Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

Roberto Saviano: "Sinto-me velho para experimentar"

Escritor mergulhou no inferno da cocaína, mesmo sem nunca ter snifado, e admite que a solução é legalizá-la.
Leonardo Ralha 5 de Outubro de 2014 às 18:53
Roberto Saviano
Roberto Saviano FOTO: Pedro Catarino

"Não há snipers em Lisboa", disse Roberto Saviano, antes do início da entrevista com a 'Domingo', reagindo às cautelas do polícia português que zelava pela sua segurança. Foi no terraço envidraçado de um hotel que o italiano de 35 anos, ameaçado de morte pela Camorra, a Máfia napolitana, devido a 'Gomorra', falou de 'ZeroZeroZero' (Objectiva), agora lançado em Portugal. Uma volta ao Mundo em quase 80 cartéis de cocaína.

Quando compramos um maço de cigarros lemos que o tabaco mata, provoca cancro e impotência. Que aviso deveria acompanhar um grama de cocaína?

A cocaína tem um duplo perigo. Dá a sensação de que não nos estamos a drogar, um pouco como se fosse aperitivo. E não é como um cigarro, que nos põe um pouco melhor e nos faz companhia. É uma sensação performativa. Julgamos que podemos fazer tudo melhor e senti-lo de forma intensa.

Trabalha-se mais, divertimo-nos mais…

Até quando se lê sob o efeito da cocaína a sensação de realidade é diferente. As letras entram melhor na cabeça.

Podemos dizer que é uma realidade aumentada?

Sem dúvida. Mas os danos são infinitos. O que acontece, quimicamente, é que os neurónios comunicam uns com os outros continuamente, o que leva a que sintamos tudo de forma mais forte. As contra-indicações incluem impotência, enfarte, perda de memória e uma degradação do corpo, progressiva e em grande velocidade. Apesar de no imaginário das pessoas, a heroína ser a verdadeira droga destruidora.

Uma droga para porcos, feios e maus…

Mas está a haver um retorno da heroína. A cocaína vencia porque é snifada, enquanto a heroína perdia porque era injetada. Mas agora a heroína relançou-se, num ponto de vista de marketing, porque também se pode snifar ou ser fumada. E é muito diferente da cocaína. A heroína dá a mesma sensação de um orgasmo, mantido durante 15 minutos. É incrível, mas durante o efeito é impossível guiar, escrever, trabalhar ou fazer um teste na escola.

Fica-se muito longe.

E com a princesa das sensações. Já a coca é o comandante de um exército do quotidiano, que te faz estar bem e que tem todo um imaginário sexual. Mas é tudo falso. A cocaína provoca impotência, enquanto te mete na cabeça que sentes tudo mais intenso.

É verdade que se pode escrever acerca de homicídios sem matar ninguém, mas será possível escrever sobre cocaína sem snifar sequer uma vez?

Nunca experimentei. Já vi, mas sinto-me demasiado velho para experimentar. Quando era miúdo vivia onde era proibido consumi-la.

Não tem curiosidade?

Tenho muita, mas sei demasiado acerca dela. E teve muito a ver com a noção de honra do local onde cresci, pois tínhamos de marcar continuamente diferença em relação aos outros. Se tivesse crescido aqui ou em Milão, seguramente teria provado.

Sete anos depois de a sua vida ter mudado, talvez para sempre, por causa de ‘Gomorra’, o que levou a escrever sobre o mercado mundial da cocaína?

A vingança, no plano pessoal, e as histórias incríveis. Sou um escritor, e posso inventar, mas a realidade é tão incrível que seria impossível criar algo assim. Um exemplo: parte das Antilhas Holandesas um voo regular, com os herdeiros do trono da Holanda a bordo, e  quando chegam ao aeroporto de Schiphol, em Amesterdão, todos os passageiros eram mulas de droga menos eles, embora ninguém se conhecesse. Só o príncipe e a princesa é que não estavam envolvidos. Se pusesse isto num thriller de Hollywood ou num romance policial, torceriam o nariz e diriam que era um exagero.

