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REFORMADOS: TODO O TEMPO DO MUNDO

O actor Jack Nicholson está a encantar o mundo na pele de um reformado a atravessar uma crise existencial. E por cá, como vivem os nossos aposentados? Relatos de quem se vê com tempo a mais e esperança a menos.
7 de Fevereiro de 2003 às 19:24
Warren Schmidt, 66 anos, olha entediado para um enorme relógio de parede onde, dentro de breves momentos, os ponteiros vão registar o fim de mais um dia de trabalho. No entanto, e ao contrário do habitual, quando Warren se levantar será para não mais voltar.

Chegou o momento da reforma. E agora? Seguindo o rasto do filme “As Confissões de Schmidt”, com Jack Nicholson, fomos tentar saber o que acontece nesse momento a milhares de homens e mulheres que, de um dia para o outro, se vêem desocupados. Retrato dos reformados portugueses, de Norte a Sul do País

MEDO DE PARAR

Sentando num banco corrido da sala de espera da Universidade Internacional para a Terceira Idade, de costas para a janela, Vasco Santos aproveita a luz que vem da rua para pôr a actualidade em dia. Lê o jornal e aguarda calmamente pela esposa, que desde há algum tempo estuda naquela instituição de ensino alfacinha.

Enquanto Maria Eugénia dos Santos não sai da aula, Vasco, hoje com 79 anos, acede a contar um pouco do seu percurso até à reforma. “Vim de Luanda no período difícil dos anos 70 e arranjei trabalho numa empresa aqui da Capital, na área da electromecânica, que era a minha especialidade. Por lá continuei até ao momento da reforma, os tais 65 anos”. No entanto, mais do que habituado ao dia-a-dia do trabalho, não foi capaz de parar e atravessou uma fase complicada. “Ao fim de três meses tinha uma depressão nervosa, não estava habituada a ser uma espécie de mulher a dias, a viver fechado em casa, e começaram os problemas emocionais”. A situação que muitos julgavam difícil foi resolvida antes mesmo de aviar as receitas passadas por dois psiquiatras, já que “o melhor remédio era mesmo voltar a trabalhar”. Um dos seus filhos trabalhava na Rádio Renascença, arranjou-lhe emprego como contínuo e Vasco nem pensou duas vezes. Desde então, nunca mais parou, tendo passado mais tarde para o centro de documentação.

Dedicado, fez amigos num ápice, e quando Rui Marques saiu para fundar o Grupo Forum lá estava ele, fiel e companheiro, a seu lado, pronto para o que desse e viesse. Durante nove anos fez de tudo um pouco; trabalhou no armazém de manutenção, instalou telefones, conferiu redes, nunca disse que não a um serviço. Só em Dezembro de 2002 decidiu entrar na reforma. “Com esta idade, vai sendo tempo de fazer contas ao futuro e pensar numa vida mais regrada. Porque também não quero morrer a trabalhar”, afiança.

De qualquer forma, parar é coisa que não está nos seus planos. Por enquanto, vai ajudando a esposa nas deslocações para a escola, onde começa a descortinar uma nova actividade, provavelmente num curso que o levará a trabalhar com madeira. “As vagas estão cheias, mas na próxima época devo estar cá nas aulas.

Portugal não oferece muitas propostas para os idosos, e também não me vejo a jogar às cartas no jardim”, admite, para concluir que não há nada pior do que cruzar os braços e esperar o fim. “Se estivesse em casa já teria morrido. Não aconselho ninguém a fazê-lo”, diz.

CEDO DE MAIS

A história de Júlio Dinis Arrobe não é tão feliz. Nascido a 6 de Outubro de 1936, em Portimão, é hoje um empregado de escritório na reforma. Casado, duas filhas e três netos, vive de forma serena uma fase que, antes, foi problemática. A firma onde trabalhava faliu. Na altura, Júlio tinha mais de 50 anos e ficou sem receber vários meses de salário. Velho para conseguir um novo emprego e novo para se reformar, viveu perto de três anos do subsídio de desemprego.

Sem conseguir trabalho, não lhe restou outra hipótese se não a da reforma. Obteve-a aos 57 anos. “Uma idade em que me sentia com forças físicas e psicológicas para poder continuar a trabalhar”, diz. Mas “sempre que me dirigia a alguma empresa a solicitar trabalho, com uma ou outra desculpa, recusavam-me”.

Na sua forçada condição de reformado, Júlio não se sentia bem. “Havia dias em que nem me apetecia sair de casa. Era um inútil que andava por aí”, desabafa, recordando que começou a trabalhar muito jovem e nunca esteve parado. “Era triste ver-me, naquela idade, sem fazer nada”.

Este homem parece, em quase tudo, a personagem do filme de Jack Nicholson. E o que é que o salvou a ele, que não fez uma viagem ao encontro de um familiar? “O que me valia, por vezes, era a amizade de algumas pessoas, que me davam ânimo, procuravam preencher-me o tempo, nem que fosse com dois dedos de conversa”, explica. No leque de ‘grandes amigos’ inclui a família e os netos, que lhe deram apoio naqueles dias em que, confessa, lhe “passavam muitas coisas pela cabeça”. Infelizmente, o seu caso não é único em matéria de desespero.

INVALIDEZ ROUBOU-LHE O TRABALHO

Manuel Almeirim deixou de trabalhar aos 58 anos. Um pequeno tumor benigno na coluna tirou este homem da oficina da Citroën, em Évora, onde trabalhava na secção de peças. Em Maio de 1990, Manuel Almeirim foi operado. Apesar do sucesso da cirurgia, as fortes dores obrigaram-no a uma reforma antecipada por invalidez.

