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ROMEU & JULIETA:GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS

São solteiros, divorciados ou viúvos. Homens e mulheres de várias idades, a quem a solidão bateu à porta e que sobreviviam
sem afecto. Um dia, enviaram uma mensagem para o ‘Domingo Magazine’. E a vida deles mudou.
7 de Fevereiro de 2003 às 18:49
Aos 38 anos, João, separado há algum tempo, percebeu que lhe faltava alguma coisa na vida: o amor e o afecto a que todo o homem tem direito. “Um dia, decidi mandar uma mensagem mas não tinha grandes expectativas”, recorda. Este nosso leitor tinha algum receio que as pessoas brincassem com os seus sentimentos. No entanto, às vezes, quando menos se
espera, o amor acontece. “As reacções à minha mensagem foram extremamente positivas, recebi algumas chamadas de senhoras de várias regiões”, conta, prosseguindo: “Umas moravam mais longe... e depois, nestas coisas, acabamos sempre por nos identificar mais com umas pessoas do que com outras”, admite. “Acabei por ser seduzido pela conversa de uma pessoa em particular”, recorda. Entre um telefonema e outro, João, que vive no Barreiro, conheceu uma mulher com 42 anos. “Começámos a sair e entendemo-nos bem”, ou seja, iniciaram um relacionamento. “Para mim, é uma relação séria. Passámos o Natal e o fim-de-ano juntos, aliás, vivemos praticamente juntos. Sinto-me feliz.”

O MELHOR NAMORADO DO MUNDO

Com apenas 18 anos, Marlene, residente em Corroios, optou pelas novas tecnologias e quando publicou a sua mensagem, enviou uma morada de e-mail. “Após o meu texto ser publicado, a minha vida não deu propriamente uma reviravolta, mas muita coisa mudou...”, conta. “Para ser sincera, nem sei bem que razões me levaram a escrever para a vossa revista, pois sempre pensei que nada de novo poderia surgir daí e temia confiar em pessoas que poderiam responder com intenções menos próprias.

Mas a verdade é que recebi muitos e-mails e, ao contrário do que pensava, nenhum se revelou indelicado”, lembra. “Infelizmente, não tive tempo de responder a toda a gente, mas fiz bons amigos e conheci algumas pessoas pessoalmente”, avança.

E o melhor, ainda estava para vir. “Um dia, aconteceu o inesperado. Fui ao meu e-mail e no meio das várias respostas, encontrei uma que me despertou um grande interesse. Começámos a falar e quanto mais falávamos um com o outro mais nos apercebíamos do muito que tínhamos em comum”, confessa Marlene. “Decidimos que nos iríamos conhecer e, nesse momento, aconteceram coisas inesperadas, das quais hoje nos rimos imenso.” Rematando: “Ao contrário do que pensava, não estou arrependida de ter enviado uma mensagem para o ‘Romeu & Julieta’ porque, além de grandes amigos, ganhei o melhor namorado do mundo”.

NOVOS AMIGOS

Também Lurdes, 57 anos e natural de Évora, se sentia sozinha. Com dois filhos adultos e independentes, perdeu o medo e decidiu enviar-nos uma mensagem. “Queria fazer novas amizades, conhecer pessoas com gostos similares aos meus e com as quais pudesse partilhar experiências”, conta. Recebeu cerca de 70 cartas de todos os pontos do País. “Fui obrigada a seleccionar a correspondência e respondi só a algumas. Era impossível escrever a tanta gente e a minha ideia era fazer amizades, não casar ou arranjar um companheiro”, revela. “Muitas das cartas que recebi eram de senhores a propor-me casamento quando eu, que trabalho e tenho uma vida organizada, não ando em busca de maridos”, sublinha. Entre cartas e telefonemas, acabou por conhecer algumas pessoas. “Foi gratificante porque atingi o meu objectivo ou seja, tenho novos amigos e isso é muito importante na minha vida”, conclui.

