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Requiem vivace

Em ‘Inquietos’, o realizador Gus Van Sant consegue filmar a história de um enamoramento sob a sombra da morte. Sem nunca tropeçar na tristeza
Joana Amaral Dias 20 de Novembro de 2011 às 00:00
Requiem vivace
Requiem vivace

Montaigne dizia que se fosse um escrevinhador faria um compêndio sobre as várias formas pelas quais os homens têm morrido, pois qualquer um que ensinasse a humanidade a morrer ensiná-la-ia a viver. É. Mas a educação para a morte nunca chegou a nascer. Antes pelo contrário. Como comenta Julian Barnes em ‘Nada a Temer’, se quando o Mundo começou a recear a morte parou de falar dela, e ainda mais quando a esperança de vida aumentou, a coisa sumiu da agenda quando deixou de acontecer "no meio de nós", em casa.

Para o vencedor do ‘Booker Prize’, "hoje tornamos a morte o mais invisível possível e parte de um processo – do médico ao crematório – no qual profissionais e burocratas nos dizem o que fazer, até ao ponto de sermos deixados entregues a nós próprios, sobreviventes parados com um copo na mão, amadores na aprendizagem de como enlutar".

Logo, chegados à adolescência, agora já não ontológica, mas individual, quando chega a descoberta do amor e da morte, se a primeira é difícil, a segunda é pior. Talvez por isso, e pelo seu habitual interesse por esta etapa, no seu último filme, Gus Van Sant centra-se sobre a história de um muito jovem casal tipo ‘Romeu’ e ‘Julieta’. Ele perdeu os pais e pensa em livrar-se do seu próprio corpo. Ela, traída pela carcaça, tem um tumor e três meses de vida. Nunca é boa hora para a morte.

Mas o que será melhor: morrer sem paixão ou morrer apaixonado? É mais fácil deixar a vida quando nada prende ou preferível gozar até morrer? Os adolescentes de Van Sant podem hesitar, mas preferem a segunda, tornado o filme num requiem allegro. E unindo aquilo que não pode ser separado, riso e choro, amor e morte, que Freud tão bem soube iluminar e que Foucault junta dizendo que ambos calam o corpo, acalmam-no, fecham-no e selam-no.

MORRER DE AMOR

O par conhece-se, justamente, num funeral. Da mesma maneira que existem penetras em festas e casamentos, ele é clandestino de velórios. Não por sentimentos mórbidos. Mas porque quer descobrir a morte, essa senhora que, nos tempos domésticos de que fala Barnes, era negra de foice e que hoje não tem cor. Tanta ciência depois, saber da morte talvez seja mais raro que na época de Montaigne ou de Flaubert que também afirmava que tudo tem de ser aprendido, desde falar até a morrer.

Mediante esse tabu, os protagonistas de ‘Inquietos’ aprendem a morrer através da natureza, elemento constante no filme e, aparentemente, a única que sabe que a morte é assunto dos vivos. Aliás, a apaixonada considera-se uma naturalista, adora Darwin, esse grande intuidor de Gaia e segue a ave que, descobrindo a cada nascer do sol que tem a vida que não esperava possuir ainda, celebra-a cantando. Cantando muito, como se não existisse amanhã.

RESUMO

Depois de ‘Milk’ e ‘Paranoid Park’, Gus Van Sant regressa com um romance peculiar entre dois jovens.

Título original: ‘Restless’

Realizador: Gus Van Sant

Intérpretes: Henry Hopper e Mia Wasikowska

Em exibição nos cinemas

LIVRO: ‘PÁTRIA UTÓPICA’

Durante a ditadura de Salazar também se deu uma fuga de cérebros. Uma dessas evasões, para a Suíça, ficou conhecida como o ‘grupo de Genebra’, composto por, entre outros, António Barreto, Ana Benavente, José Medeiros Ferreira, Eurico Figueiredo e Valentim Alexandre, autores deste livro que fala do exílio. Não podia ser mais actual.

Autor: António Barreto, Ana Benavente, Eurico Figueiredo, José Medeiros Ferreira e Valentim Alexandre

Prefácio: Amadeu Lopes Sabino

Editora: Bizâncio

360 páginas

DOCUMENTÁRIO: ‘HISTÓRIAS DE SHANGAI - QUEM ME DERA SABER’

Agora que a Europa mendiga apoio à China, talvez o interesse dos ocidentais por esse país abandone, definitivamente, o orientalismo e suba de tom. Este documentário centra-se nas profundas transformações de Xangai desde a vitória comunista de 1949 e mostra como o Império do Meio é hoje imprevisível. Mesmo para si próprio.

Realização e argumento: Jia Zhang-Ke

Duração: 125 minutos

Em exibição nos cinemas

FILME: ‘ISTO NÃO É UM FILME’

Em tempos, recomendei nesta mesma revista ‘Fora-de-jogo’ de Jafar Panahi. Está outra vez em exibição, bem como o ‘Isto Não é um Filme’, do mesmo realizador. Nele mostra-se o poder do cinema contra a opressão. Em toda a parte do Mundo. Aliás, quase faz de cada espectador um lutador pela liberdade de expressão.

Realizador: Jafar Panahi em co-autoria com Mojtaba Mirtahmas

Duração: 74 minutos

País de origem: Irão

Em exibição nos cinemas

FUGIR DE...

‘AS AVENTURAS DE TINTIN - O SEGREDO DO LICORNE’

Spielberg e a tecnologia prometiam muito na adaptação deste clássico da BD europeia. E a expectativa é coisa difícil. Quem leu Tintin dificilmente o reconhecerá neste filme. Mas tudo piora quando chegamos às personagens secundárias, como Dupond & Dupont. As três dimensões até podem estar nos efeitos. Mas falham em toda a narrativa.

Em exibição nos cinemas

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