Não seria verosímil…

Encontro constantemente histórias ligadas ao narcotráfico que, mesmo sem serem inverosímeis, são extremas.

Ao contrário da heroína, existe uma visão quase benévola da cocaína. Como é que isto se explica?

Na realidade não cria uma dependência igual. Se injetares três vezes heroína, estás agarrado. A cocaína pode ter uso lúdico e, de facto, é possível que não te reduza a um verme. Além disso, estava ligada a um estatuto de poder e de dinheiro. Hoje é utilizada para conseguir trabalhar mais.

Está muito associada aos corretores de bolsa nas principais praças financeiras.

Mas encontrei muitos trabalhadores das obras que tomam coca para aguentarem mais horas. Compram em grupo, e assim conseguem pagá-la. A estratégia mental é a seguinte: se snifo para poder receber mais, não é uma droga má. É uma espécie de bebida energética.

Logo no início de ‘ZeroZeroZero’, considera a divisão do território mexicano entre os cartéis mais importante para o mundo em que vivemos do que o fim da Guerra Fria. Admite que isso é um exagero?

Voluntário. Exagerei para poder dizer que essa divisão foi verdadeiramente importante. Nessa altura o Mundo ignorou o que os cartéis mexicanos estavam a fazer, e que hoje em dia conta muito para os EUA, mas também para Portugal, para Espanha e para toda a Europa.

Algumas coisas importantes acabam por ser ignoradas…

E não é porque haja censura política, mas sim censura mediática, pois considera-se que não interessa contar essas histórias. Para a Europa é tudo secundário, a não ser quando acontece um massacre, e encontram uma centena de cadáveres degolados.

Descreve com detalhe os crimes de traficantes de droga de todo o Mundo e aquilo que têm em comum é a brutalidade extrema. Trata-se de um código?

Tem a ver com a necessidade de eliminar a concorrência. À menor suspeita, esquarteja-se. Ligo muito a violência a um imperativo económico. Quem não agir assim acaba morto. E claro que as decapitações e a tortura, usadas sobretudo pelos cartéis latinos – os italianos um pouco menos -, são sobretudo marketing. As decapitações são inspiradas nos islamitas.

Mas as decapitações de cartéis como Los Zetas, do México, não aparecem nos telejornais, ao contrário das que são feitas pelo Estado Islâmico.

Não aparecem nos telejornais de todo o Mundo, mas já apareceram nos mexicanos. Tanto assim que Los Zetas decidiram matar sempre por volta das seis e meia ou sete da tarde, para conseguirem ser notícia de abertura. Se executassem mais cedo arriscavam-se a ser ultrapassados por outro homicídio.

Se um headhunter tivesse de recrutar um líder para o narcotráfico, que características exigiria aos candidatos?

Boa pergunta! (risos) Capacidade de viver na absoluta ausência de tudo, tendo o poder como único objetivo.

Têm de ser espartanos?

São os últimos calvinistas do Ocidente. Quando vão para a cadeia, impressiona-me o seu silêncio. Morrem atrás das grades em vez de denunciarem. Há um sentimento de sacrifício e as organizações criminosas mais fortes têm esta lógica. Constato-o, quase com respeito.

Enquanto fazia pesquisa para o livro esteve em Ciudad Juárez, a localidade mexicana que bate recordes de homicídios devido às lutas entre traficantes?

Sim. Tive a estranha sensação de que uma parte da sociedade, mais branca, mais espanhola, acha que tudo o que envolve o narcotráfico acontece longíssimo e nunca atingirá quem não se meter a jeito. Alguns bairros são seguríssimos.

Que conselho daria a um jovem de Ciudad Juárez que quisesse escrever um retrato parecido com aquele que fez de Nápoles no seu livro ‘Gomorra’?

