como o problema mais imediato. O ano começava com números recorde do desemprego. Mais de 620 mil pessoas estavam, oficialmente, sem trabalho. Uma grande percentagem de jovens saídos das universidades com mestrados e pós-graduações só encontravam colocação, a recibos verdes, em call-centers e caixas de hipermercados. Era o nascimento da ‘geração à rasca’, que fez da canção dos Deolinda o seu hino de combate: "Sou da geração sem remuneração/ E não me incomoda esta condição/ Que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar".

Usando o Facebook, os jovens convocam manifestações de protesto em todo o País. No dia 12 de Março milhares saem à rua para denunciar a situação de crise em Portugal. Em Lisboa, 200 mil descem a avenida da Liberdade gritando "com precariedade não há liberdade".

CAVACO E BANQUEIROS

A falta de dinheiro era visível em todos os sectores da economia. Os bancos não se conseguiam financiar no estrangeiro, o que levou Cavaco Silva a reunir-se com o governador do Banco de Portugal e com todos os banqueiros logo no início de Fevereiro. A ordem era libertar dinheiro para a economia.

Do cimo de uma retroescavadora, Sócrates inaugurava a fábrica de baterias para os carros eléctricos da Nissan em Cacia, Aveiro, e apelava à criação de empregos "com valor tecnológico".

Mas a crise era inexorável e não ouviu os apelos do líder do Governo. O próprio projecto de Cacia cairia por terra já no final de 2011. Portugal não resistiu e, no dia 23 de Março, Sócrates anuncia a sua demissão e pede ajuda externa.

Sem a ajuda do Estado, os empresários desesperaram, certos de que não haveria novo aeroporto nem alta velocidade, os banqueiros viraram-se para Frankfurt e suplicaram a Trichet a protecção do Banco Central Europeu (BCE).

O CLIMA DE ANGÚSTIA

Em Abril o desemprego atingia 688 mil portugueses que passariam a ter o subsídio limitado a 18 meses.

Belmiro de Azevedo, um dos homens mais ricos do País, pedia responsabilidades e perguntava "quem são os responsáveis por os portugueses estarem 30 a 40% mais pobres?". A resposta foi dada a 5 de Junho com a eleição de Pedro Passos Coelho para primeiro-ministro.

Na primeira vez que falou no Parlamento, o novo chefe do Executivo não tinha boas notícias para dar. Num "clima de angústia" anunciou um corte de 50% no subsídio de Natal de todos os portugueses com salários acima de 485 euros, pela primeira vez ouviu-se a expressão "desvio colossal", que serviria de arma de arremesso político nos meses que se seguiriam.

Sob o efeito da anestesia de um memorando imposto pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, o governo PSD/PP não consegue disfarçar alguma impreparação, quando alimenta uma discussão apaixonada sobre a descida da Taxa Social Única (TSU), para depois, pura e simplesmente, deixar cair o tema.

Outras opções estratégicas morreram à nascença, enterradas pela flagrante falta de financiamento. O novo aeroporto, a terceira travessia sobre o Tejo e a alta velocidade (depois de avisado o governo espanhol) foram sonhos que se ficaram pelos alicerces. Como prova da irresponsabilidade financeira que nos atirou para os braços da troika ficou o aeroporto de Beja. Com um custo de 33 milhões de euros recebeu menos de 2000 passageiros em 2011. É dos poucos aeroportos no Mundo que abre e fecha ao sabor dos voos programados, ao custo de 16 500 euros por passageiro.

Certos de que os tempos futuros seriam muito difíceis, os portugueses começam a adoptar comportamentos defensivos. Os pais tiram os filhos dos colégios particulares e obrigam as escolas públicas a multiplicar turmas, os depósitos a prazo disparam nas agências bancárias, as ‘marcas brancas’ nos supermercados atingem recordes e a despesa com medicamentos cai a pique. A crise não pediu licença e irrompeu pela casa das famílias.