A PESSOA CERTA

Fernando Nunes tem 53 anos, vive em Loures e gosta que o tratem unicamente por “Nunes”. Há cerca de dois meses a sua mensagem foi publicada no “Romeu & Julieta” e viu renascer a esperança de encontrar uma mulher para o resto da vida. “Sou divorciado há muitos anos e sempre quis refazer a minha vida afectiva. No entanto, através de familiares e amigos, não foi fácil conhecer pessoas novas. Por isso, um dia, decidi mandar-vos um texto”. “Recebi centenas de chamadas e mensagens e não consegui responder nem a um terço. Não tinha tempo ou dinheiro para estar tantas horas a conversar”, recorda. Quis o destino que entre as chamadas que atendeu, uma voz lhe despertasse particular atenção. “Comecei a conversar com uma senhora com 43 anos, divorciada e que reside no Entroncamento, e percebi pela simpatia dela, pela conversa e pela forma como falava, que aquela era a mulher da minha vida”.

Ainda não tinham passado das conversas ao telefone e já Fernando Nunes tinha desistido de falar ou conhecer qualquer outra mulher. “Às vezes, acontecem-
-nos estas coisas, parece que pressentimos o amor”, defende. A verdade é que na altura do Natal, a senhora do Entroncamento deslocou-se a Lisboa para visitar familiares mas o casal não se conheceu. “Eu estava doente, com uma forte gripe, estive vários dias de cama”, recorda Nunes. Recomposto da doença, decidiu ir ele ao encontro da ‘amada’. “Quando lá cheguei fui tão bem recebido... não fazia ideia do que me esperava mas ela foi excepcional”, recorda. A partir desse dia nasceu uma história de amor. “Adorei-a no minuto em que a vi e hoje namoramos. Quando podemos, estamos juntos aos fins-de-semana porque as nossas vidinhas ainda não nos permitem viver juntos a tempo inteiro”, afirma, concluindo: “Mas a verdade é que encontrei a pessoa certa através da vossa rubrica ‘Romeu & Julieta’ e tenho que vos agradecer por isso porque se não fosse assim, se calhar, ainda estava sozinho”.

AINDA É CEDO

Aos 47 anos, José passou por um processo de divórcio muito complicado e durante bastante tempo pensou que jamais se voltaria a envolver com alguém. Até ao dia em que, pela primeira vez na vida, decidiu enviar uma mensagem com o objectivo de conhecer pessoas novas. “Nunca o tinha feito. Mas há uma altura na vida em que percebemos que não temos nada a perder”, revela. Reacções? “Recebi duas dezenas de chamadas, quase todas da Margem Sul, onde vivo, mas também me ligaram do Algarve”, recorda. E acrescenta: “Fui mantendo o contacto com algumas senhoras e cheguei a conhecer pessoalmente mais do que uma pessoa. Correu sempre tudo bem”.

Mas como nestas coisas do amor tudo é possível, uma das novas amigas de José tornou-se muito especial. “Actual-mente, posso dizer que existe uma senhora mais ou menos da minha idade que é muito especial”, conta. Perspectivas de romance? “Penso que ainda é cedo para falar em romance. Sofri bastante com o meu divórcio. Quando se pensa numa nova relação tem que se analisar e encarar a vida com alguma calma. Prefiro ser prudente mas esta pessoa não deixa de ser muito especial.”

‘’PUBLIQUEI OS MEUS POEMAS’’

No início de 2002 foi publicado um poema e o número de telemóvel da Filipa, natural de Torres Vedras e, na altura, com 19 anos. “No dia em que saiu recebi imensos telefonemas de toda a parte do País. A maior parte das pessoas queria felicitar-me, tinham gostado do que escrevi”, conta Filipa. Prosseguindo: “Nessa semana, ligou-me o Rogério Prata, um homem que tem coisas publicadas, a dizer que tinha apreciado o poema e a dar-me o contacto de uma editora”.

Resultado? “Consegui publicar dois textos meus na oitava Edição das Poesias da Minerva. O que foi gratificante.” Como é normal, Filipa teve curiosidade de conhecer algumas pessoas com as quais começou a falar ao telefone ou a trocar SMS (mensagens escritas no telemóvel). “Cheguei a encontrar-me com algumas pessoas, rapazes e raparigas. Posso dizer que fiz algumas amizades com jovens, no entanto, a melhor recompensa foi publicar os poemas.”

