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Correio da Manhã

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Resignações

“É quase vinte anos mais velho, são só os dois e tomou sempre conta dela”
Tiago Rebelo 7 de Outubro de 2012 às 15:00
O homem estátua
O homem estátua

Ao contrário das outras mulheres, ela não aprecia a disponibilidade do marido para as tarefas caseiras. Supõe aliás que a maioria dos maridos das outras mulheres nem sequer se disponibiliza para tal coisa. Mas, enfim, os que são prestáveis nesse capítulo – e já vão sendo muitos, apesar de tudo – têm certamente o reconhecimento das suas mulheres. Não é o seu caso, que, estando sentada à mesa de fórmica da cozinha a observar o marido a lavar a loiça, sente uma irritação latente cujo motivo não sabe explicar muito bem. Ele lava diligentemente os pratos com uma esponja e não toca no pano da loiça felpudo amarelo porque diz que deve conter milhões de germes. E isso irrita-a. Lava a loiça à mão para não gastar electricidade com a máquina. E isso também a irrita.

Ela acende um cigarro e exala uma nuvem de fumo para o meio da cozinha, contendo-se para não reagir à expressão reprovadora que ele lhe deita, enquanto se pergunta quando é que as características do marido, que antes considerava amorosas, começaram a mexer com ela de uma forma exasperante. E conclui que foi um sentimento que se foi instalando gradualmente sem que se tivesse dado logo conta.

Teve um namorado recentemente – não lhe chamaria amante – e andava entusiasmada com o romance, embora não estivesse propriamente apaixonada e soubesse que acabaria rapidamente. Foi um caso meteórico, sem importância nenhuma para ela.

Ele acaba de lavar a loiça, seca as mãos com um pano, sai da cozinha sem dizer nada. Ela apaga o cigarro porque sabe que ele não gosta que fume no resto da casa e segue-o como uma menina obediente até à sala. Ele senta-se na sua poltrona a ler um livro. Ela afunda-se no sofá a ver televisão, preguiçosa e desatenta. Ele espreita-a por cima dos óculos com a ternura vigilante de sempre. É quase vinte anos mais velho, são só os dois e tomou sempre conta dela. Satisfaz-lhe os caprichos mas também a repreende como se fosse sua filha. Não se incomoda por ela não trabalhar, por não fazer realmente nada senão deixar a vida passar inutilmente. O desinteresse espalha-se por ela como uma infecção generalizada, mas é a segurança dele, que a adora e não quer, não pode, perdê-la. Ela sabe que nunca o deixará porque depende dele para tudo e é assim que se sente segura.

Ao fim da noite vão juntos para a cama e, apesar de não terem trocado mais do que umas esparsas palavras durante o dia que acaba e ela não saber nada do seu trabalho e ele não saber o que ela fez desde manhã, adormecem abraçados com a certeza um do outro e com uma reconfortante tranquilidade de espírito. Sentem--se amparados, porque, como ele costuma dizer, a vida lá fora não é para brincadeiras.

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