Nas vésperas da divulgação pública do Orçamento de Estado para 2012, e com todos os responsáveis a avisarem para o agravamento da situação económica, Cavaco Silva lança um aviso ao Governo sobre a necessidade de proteger empresas e famílias.

A resposta não se faz esperar. Passos Coelho anuncia o fim dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e pensionistas que ganhem mais de 1100 euros. O choque leva à convocação de uma greve geral que une as duas centrais sindicais. "Porque isto está mal e vai continuar, já é uma sorte eu poder estagiar"... As palavras dos Deolinda ecoam de forma cada vez mais forte à medida que o novo ano se aproxima.

DESTAQUES 2011

FILAS DE DESEMPREGO

Espelho da crise em que o País se encontra, é rotina para mais de meio milhão de portugueses à procura de um emprego. As filas para não perder o subsídio começam cedo, ainda de madrugada.

JANEIRO

- Governo diz que vai travar novo aeroporto e o TGV.

- Função Pública anuncia acções cautelares contra cortes nos salários.

- ‘El Mundo’ escreve que Portugal está à beira do resgate. Serão necessários 80 mil milhões.

- Banco de Portugal antevê País em recessão em 2011.

- Tecto para indemnizações limitado a 12 salários.

FEVEREIRO

- Fisco força registo de bebés para que deduções sejam aceites.

- Novas tabelas de retenção castigam pensões acima de 2000 euros/mês.

- O governador Carlos Costa rejeita o plano de reestruturação do BPN.

- BPP: credores revelados. Figo tinha 1,2 milhões e Jorge Jesus 864 mil euros.

MARÇO

- Preço da farinha leva a 2.º aumento do pão em apenas dois meses.

- Dívida de Portugal a dez anos toca os 7,7%.

- Sócrates impõe limites às deduções e congela aumento das pensões.

- Camionistas fazem paralisação contra a subida dos combustíveis.

ABRIL

- Sócrates forçado a pedir ajuda financeira depois de a Banca ameaçar deixar de financiar o Estado.

- Elementos da troika em Portugal. Poul Thomsen lidera equipa do FMI.

- Troika obriga INE a rever contas por causa das Scut.

MAIO

- Memorando da troika impõe corte a pensões superiores a 1500 euros. Definido resgate de 78 mil milhões.

- Governo admite 13% de desemprego em 2013.

- Greve da Função Pública com fraca adesão.

- Auditoria à Estradas de Portugal revela buraco de dois mil milhões.

- Concurso do Fisco atrai sete mil licenciados em Direito.

JUNHO

- Portugal tem quase 600 mil desempregados e menos de metade recebe subsídio.

- Só cerca de 10 por cento dos portugueses goza férias no estrangeiro.

- Venda de automóveis ligeiros de passageiros cai 23,6 por cento.

JULHO

- Ministro das Finanças decide congelar salários da Função Pública para 2012.

- Américo Amorim é o português mais rico, com uma fortuna de 2,6 mil milhões de euros.

- Scut custam 3,2 milhões de euros por dia aos portugueses.

- Três mil casas foram devolvidas à Banca pelos proprietários, por falta de condições de pagamento.

AGOSTO

- 400 bombas de gasolina tiveram de fechar em Portugal desde o início do ano.

- Tarifas dos transportes públicos sobem 15%.

- Subida das taxas de juro penalizam créditos à habitação. Spreads também sobem.

SETEMBRO

- Ministério da Economia anuncia que vai cortar 500 cargos dirigentes.

- Endividamento das empresas públicas supera os 38 mil milhões de euros.

- 327 mil portugueses vivem do Rendimento Social de Inserção (subsídio).

- Governo alarga descontos da electricidade ao gás para as famílias mais carenciadas, mediante prova.

OUTUBRO

- Companhia aérea Easyjet assina acordo para estabelecer actividades em Lisboa, em Abril de 2012 e procura base complementar à Portela.

