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Recordações do Verão que não termina

"A minha sobrinha Maria Luísa, que desconfia dos países do Norte da Europa, sempre achou Isabelle muito atrevida"
18 de Agosto de 2013 às 15:00
Recordações do Verão que não termina
Recordações do Verão que não termina

A "pequena holandesa", como portas adentro D. Elaine se refere a Isabelle, a namorada do meu sobrinho Pedro, chegou na semana passada para a sua temporada de Agosto. Como é uma visita regular (vem quatro a cinco vezes por ano) e já tenta exprimir-se afavelmente na nossa língua, o seu lugar à mesa está garantido para as duas semanas que se demorará em Moledo. Há trinta anos isto não era possível, pelo menos na família que se honra de ter tido a Tia Benedita como matriarca e farol da sua genealogia: Isabelle teria de pernoitar em Caminha ou em Vila Praia de Âncora, pelo menos até se realizar o casamento com Pedro.

A minha sobrinha Maria Luísa, que desconfia dos países do Norte da Europa, sempre achou Isabelle muito atrevida; depois de murmurar algumas observações sobre o consumo de haxixe em Amesterdão, a votante esquerdista da família compreendeu que estava a batalhar em terreno minado: não só ninguém se preocupava com as drogas holandesas, como a simpatia natural (e a sua beleza rara, vinda das baixas temperaturas da Frísia) de Isabelle se coadunava perfeitamente com a desorganização ideológica de uma família que desistira há muito de chorar a partida do Senhor Dom Miguel – e aceitava que "as coisas são como são". O axioma é estranho, mas o universo mudou bastante nas últimas décadas.

Esse tempo passou. Hoje, Maria Luísa e Isabelle regressam da praia como amigas de sempre, e entre a jovem bióloga holandesa e a decoradora bracarense nasceu uma cumplicidade que admiro ao longe, porque representa uma vitória da minha parte. Para mim é um argumento fatal: insinuo que Maria Luísa está "mais conservadora" por contágio com a representante do luteranismo neerlandês (e logo frísio), um benefício que a idade arrasta consigo sem prevenir. Maria Luísa cede aqui e ali, sem reconhecer a evidência – mas aceitando que "as coisas são como são" e que os adolescentes estão cada vez mais absurdos ("os adolescentes" são os seus dois filhos) por culpa da educação liberal dos tempos modernos.

Mas o Verão de Agosto não é um território para combates ideológicos: uma modorra vespertina recompensa as neblinas matinais e a nortada quase permanente que pica o mar junto da Ínsua, onde ele é mais azul e parece mais profundo. Maria Luísa encolhe os ombros. O seu optimismo é feito de notícias sobre como o mundo está desregulado e irreconhecível, por culpa do capitalismo, do aquecimento do planeta ou da maldade dos poderosos. Entretanto, lê romances. Há dois dias começou com ‘Orgulho e Preconceito’ e temo que os resultados sejam devastadores.

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