Assim, os últimos 12 anos têm sido passados com alguma mágoa, até porque, confessa, nunca encontrou um trabalho compatível com o seu estado de saúde. “Quando fiquei recuperado, procurei trabalho, mas nunca encontrei um que me servisse. Com a minha idade apenas poderia arranjar qualquer coisa que não exigisse esforço físico. Ofereciam-me sempre trabalhos pesados”.

Mesmo cheio de “saudades” do trabalho, Manuel foi-se habituando à nova realidade da sua vida. “Acho que também já chega”, diz, como que a convencer-se. Agora, divide as horas vagas por pequenos trabalhos em casa, pela leitura e convívio com amigos.“Passo muito tempo na sala de convívio do INATEL, onde jogo às cartas. Também gosto de futebol; quando posso vou ver o Lusitano de Évora”.

UM REFORMADO FELIZ

Reformado há 11 anos, depois de ter dedicado quase metade da sua vida à mesma profissão, Severino Pinheiro, considera-se hoje “um homem feliz”. Passou por um período inicial difícil, pleno de angústia, em que sentia falta da sua rotina diária no emprego e tinha saudades das pessoas com quem diariamente convivia. Porém, aos poucos, foi criando uma nova maneira de estar na vida, e conseguiu adaptar-se ao facto de já não trabalhar. “Estava habituado a fazer todos os dias o percurso Braga - Póvoa de Lanhoso. Conhecia os passageiros que viajavam na camioneta e sentia que pertencia a uma família, que era estimado por todos, dentro e fora da empresa. Por isso, no início, foi muito difícil”, conta, sublinhando que houve momentos em que quase desejou voltar a trabalhar.

Actualmente, Severino tem uma vida mais estável. “Agora tenho uma vida diferente! Saio todos os dias, habitualmente da parte da manhã, e dou as minhas voltas: vou às compras, visito os amigos em Braga e vou à Igreja”, explica. E não esconde que a família e os amigos contribuíram muito para o ajudar a encarar esta nova etapa da vida de forma positiva, recordando que um dos melhores momentos do dia é a parte da tarde, quando fica em casa com o seu filho mais novinho, que tem apenas dois anos de idade.

SAUDADES DO QUE NÃO VIVERAM

“Histórias temos muitas, mas, assim de repente, não estou a ver bem quem é que não se sente bem na sua pele de reformado ou tenha muitas saudades da vida activa”, diz o presidente do Centro de Convívio dos Reformados do Porto, fazendo uma panorâmica pelas mesas de jogatana ou por isolados leitores de jornais. Os que foram interpelados pelo olhar pesquisador afirmam que também não se lembram de ninguém, com um encolher de ombros ou um leve torcer de lábios. Olham-se uns aos outros e por um momento sentem-se culpados da sua felicidade.

Joaquim Osório, 79, e José Fonseca, 83, são dois históricos do Centro. O primeiro é tesoureiro, o segundo deixou o cargo de presidente há quatro anos.

Começaram ambos a trabalhar na mesma tipografia: a do Hospital do Conde Ferreira. “Pois, era no manicómio, pertencia à Misericórdia. Comecei aos 13 anos, como aprendiz, e aqui o Fonseca era meu chefe”, diz Osório. “Eu também entrei como aprendiz, só se subia de categoria quando havia vaga, mas aqui o Osório saiu de lá, foi para o STCP, para os eléctricos, e acabou em inspector”, atalha Fonseca, orgulhoso pelo amigo. “Inspector foi no fim. Fui cobrador, guarda-freio, revisor, fiscal, sub-inspector e depois é que fui inspector”, acrescenta Fonseca, sempre humilde. “Mas chegaste a inspector”, insiste Fonseca. “Só que na tipografia tu eras meu superior”, defende-se Osório.

Os papéis estão invertidos, cada um prefere falar do outro. Amigos de sempre, reformaram-se ambos há 27 anos, não guardando saudades do trabalho. “Quem é que pode ter saudades de andar com um tabuleiro carregado de impressos à cabeça, do Conde Ferreira ao Hospital de Santo António, e regressar com o pesado tabuleiro à tipografia, sempre a pé?”, interrogam-se. “Saudades, só do que ainda não vivemos”, filosofa Fonseca.

Histórias para contar não faltam, ao fim e ao cabo, trabalhar na tipografia de um manicómio deve render episódios caricatos, como aquele em que o Fonseca foi ameaçado por um doente mental que lhe apontou um facalhão. “E aqui do Centro, não nos quer ouvir? É pena, porque isto é muito bom, temos actividades, damo-nos bem… Pronto, está bem, fica para outra vez”, lamenta Osório.


À ESPERA DO ÓSCAR

Em “As Confissões de Schmidt”, Jack Nicholson, um dos mais brilhantes actores de Hollywood, veste a pele de um homem que, depois de décadas a vender seguros, se vê a braços com um futuro incerto, que se torna ainda mais cinzento quando a mulher acaba por falecer. O que fazer então? Qual o caminho a seguir? De que é que valeram tantos anos de dedicação ao trabalho? Para quem é que Warren foi mesmo importante? Estas e outras questões criam-lhe uma crise existencial, que combaterá numa viagem ao encontro da filha, prestes a casar. Com esta história, Jack Nicholson poderá encontrar o caminho para o Óscar. Por agora, fica a alegria do Globo de Ouro e a assinalável proeza de ter encarnado um homem da sua idade. É que, aos 65 anos, Nicholson já se deve ter apercebido de que, mesmo com actrizes jovens ao seu lado, as rugas são indesfarçáveis.
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