- Para reduzir custos, o Governo ordenou ao Metro de Lisboa que estudasse o encerramento às 23h00.

NOVEMBRO

- Governo anuncia subida do IVA na restauração de 13% para 23%, o que dará aos cofres do Estado mais 292 milhões de euros em 2012.

- País assistiu a greve geral em protesto contra a austeridade anunciada para 2012, que retira rendimento aos portugueses.

- Duas mil pessoas manifestaram-se junto ao Parlamento contra o Orçamento de Estado para 2012.

DEZEMBRO

- Pilotos da TAP desconvocam greve, mas prometem parar em Janeiro.

- Portugueses viram sobretaxa de IRS ser-lhes descontada do subsídio de Natal.

- Início da cobrança de portagens em todas as ex--SCUT do País.

POSITIVO

CARLOS COSTA

O novo governador do Banco de Portugal, com uma visão inovadora e sem vícios do que é preciso ser feito, imprimiu uma nova dinâmica e diálogo que faltava ao regulador.

JUROS

O BCE decidiu meter o preço do dinheiro ao nível historicamente baixo de 1% a maior parte do ano, baixando a prestação do empréstimo à habitação.

VÍTOR GASPAR

Foi implacável com a Madeira, não cedeu à pressão dos outros ministros na negociação do Orçamento e acabou com as golden shares, algo que Bruxelas impunha há anos.

MOVIMENTO 12 M

Sem partidos ou sindicatos, 300 mil pessoas de todas as idades saíram à rua para dar uma mensagem clara aos governantes: o povo está ‘à rasca’ com a austeridade.

TROIKA

Portugal tem conseguido consecutivas avaliações positivas da troika pelo cumprimento dos objectivos acordados.

NEGATIVO

CARLOS S. FERREIRA

BCP escorrega para novos mínimos históricos tornou-se notícia comum em 2011. As acções do banco chegaram aos 10 cêntimos.

SUBSÍDIOS

O Governo promete cortar na despesa e a pressão sobre os funcionários públicos continua, que perdem para o ano o subsídio de Natal e Férias, tal como os pensionistas.

ALEXANDRE MESTRE

O secretário de Estado da Juventude incentiva os jovens portugueses a emigrarem para encontrar trabalho, sugerindo que saiam "da zona de conforto".

DESEMPREGO

Conseguir um emprego torna-se uma tarefa hercúlea num País com cerca de 600 mil desempregados. Proliferam os recibos verdes e contratos a prazo num cenário que ainda se irá agravar.

PASSES

Os portugueses tiveram um aumento de 15% no preço dos transportes públicos.

2012 EM ANTEVISÃO

DESEMPREGO

O Governo prevê que o desemprego atinja os 13,4% em 2012, mas são vários os alertas de que o número será mais alto. Um dos maiores desafios é evitar que o número de desempregados não bata mais recordes.

FINANCIAMENTO

A escassez do crédito vai manter-se e uma das principais dificuldades será canalizar o pouco financiamento que existe para a economia. O Banco de Portugal terá de estar atento para evitar que um ‘credit crunch’ destrua a débil indústria.

NACIONALIZAÇÕES

2012 será o ano de regresso do Estado ao capital dos bancos. A dúvida está em saber se todas as instituições vão recorrer ao fundo e quais as que conseguirão manter a salvo o dinheiro dos accionistas.

EXPORTAÇÕES

Têm sido a âncora do País num momento em que a recessão é avassaladora. Há quem diga que o momento actual só não é pior graças às exportações. Ainda assim, se elas abrandarem toda a economia sofrerá o impacto de tal trambolhão.

FUTURO DO EURO

Há quem não ouse pronunciá-lo em voz alta. O fim do euro começa a ganhar dimensão. Para quem tem crédito à habitação não pode surgir pior notícia em 2012. Voltar a pagar juros de 15 ou 20% levaria a maioria das famílias a entregar a casa ao banco. 

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