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RIR (AINDA) É O MELHOR REMÉDIO

José Pedro Gomes é um dos maiores humoristas da actualidade. Sem medo de se assumir como tal, o Zezé de Conversas da Treta revela-se desiludido com a televisão, apostando mais do que nunca numa carreira no teatro. Inox é, por isso, mais uma etapa na carreira deste actor/encenador
12 de Julho de 2002 às 18:48
RIR (AINDA) É O MELHOR REMÉDIO
RIR (AINDA) É O MELHOR REMÉDIO FOTO: Bruno Raposo
José Pedro Gomes está a atravessar um bom momento. A carreira no teatro segue de vento em popa e, depois do sucesso em Lisboa de Inox, a peça, em que o conhecido actor veste também a pele de encenador, está pronta para correr o país. Se tudo correr como na capital, o espectáculo, agora no Porto, fará rir muitos milhares de espectadores. “No Tivoli tivemos espectáculos esgotados consecutivamente, o que é muito bom num espaço com mil lugares”, comenta, orgulhoso, reconhecendo que à partida era um risco enorme levar uma peça para uma sala daquelas dimensões. Apesar do receio inicial, por não saber qual seria a reacção do público, cedo percebeu que o resultado iria superar as expectativas.

Contudo, o Zezé de Conversas da Treta não se vê como salvador do teatro, nem acredita que esta arte esteja a passar por um período de reabilitação. “Há, isso sim, uma reconciliação do teatro com o público, porque este não se teria afastado se tivesse continuado a ter espectáculos do seu agrado.” Crítico em relação à fuga da sua arte de sempre para terrenos mais “à margem”, onde o público é altamente especializado, José Pedro Gomes continua a considerar que temos um panorama muito distorcido, pois a maior parte das companhias existentes fazem espectáculos para pouco público.

Apesar do discurso, o actor nega qualquer possibilidade de entrar por caminhos que envolvam o mau gosto ou o facilitismo, apontando o sucesso dos seus trabalhos para a existência de bons textos, interpretados com graça e responsáveis por fazer com que as pessoas encarem a ida ao teatro como um acto cultural que as alivia da “chatice da vida do comum dos mortais”. Além disso, “este género de espectáculo permite uma série de registos numa só peça: cantar, dançar, fazer meio revista, meio stand up comedy e drama. Dá para sermos muito ágeis, creio que é esse um dos segredos do sucesso do Inox”, remata entre mais uma baforada num “puro” da ilha de Fidel Castro.

Comediante nato

Ao longo da sua já longa carreira, José Pedro Gomes tem agarrado quase sempre papéis humorísticos, destacando-se nos últimos anos pelo do “pintas” Zezé, que com o amigo Toni tece considerações sobre tudo e todos, em verdadeiras “conversas da treta”. Essa experiência é vista com agrado pelo actor, que não tem quaisquer complexos em relação a ter uma vez mais a tarefa de fazer rir. “Já estou classificado como um actor cómico, por isso não corro o risco de ficar conotado como tal, até porque sei que é difícil, todos os dias, pôr mil pessoas a rir. E tem a vantagem imediata da reacção do público ser evidente, de percebermos logo se estamos a fazê-lo bem.”

A relação profissional com António Feio resultou numa grande comunhão em cima do palco, juntando-se agora à dupla a actriz Maria Rueff. O aumento dos elementos da equipa para a concepção de Inox trouxe outra mais-valia ao trabalho desenvolvido, e José Pedro Gomes acredita não terem acontecido choques de personalidades, até porque esta não é, como faz questão de salientar, a primeira vez que actua ao lado de Rueff. “Acho que ela sentiu mais isso do que eu e o António (Feio). Já falámos sobre o facto de ser mais difícil uma pessoa que vem de fora integrar-se do que nós a aceitarmos. E não fizemos nada para haver essa barreira.”

Futuro no teatro

Depois de experiências menos positivas na televisão, José Pedro Gomes rejeita para já a ideia de voltar ao pequeno ecrã. “Os últimos dois projectos foram maltratados, e eu não gosto de ser maltratado”, responde sem meias palavras e com um daqueles sorrisos inesquecíveis, justificando que tanto as Conversas..., na SIC, como a Paraíso Filmes, na RTP, não receberam um tratamento adequado e honesto por parte dos programadores dos canais. “Neste momento não tenho vontade de voltar.

Não percebo este género de fazer televisão, pelo que evito até de ver o que está a passar no dito horário nobre. Tento tratar da minha sanidade mental, por isso, só vejo televisão mais tarde, quando passam os melhores programas.”

Apesar de alguma mágoa em relação ao procedimento incorrecto que tiveram para com ele, o actor não se vê alvo de uma perseguição pessoal, embora sinta que o trajecto delineado pelos operadores vai levar ao descalabro. “Não acho que me estejam a chatear em particular. É mais grave do que isso, é uma falta de respeito pelo trabalho das pessoas e pelo público que se conquista e se atira fora com um pontapé. De maneira que não tenho projectos para televisão, embora existam muitos mais para o teatro.”

O futuro segue, assim, pelos palcos. Para já, José Pedro Gomes está a pensar fazer umas Conversas da Treta renovadas, que deverão ser apresentadas lá para o final do ano, às quais se juntam outros projectos para 2003, sempre no teatro. Por enquanto, deixa um alerta: “Estamos a caminhar para uma maneira de viver que já não tem a ver com aquilo que é saudável. Andamos a passar por cima uns dos outros; tem-se isso como valor moral. É uma coisa que me faz muita confusão”, finalizando com um exemplo televisivo: “Hoje, um gajo dá um pontapé numa gaja e é famoso. E isto já é antigo, mas é uma boa imagem (risos).” É a prova de que a brincar também são ditas muitas verdades.
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