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"Recusarei que peçam desculpa pelo Darfur"

Daoud Hari está vivo. É um homem magro e alto, tem 35 anos e, sim, respira. Hari conta como foi expulso da sua aldeia natal, na região sudanesa do Darfur, e o que viu quando lá voltou, servindo de guia e intérprete a jornalistas. Fala baixo, mais baixo do que a chuva a escorregar na janela. Olha para cima quando sente a água a querer cair-lhe dos olhos. Tem as mãos apertadas uma contra a outra, como se entre elas segurasse a vida do seu povo. Levanta-se para fumar um cigarro. E então – talvez sejam os dois metros de altura aliados à magreza ou então o vagar dos gestos – toma-nos a sensação repentina de que aquele homem já morreu. Parece que Hari só ficou entre os vivos para que estes, ouvindo o que ele conta, previnam uma tragédia maior no Darfur.
1 de Junho de 2008 às 00:00
'Recusarei que peçam desculpa pelo Darfur'
'Recusarei que peçam desculpa pelo Darfur' FOTO: Sérgio Lemos

Hari diz um milhão, a ONU 300 mil, o Governo sudanês 10 mil. Há discordância sobre o número dos que morreram desde 2003 na 'terra dos Fur'. 'Dar'significa 'terra' e os povos que vivem mais a sul, essencialmente da agricultura, são os 'Fur'. Hari é Zaghawa, tribo não-árabe de pastores tradicionais e sedentários. Traz na carne as marcas de pertença tribal: inscrições como aspas nas fontes. Foram-lhe gravadas pela avó quando ele era bebé.

Tribos não-árabes e árabes, nómadas, costumavam dar-se bem no Darfur, região ocidental sudanesa mais ou menos do tamanho da França. Nessa altura, se os pastores nómadas descessem até terras dos Zaghawa em busca de pastagens para o gado 'teriam pedido autorização e talvez alguns camelos tivessem mudado de mãos', conta Hari, que se lembra de ser criança e acompanhar o pai a festas em tendas.

Tudo mudou quando o governo árabe do Sudão, querendo os povos mais fixados fora das terras – de maneira a permitir a exploração de recursos naturais, nomeadamente do petróleo de Abyei pelas companhias chinesas – começou a fornecer 'aos nómadas árabes armas, helicópteros, bombardeiros e tanques para resolver as disputas'.

Em 2003, a aldeia onde Hari nasceu foi atacada pelas milícias armadas. Houve disparos a partir de helicópteros contra homens, mulheres e crianças. Ele organizou a fuga para o deserto enquanto o irmão mais velho, Ahmed, usava uma arma para reter as milícias. Ahmed foi morto. Daoud conseguiu alcançar a fronteira do vizinho Chade.

Em ‘O Intérprete - Relatos de um Refugiado do Darfur’, conta como convenceu uma mulher que guardava nos braços o filho sem vida a entregar-lho. Disse-lhe que o bebé já tinha voado para longe. No Darfur as crianças morrem com tanta facilidade que só recebem um nome sete dias após o nascimento. As que não sobrevivem são consideradas aves passageiras que não quiseram ficar – como o bebé da mulher que caminhava no deserto. Debaixo de uma árvore, Hari encontrou uma mulher e três crianças mortas. Ocorpo da mãe estava amarrado à árvore. Tinha usado o xaile para suicidar-se. Num campo de refugiados do Chade, um zaghawa pediu para falar com Hari. Perguntou-lhe se o miliciano que empurrou a baioneta contra o corpo da filha quando esta corria para ele gritando 'abba, abba' (pai) seria um demónio. Quis saber qual a natureza daquele que depois levantou a baioneta e, com ela, o corpo da menina, ainda viva. A olhar para o pai. A pedir ajuda.

