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Correio da Manhã

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Regresso a Nero Wolfe

O “mais talentoso de todos os detectives privados” surgiu pela primeira vez no romance ‘Picada Mortal’. Rex Stout estava lançado
Francisco José Viegas 26 de Agosto de 2012 às 15:00
Francisco José Viegas explicou decisões da Secretaria de Estado da Cultura
Francisco José Viegas explicou decisões da Secretaria de Estado da Cultura FOTO: João Cortesão

Já lá vai o tempo em que, de quinze em quinze dias, reservava a hora de almoço de sexta-feira para abastecer a mochila com livros policiais – os tempos são outros. Mesmo assim, munido de uma nota de cinquenta euros entrei no meu alfarrabista (e loja de livros em segunda mão) das boas e más ocasiões. Saí com doze livros de Rex Stout, o que servirá para aplacar mais de um mês de insónias com a figura, as investigações, os tiques, as obsessões e as vitórias fulgurantes de Nero Wolfe.

Li-os todos há mais de vinte anos, mas perdi uns, emprestei outros, deixei alguns em lugares que já não existem. Li quarenta, aliás (o que, segundo as contas, me obriga a confessar não conhecer os enredos de seis das histórias de Nero Wolfe). Não comecei com ‘Picada Mortal’ mas com ‘A Caixa Vermelha’ (tenho o exemplar, comprado na Livraria A Gutenberg, em 1979) e os mais lidos, até hoje, foram ‘A Montanha Negra’ e ‘Terror a Prestações’.

ISSO EXPLICA-SE.

Nero Wolfe pesa cerca de 150 quilos, nunca sai de casa em investigação, vive numa casa na Rua 35, NY; o seu tempo divide-se entre as refeições e a cozinha, a leitura e as orquídeas; o resto do tempo é dedicado ao trabalho de detective e ao consumo de cerveja. Sair de casa, praticamente nunca – e para trabalhar, impossível. Das 9 às 11 e das 16 às 18, orquídeas. As histórias são narradas por Archie Goodwin, o seu secretário particular e detective-adjunto.

O que acontece em ‘A Montanha Negra’ e em ‘Terror a Prestações’ é que Nero Wolfe sai de casa. Não é a única vez, há excepções garantidas, desde ‘Caçada a Mr. X’ a ‘Gambito’. Mas em ‘A Montanha Negra’, Wolfe vai até à sua natal Montenegro, na então Jugoslávia, para perseguir os assassinos do seu amigo Marko Vukcic; e em ‘Terror a Prestações’ é obrigado a sair de casa para perseguir e eliminar o seu inimigo fatal, ‘X’, aliás Arnold Zack, o génio do mal que lhe telefonara em três livros anteriores e que em ‘Caçada a Mr. X’ lhe mandara destruir as estufas de orquídeas.

É sacrilégio, para qualquer leitor de Stout (que não se dedicou apenas a Nero Wolfe), catalogar os seus hábitos e peculiaridades –desde a sua aversão à "histeria feminina" (‘alguma’ misoginia, decerto), à incompreensível obsessão por ovas de sável, da relação com o sargento Cramer à paixão pela cerveja, da sua cultura enciclopédica à paixão pelo amarelo. Isto porque é inadmissível que não sejam conhecidos.

Archie Goodwin (há um certo número de traduções daninhas em que eles se tratam por ‘tu’; nunca podia ter acontecido) , o seu narrador natural do Ohio, merece também cuidado, não só pela sua relação com a milionária Lily Rowan ou pela paixão pelo basebol, mas também por ser um janota americano dos anos cinquenta que assiste com paciência e arrogância o génio de Wolfe – é o próprio Wolfe que se assume como o mais talentoso de todos os detectives privados do universo (com a excepção de um, francês, que nomeia ou a quem recorre ocasionalmente).

Não se incomodem por mim. Tenho noitadas para um mês e tal. Aviem-se.

Autor: Rex Stout

Personagem: Nero Wolfe

Género: Policial

EXPOSIÇÃO: CENTENÁRIO DE JORGE AMADO

A Biblioteca Nacional programa excelentes exposições e é uma pena que algumas passem despercebidas. Vale a pena visitar, até ao final de Setembro, aquela que assinala o centenário do nascimento de Jorge Amado – e que propõe recordar a presença do escritor entre nós. Durante anos, Amado foi o escritor de língua portuguesa mais vendido em Portugal .

Tema: Jorge Amado em Portugal

Local: Biblioteca Nacional, Lisboa

CONCERTO: DEAD COMBO

Sou ‘Dead Combo dependente’. E tenho uma grande admiração pelo duo de Tó Trips e Pedro Gonçalves – e pelas harmonias que perseguem. Há neles uma certa ideia de perdição e de consolo que passa de disco para disco – até para este ‘Lisboa Mulata’ agora em circulação. Vale a pena ouvi-los – e dizer a quem não os ouviu, que é uma pena.

Espectáculo: Dead Combo & Royal Orquestra das Caveiras

Data: 31 Agosto, Palácio de Cristal, Porto

FILME: ‘O LEGADO DE BOURNE’

A ‘saga de Jason Bourne’ continua, agora com Jeremy Renner no lugar de Matt Damon. A história de Bourne atravessa vários filmes – e, antes deles, vários livros, os de Robert Ludlum, peso pesado de histórias de espionagem. Ludlum era um ‘grande profissional’ da matéria, e os filmes prolongam o drama do personagem central.

Realizador: Tony Gilroy

Intérpretes: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton

Em exibição nos cinemas

FUGIR DE...

‘OS MERCENÁRIOS 2’

Nunca se viu matar tanta gente em tão reduzida quilometragem de película. Stallone e Schwarzneg-ger aplicam botox com generosidade – mas o que é inexplicável é apresentarem um Chuck Norris em dieta, sem nódoas negras. Imperdoável. ‘Os Mercenários’ parece uma máquina de picar carne com piadas endogâmicas. Depois disto, eu sei, vão ver o filme, não é?

Realizador: Simon West

Em exibição nos cinemas

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