‘’A MINHA FILHA VAI ACEITAR’’

Aos 42 anos, divorciado há alguns anos, José Maria mora sozinho no Entroncamento. Tem uma filha adolescente que vive com os avós. José Maria sentia-se só e decidiu mandar uma mensagem, para o “Romeu & Juli-eta”. “Mas, entretanto, antes do meu texto ser publicado, conheci uma pessoa e comecei a andar com ela”. Recebeu várias respostas à sua mensagem mas como estava comprometido não respondeu a nenhuma. “Naquela altura, não me interessavam novos conhecimentos”, conta. Às vezes, o destino prega-nos partidas e na altura em que recebeu respostas, José Maria estava acompanhado. Só que, agora está novamente sozinho. “A minha relação terminou em Dezembro e sinto a necessidade de encontrar alguém porque o que mais desejo é uma vida estável”, afirma.

Afinal, o que aconteceu com a ex-namorada? “Nós temos sensivelmente a mesma idade, mas os nossos feitios são completamente diferentes. Foi melhor assim, ir cada um para seu lado”, comenta. “Sinto a falta de uma mulher. Quero refazer a minha vida e acho que vou começar a estar novamente atento ao “Romeu & Julieta”. Sei que a minha filha vai aceitar uma madrasta e sabem como é, o homem não foi feito para viver sem uma mulher”, remata. E nós fazemos votos para que a vida sorria, novamente, a este e a todos os outros leitores que estão sozinhos.

CURIOSIDADES REAIS

A propósito do “Romeu & Julieta” a redacção da “Domingo Magazine” partilha com os leitores alguns episódios curiosos

l Estávamos em Janeiro ou Fevereiro de 2002. Uma das nossas leitoras decidiu vir conhecer-nos e entregar, pessoalmente, uma mensagem para ser publicada no “Romeu & Julieta”. Depois da mensagem ser publicada, voltou. Com ideias e sugestões para trabalhos na revista e com um enorme ramo de flores para toda a equipa do “Domingo Magazine”. Passaram uns meses e eis que a nossa redacção recebe um postal de Paris desta nossa leitora. No regresso da viagem, trazia uma revista para uma das jornalistas. Foi no final do Verão. Hoje, sabemos que esta nossa leitora se encontra bem, mas ainda não encontrou o seu príncipe encantado.

l Durante meses consecutivos, um leitor telefonava todas as semanas. No “Romeu & Julieta” publicamos, em muitos casos e a pedido dos leitores, apenas o número de telemóvel. Este senhor insistia em pedir-nos a morada de algumas raparigas ou senhoras cujas mensagens apareciam nas nossas páginas.

Conheciamos-lhe a voz e sabíamos de antemão que nos ia pedir o impossível. Numa manhã de Outono, apareceu no nosso jornal. Trazia uma mensagem para ser publicada. Guardámos o envelope e explicámos-lhe que seria publicada em breve mas que, face ao elevado número de cartas que recebemos, não poderíamos garantir uma data certa. Ficou furioso. Começou aos berros.

Chegámos a pensar que se iria tornar violento. Depois de alguma hesitação, este leitor acabou por se acalmar...

l Uma das maiores alegrias que a redacção desta revista teve foi quando recebeu a carta de um jovem, a cumprir uma pena de prisão, em que agradecia um presente que lhe enviámos. Aqui, não temos preconceitos de raça, idade, sexo, profissão, estado civil ou outros. Este jovem tinha enviado uma mensagem para o “Romeu & Julieta” e a sua carta foi considerada a melhor daquele mês. Enviamos-lhe (tal como enviamos mensalmente aos autores das cartas premiadas) um presente. Escreveu-nos uma longa carta em que agradecia e dizia que assim que saísse da prisão, usaria a lembrança e que era a primeira vez, na vida, que ganhava o que quer que fosse.. Foi gratificante fazer um leitor feliz.

l Um dia, uma das nossas jornalistas ligou a um leitor que tinha enviado uma carta com uma mensagem e incluia dinheiro. A jornalista explicou ao leitor que o “Romeu & Julieta” é uma rubrica gratuita e que, como tinha receio de devolver o dinheiro pelo correio, sugeriu que este o viesse buscar ao “Correio da Manhã”, perguntando-lhe ainda se preferia que um envelope com a quantia fosse deixado nalgum local. Após uma longa conversa, este leitor disse à jornalista com a qual estava a falar ao telefone: “A menina fique com o dinheiro para si. Sempre dá para ir beber um cafezinho...”.
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