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“Regressámos todos com vida, mas foi apenas sorte”

"No Quitexe vivi os momentos mais marcantes da minha comissão".
Marta Martins Silva 14 de Julho de 2019 às 01:30

Assentei praça em Mafra em 1961, depois fui para Castelo Branco e para Abrantes, onde  integrei, como furriel miliciano, o pelotão de morteiros 933, constituído pelo alferes Figueiredo, o sargento Xisto, o furriel Tavares e eu, Mário Brilhante.

Saímos no dia 16 de janeiro de 1964, no navio ‘Vera Cruz’, e no dia 26 de janeiro de 1964 chegámos a Luanda, em Angola.

Fomos instalados no Grafanil e depois fomos numa coluna de camião até ao Quitexe, a cerca de oitenta       quilómetros  de  Carmona.

Ficámos no Quitexe a tomar conta das sanzalas. Estávamos numa povoação onde a guerra tinha começado, o movimento de matança dos brancos começou em fevereiro de 1961 e coincidiu com a minha entrada para Mafra.

Estivemos lá, cerca de quarenta soldados, para uma população indígena de 150 a 200 nas várias sanzalas. Alguns dos que lá estavam nas sanzalas e que nós protegíamos eram comprados por cachaça ou por outra coisa qualquer e acabavam por integrar a outra rapaziada contra nós, mas de uma forma geral, tínhamos um convívio saudável e humano com aqueles indígenas.

O amigo que morreu
O  momento  mais  difícil  para mim foi quando soube que um ex-colega meu do colégio em Santarém estava  num pelotão a   uns  quarenta ou cinquenta quilómetros e eu fui lá visitá-lo, mas quando lá cheguei tinha morrido  na véspera, num ataque. Estava estendido ainda, nem tinha sido enterrado.

Foi o momento mais difícil para mim.E o outro foi quando me mandaram a mim e aos meus soldados matar um indígena. Eu disse que em legítima defesa matava até um irmão meu, mas que a frio não matava nenhum homem, nem eu nem ninguém que estivesse debaixo do meu comando.

No dia seguinte, o indígena apareceu degolado, nunca esqueci.

Nunca, nos dois anos de comissão, me senti realmente em perigo. Estava numa zona bastante complicada, mas íamos entre vinte a trinta para sítios perigosos e mal frequentados, mas tive a sorte de nunca sofrer um ataque.

Até houve uma situação absolutamente ridícula, em que um dos meus soldados ia com a arma destravada e às tantas, estávamos nós no meio do mato, ouviu-se um tiro. Foi a arma do rapaz que descarregou, porque o meu pelotão nunca foi atacado por ninguém.

Regressámos todos a Portugal, não morreu ninguém. Foi sorte, é a única explicação.

Na guerra, pelo menos na minha guerra, houve outras coisas que me ficaram gravadas. Como a história do Pacheco e da Dona Maria, a Padeira de África. Pacheco era um jovem beirão que tinha uma irmã bonita que foi abusada por um senhor de posses.

O Pacheco limpou a honra da irmã com um tiro e foi deportado para Cabo Verde, onde se enamorou da Maria, uma africana.

Havia febres e a solução era passarem navios de guerra por lá e levarem-nos para Angola. O Pacheco levou a Maria mas alguém disse: ‘Ela não entra.’ ‘Então se ela não entra, eu também não vou.’ Voltaram com a palavra atrás e o Pacheco conseguiu ir para Angola com a Maria. Foram para Quitexe, onde eu fiz a minha comissão e onde os vim a conhecer, tinham uma taberna-restaurante-loja que ficava mesmo em frente ao meu quarto.

Maria, quando viu uns fulanos com uns canhangulos (espingardas improvisadas com canos  rudimentares),   passou   com uma  catana  pelo  pescoço  deles. Tanto que quando o [Presidente da República] Américo  Tomás veio inaugurar  a cidade de Carmona, condecorou a Maria.

A última vez que soube dela estava em Lisboa, a lavar escadas, mas recusou a ajuda que eu e uns camaradas de África lhe tentámos dar. Era a nossa memória de África boa e nós queríamos dignificá-la. Mas a Dona Maria disse: ‘Sempre vivi à custa do meu trabalho, mas obrigada.’

Morreu a lavar escadas no Intendente.

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