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RETOMA: O ANO DO CARACOL

Devagar, Portugal está a sair da crise. Assim o dizem Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Frasquilho. Só o cidadão é que não acredita. Achamos que 2004 não vai ser muito melhor. Poderá o Euro 2004 espevitar a Nação?
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
“A retoma é como o açúcar. Não basta um torrão para adoçar a boca.” Quem o diz é o publicitário brasileiro Edson Athaíde, que aposta num discurso pela positiva, mas com pinças, quando fala do estado de saúde da economia portuguesa para o próximo ano: “Não acredito que as pessoas vão chegar a Dezembro de 2004 e digam: ‘Que ano maravilhoso’”, remata. O criativo, que ajudou à imagem da campanha eleitoral de António Guterres, junta-se assim a um coro de vozes que desconfia que a crise já faz parte do passado, como anunciou o primeiro-ministro, Durão Barroso, na mensagem de Natal: “A economia europeia já dá sinais de crescimento. Também em Portugal, o pior já passou, pelo que o novo ano será já um ano melhor”, garantiu o chefe do Governo, para quem a recuperação será “lenta e gradual, mas sólida e segura”.
Mais céptico parece estar o ex-secretário de Estado do Tesouro e Finanças, Miguel Frasquilho, responsável pela elaboração do programa económico apresentado pelos sociais-democratas nas legislativas de 2002. Nos últimos meses, na sequência de divergências com a ministra Manuela Ferreira Leite ‘bateu com a porta’ e ocupou um lugar no Banco Espírito Santo. Para este economista, a palavra retoma só deve ser usada com moderação: “É preciso que as pessoas saibam que a economia vai crescer, mas pouco. O melhor é não esperarem por milagres.” O professor Marcelo Rebelo de Sousa corrobora: “Há sinais de viragem possível, mas só visível no segundo semestre de 2004”. E se para o comentador da TVI o Euro 2004 “pode e deve ser uma ajuda importante na recuperação”, Miguel Frasquilho tem uma opinião diferente: “Em vez de crescermos só 0,5%, vamos até aos 0,8%”, dispara.
‘Ver para crer’ vai ser o lema das famílias portuguesas para este ano que ainda agora começou. As previsões do Executivo social-democrata antecipam um crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) mas, por enquanto, ainda é prematuro falar em ‘desapertar o cinto’. É preciso não esquecer que a tão desejada retoma depende do comportamento da economia internacional, uma vez que o crescimento do PIB está condicionado pelas exportações.
Razões de sobra para o estado de espírito dos portugueses andar pelas ‘ruas da amargura’, segundo revelam os dados de uma sondagem avançada pelo Correio da Manhã/Aximage. 34,1% dos inquiridos suspeitam que vão andar menos felizes, contra 22,7% que estão confiantes no futuro. Já para 29,1% dos entrevistados, o ano de 2004 não lhes vai trazer grandes novidades. Curiosamente, são os jovens que se revelam os mais pessimistas: 30.4% não esconde que vai andar mais cabisbaixo, mas em contrapartida é o grupo etário entre os 18 e 29 anos que mostra mais esperança (32,1). Já os portugueses entre os 30 e 44 anos são os mais difíceis de convencer: 41% tem poucos motivos para sorrir e 30,9% deixou de acreditar que melhores dias virão. Segundo a mesma sondagem, os homens portugueses, da classe alta/média alta, activos e a residir na área do Grande Porto, revelaram-se os mais determinados a viver o ano de 2004 com um sorriso nos lábios. Para 43,7%, a economia vai melhorar e 5.6% acredita que o Euro 2004 é a ‘tal’ alavanca que o País tanto precisa. Já o discurso das mulheres, com um grau de instrução baixo, a viver na zona da Grande Lisboa, é diametralmente oposto. Elas vivem preocupadas com o desemprego (29%), com a crise económica (26,4%) e a falta de dinheiro (15,8%). Para as portuguesas, o Euro 2004 não é nenhuma tábua de salvação.
PONTAPÉ DE SAÍDA
Com o tema da economia em pano de fundo, a política prepara-se para sair à rua. Agendadas para 13 de Junho, as eleições europeias vão ser o primeiro teste ao Governo de Durão Barroso – e o objectivo do executivo para 2004 é passar, airosamente, na avaliação popular. O social-democrata Ângelo Correia não se atreve a fazer prognósticos, mas lá vai confessando que o País está bloqueado: “Não há projectos de grandes dimensões agendados para 2004. Não se pode esperar que o Euro venha a ter tanto peso na economia do País. É uma mola episódica”, explica o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa.
“Em todo o caso, valha-nos isso!”, diriam os portugueses, a alto e bom som. Depois da polémica em torno dos novos estádios de futebol, o cidadão comum já só anseia pelo jogo inaugural do Euro 2004, agendado para o dia 12 de Junho – quando a equipa das quinas defrontar a selecção da Grécia no Estádio do Dragão. O País inteiro vai fazer figas para que a selecção nacional, liderada por Scolari, faça boa figura no europeu de futebol. Só a vitória podia espevitar o ânimo da Nação- “E levantar o ego dos portugueses”, segundo Miguel Frasquilho Uma opinião partilhada pelo ministro Adjunto, José Luís Arnaut, que aposta tudo no Euro 2004: “Não o podemos encarar como algo que dura pouco mais de um mês. Tem de funcionar como uma alavanca da imagem de Portugal no mundo”. O brasileiro Edson Athaíde não tem assim tantas certezas, uma vez que a projecção de um País não se pode resumir a um evento esporádico – é algo que deve ser trabalhado a longo prazo e ‘embrulhado’ num papel atraente: “O Euro 2004 é algo sazonal. Quem governa tem de saber gerir a imagem, para que ela se prolongue por mais tempo”. No entanto, ele é o primeiro a confessar que é preciso começar por algum sítio: “Entre portas, o evento não resolve todos os problemas mas melhora um pouco a nossa auto-estima. Pelo menos por uns tempos”.
Com alguma sorte e uns golos na baliza do adversário, talvez os portugueses se mostrem mais confiantes quando se despedirem do ‘velhinho’ 2004… n
Objecto: Felicidade dos portugueses - expectativas para 2004; Universo: Eleitores residentes em Portugal em lares com telefone fixo.; Amostra: Aleatória estratificada por região, habitat, sexo, idade, actividade, instrução e voto legislativo, polietápica e representativa do universo, com 575 entrevistas telefónicas (323 a mulheres); Realização: 28 e 29 de Dezembro de 2003, para o CORREIO DA MANHÃ pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge de Sá e Luís Reto.
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