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Rei do café carregou muita saca às costas

Nasceu pobre e não estudou além da instrução primária. Hoje, está entre os 20 mais ricos de Portugal, é comendador e doutorado honoris causa pela Universidade de Évora.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Rei do café carregou muita saca às costas
Rei do café carregou muita saca às costas FOTO: Miguel Baltazar/Jornal Negócios
No dia do exame da 4.ª classe, Manuel Rui, de fatinho completo e sapatos novos para a ocasião, recebeu um rasgado elogio do professor que lhe ensinara durante toda a escola primária: “Tu vais longe, meu rapaz, vais longe” – disse-lhe o mestre-escola com a certeza de um profeta.
O pai, Manuel Nabeiro, e a mãe, Maria Azinhais, exploravam uma pequena mercearia, em São Bartolomeu, Arronches, onde também torravam café. Rui, a partir dos 13 anos, começou a aprender com o pai os segredos do negócio – e, por esta década de 40, era o contrabando que matava a fome às gentes da raia. Carregou muita saca às costas.
Após a morte do pai, Rui, aos 17 anos, expande a venda de café para lá da fronteira – com tanto êxito que os tios o desafiam para uma sociedade: nasce a Torrefacção Camelo. O negócio ressente-se no ano e meio em que o jovem gerente é obrigado a assentar praça no quartel de Estremoz – mas cresce quando Manuel Rui passa à peluda.
As relações com os tios são tensas. Assusta os sócios com planos ousados para conquistar mercado em Portugal e Espanha – enquanto os outros se contentam com aquilo que têm. Ele mortifica-se de impaciência. Até que, em 1961, aos 30 anos, desfaz a sociedade e funda a firma Manuel Rui Azinhais Nabeiro – e lança a marca Delta.
Encontra um pequeno armazém em Campo Maior, não mais de 50 metros quadrados, onde instala duas máquinas com capacidade para torrar 45kg de café por dia. Empata tudo o que tem. Se o negócio falhar, será a ruína. Trabalha como um condenado: levanta-se às três e meia da manhã, deita-se quando não pode mais. Em dois anos, faz fortuna. O dinheiro traz-lhe reconhecimento social e político: foi vereador e vice-presidente da câmara, nos anos 60, e presidente, em 1972. Mas o governador civil, que era quem nomeava os autarcas, não gostava que Rui Nabeiro fosse padrinho de tanta gente do povo – e correu com ele da presidência do município. Volta à Câmara de Rio Maior, depois do 25 de Abril de 1974. Adere ao PS e a vila torna-se bastião socialista.
Os negócios nunca pararam de lhe correr bem. Mas, em 1986, Rui Nabeiro sofre a humilhação de um mandado de captura. Avisado a tempo por voz amiga, refugia-se em Badajoz – donde não pode ser extraditado. A administração fiscal reclama cerca de um milhão de contos de impostos.
O empresário contrata um advogado de peso: Proença de Carvalho – que durante dois anos luta nos tribunais e consegue vencer a máquina fiscal. Rui Nabeiro, afinal, nada devia à Fazenda. Regressa a Portugal. Nos tempos de ‘exílio’ em Espanha fundou uma nova empresa – os cafés Camelo, a marca da sociedade com os tios e entretanto extinta.
Mas o seu orgulho é a Delta: 45 por cento do café consumido em Portugal sai da fábrica que construiu há quase 50 anos.
SUCESSOR
Rui, formado em gestão, sucedeu ao avô no império Delta. Estagiou na Suíça, onde aprendeu a comprar matéria-prima nos mercados internacionais, e em Itália, numa fábrica de máquinas de café. O avô confiou-lhe os segredos mais bem guardados: como fazer as melhores misturas.
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