O irmão Ahmed tinha morrido a defender a aldeia. O conhecimento da língua inglesa seria a arma de Hari. Em três anos voltou ao Darfur seis vezes. Foi guia e tradutor de jornalistas ocidentais. Diz tê-los visto de joelhos e com as mãos na cabeça. Diante do amontado dos corpos de 81 jovens esfaqueados com catanas, os repórteres da BBC tiveram de regressar aoChade, onde ficaram, durante três dias, internados numa clínica.

Hari foi detido por um grupo rebelde reconciliado com o governo quando levava ao Darfur um jornalista americano, Paul Salopek, ao serviço do ‘Chicago Tribune’. Provavelmente deve a vida a Salopek, que recusou separar o seu destino do de Hari e do motorista chadiano Ali. OPapa, o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e o vocalista dos U2, Bono, contam-se entre as personalidades que intercederam por eles junto do governo sudanês. George Clooney também ergueu a voz pedindo às Nações Unidas que protegessem o povo do Darfur. Hari e Ali foram torturados durante 35 dias. Julgaram-se mortos. Sobreviveram.

Num hotel de Lisboa, olhando através da janela a chuva, que tanta falta faz na terra dele, cair no passeio, Daoud Hari ergue por um momento a voz para dizer 'não aceitarei que alguém peça desculpas pelo Darfur'. Odesconhecimento, a suposta ignorância serviram antes – no Ruanda, em 1994 – de desculpa para a inércia da comunidade internacional diante do genocídio.

Em 2006, o Conselho de Segurança do ONU aprovou o envio de 20.600 capacetes azuis para o Darfur, que se juntariam à força mal equipada e insuficiente da União Africana (UA). OSudão considerou tal medida um acto de guerra e no dia seguinte lançou uma grande ofensiva na região. Dois anos depois, a maior parte do contingente da ONU ainda não chegou ao Sudão. Lá permanecem sete mil soldados da UA, com a missão de fiscalizar o acordo de paz entre o governo e um dos 28 movimentos rebeldes. Não intervêm se as milícias Janjaweed, armadas pelo governo, ou outro movimento rebelde entretanto cooptado atacarem aldeias.

Na semana passada, o presidente do Sudão, Omar Bashir, ameaçou voltar à guerra. 'É preciso agir ou então vamos perder mais 350 mil vidas. Não preciso que peçam desculpa, mas que façam alguma coisa.' Hari vive há cerca de um ano nos Estados Unidos. Mas a alma dele ficou com o seu povo. Tal como os bebés que morrem, voou para longe.

IDENTIFICAÇÃO APESAR DA DISTÂNCIA

Em ‘O Intérprete’, (ed. D. Quixote), Daoud Hari senta-se ao lado do leitor para contar-lhe a sua história. Partilha experiências e promove a identificação. Diz que, em vez de uma bicicleta, quando era menino teve um camelo, Kelgi. Seja onde for, as crianças brincam. E, no Darfur, como em qualquer parte do Mundo, os pais e as mães querem proteger os filhos.

O PREÇO QUE AS MULHERES PAGAM

Cabe-lhes a elas, às mulheres do Darfur nos campos de refugiados chadianos, ir buscar lenha para cozinhar os alimentos. O preço é a violação. No campo de Abéché, Daoud Hari encontrou três raparigas. A mais velha tinha 14 anos. A mais nova talvez nove. “Foram violadas muitas vezes, mas em breve precisam de voltar para ir buscar mais lenha. Choram ao falar nisso.” Com Hari estavam Megan e Lori, norte-americanas ao serviço de uma agência humanitária. Ouviram as histórias de centenas de mulheres e meninas, contaram-nas no Congresso e no Departamento de Estados dos EUA e, por uma vez, foram atribuídas verbas destinadas a financiar segurança armada para acompanhar as refugiadas na demanda de lenha. “Talvez fosse possível as nações ricas da ONU enviarem combustível juntamente com a comida, ou ajudarem os refugiados a fabricar fogões eficientes”, sugere Daoud Hari. 

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