Que tenha muita coragem e que escreva para lá dos crimes. Deve contar o Mundo através de Ciudad Juárez em vez de contar Ciudad Juárez ao Mundo. Isso é importante. As pessoas gostam muito de filmes e séries acerca de mafiosos porque revêem toda a lógica da vida quotidiana através deles.

Lê-se em ‘ZeroZeroZero’ que a cocaína faz girar o Mundo. Se fosse um país, a sua economia teria lugar no G8 ou no G20?

Sem dúvida. Aliás, a cocaína tem uma enorme presença entre os países do G8, tanto na existência de todas as drogas imagináveis quanto na presença de capital proveniente do narcotráfico no sistema financeiro. Demonstrou-se quando o Wachovia Bank teve de pagar multa de 160 milhões de dólares aos EUA por lavar dinheiro através de casas de câmbio no México.

É possível fazer especulações acerca da riqueza gerada pela cocaína?

Mundialmente, e não apenas em cocaína, a droga pode representar, 54 a 100 mil milhões de euros.

Sendo o investimento mais rentável do Mundo, não deixa de ser verdade que a cocaína acarreta riscos que não existem em negócios legais…

Morre-se. É um risco. Todas as pessoas que conheci e que se tornaram camorristas acabaram por morrer. Vai-se preso ou acaba-se por morrer. Em 90 por cento dos casos só se chega aos 40 anos tendo a defesa de estar na cadeia.

A Colômbia assegura a maior parte da produção mundial de cocaína, mas os intermediários mexicanos têm uma fatia maior dos lucros, devido à proximidade dos EUA. A cocaína é um negócio como o imobiliário, em que o importante é localização, localização, localização?

A força do México vem da proximidade e da grande comunidade emigrante que vive nos EUA, mas também de uma elevada ferocidade e de ligações inteligentes à política. Na Colômbia, Pablo Escobar cometeu o seu maior erro ao tentar construir uma carreira política, o que o tornou demasiado visível para que o Mundo pudesse ignorar. De qualquer forma, segundo dados muito recentes, o Peru passou a ser o maior produtor mundial, seguido da Colômbia e da Bolívia, enquanto os EUA continuam a ser o megamercado.

Devemos encarar como uma boa notícia as escassas referências que faz a Portugal neste livro?

Talvez sim, talvez não. Por um lado, a política portuguesa de considerar os toxicodependentes pessoas com problemas e não criminosos é genial. Há alguns anos Portugal era, juntamente com a Espanha, a verdadeira porta de entrada de droga na Europa, mas agora o produto chega mais facilmente a outros países, como a Holanda. Por outro lado, não me fio muito nos dados da polícia portuguesa, pois os brasileiros do Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, e do Comando Vermelho, do  Rio de Janeiro, têm presença em Lisboa.

Observa que um grama custa muito menos em Portugal do que noutros países europeus. A cocaína adapta-se ao nível de vida de cada país ou perde simplesmente pureza?

A coca portuguesa vem do Brasil, e como eles compram muita, podem baixar o preço. Mas também se pode misturar outros produtos e, de facto, assiste-se a uma adaptação ao dinheiro disponível. Nos piores momentos de crise vi cocaína a ser vendida a dez euros em Nápoles.

Defende no livro que a legalização da cocaína poderia ser uma solução. O Mundo está pronto para isso?

Não está. E não gostaria que fosse legalizada, mas é a melhor solução.

 

O que aconteceria aos narcotraficantes?

Procurariam legalizar-se, como a família Kennedy, que fazia contrabando de álcool antes de ter um presidente. Uma parte dos narcotraficantes seriam reintegrados na sociedade, mas na América do Sul é possível que se dedicassem aos sequestros.

Ficará contente se um único leitor deixar de consumir cocaína depois de saber tudo o que o tráfico implica?

Se um não começar a snifar, um deixar de consumir e um tomar consciência do inferno que envolve a cocaína. São os três resultados que imagino ao escrever este livro.

Roberto Saviano Cocaína Livro Camorra Máfia
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)