Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
4

Ronaldos da fé tricampeões da Europa

Treinam aos domingos à noite e pagam do próprio bolso os equipamentos e as viagens.
Secundino Cunha 2 de Abril de 2017 às 12:04
São padres, mas gostam de jogar à bola. E gostam de ganhar. Aliás, ficam muito, digamos, aborrecidos quando perdem. "Nós jogamos para ganhar, só para ganhar. Nem sempre ganhamos, mas queremos sempre ganhar", diz António Cunha, pároco no arciprestado de Ponte da Barca, Viana do Castelo, e sub-capitão da seleção nacional de padres, que este ano venceu pela terceira vez consecutiva a Clerigus Cup, que é como quem diz, o Europeu dos sacerdotes.

O torneio, 11ª edição, disputou-se na Croácia, de 20 a 24 de fevereiro, e, ao contrário de muitas expectativas, a vitória voltou a sorrir à equipa nacional. "Uma vitória muito saborosa que acabou por ser a colheita dos frutos semeados ao longo do ano, tantas vezes com grande sacrifício", afirma o veterano e capitão de equipa, padre Marco Gil.

Os sacrifícios são de vária ordem, a começar pelos treinos, que têm lugar todos os domingos à noite no pavilhão da cooperativa de ensino Didáxis, em Vale S. Cosme, Vila Nova de Famalicão. "Depois de cinco ou seis missas, sessões de catequese e outros serviços que fazem do domingo o dia de trabalho por excelência para os padres, percorrer 120 quilómetros, treinar e regressar a casa, não é propriamente simples", diz Nelson Barros, cura de seis paróquias no arciprestado de Monção.

Mas é o "bichinho da bola", a amizade que se vai entranhando e o gosto pelo convívio que faz correr estes ronaldos da fé. "O futebol ensina-nos esta metáfora da vida, em que jogamos entre a baliza do nascimento e a baliza da morte, superando dificuldades, enfrentando vitórias e derrotas, caindo e levantando, como acontece nos nossos dias", explica o padre José Miguel, pároco no arciprestado de Fafe. Dos 14 que viajaram para a Croácia (11 jogadores, 2 treinadores e um massagista), a ‘Domingo’ conseguiu juntar 12 no pavilhão da Escola EB 2,3 de Alfena, a paróquia do mister Manuel Fernando. Bem dispostos, aproveitaram para afinar técnicas e táticas e contar um pouco desta grande aventura que têm sido os europeus dos clérigos.

"Andamos nisto desde 2006 e, em onze edições, ganhamos quatro vezes, três das quais seguidas. Por isso este ano éramos um alvo a abater. Quando chegámos percebemos que estava tudo muito feito a contar com a vitória da Croácia, a equipa da casa. Como vencemos nós, acho que ficou por lá uma certa azia", afirma o padre treinador, realçando que "aos padres também leva tempo a esquecer a derrota".

Uma das grandes dificuldades que estes sacerdotes enfrentam para participarem nas competições, para além do tempo, ou da falta dele, que é a maior de todas, é fazer face às despesas que estas iniciativas acarretam, sobretudo quando implicam grandes deslocações.

"Há sempre alguns empresários amigos que nos vão dando uma ajuda, patrocinando, por exemplo, as camisolas, mas nunca chega para tudo. Esta última edição da Clerigus Cup, por exemplo, custou a cada um de nós qualquer coisa entre os 700 e os 800 euros", afirmou Manuel Fernando da Silva, referindo que, "apesar de não ser barato, esse não é, felizmente, um grande problema quando comparado, por exemplo, com a conjugação de horários para marcar um jogo extra".

Sem tempo para atos sociais
Há meia dúzia de anos, quando as boas classificações começaram a tornar-se um hábito entre os padres futebolistas e sabendo-se que, de alguma forma, participavam nos torneiros internacionais defendendo as cores de Portugal, estabeleceram contacto com a Federação Portuguesa de Futebol para perceber até que ponto o organismo que lidera o futebol nacional poderia ajudar, sobretudo relativamente aos equipamentos, outra das dificuldades com que os clérigos se debatem.

A Federação disse logo que sim senhor, que não haveria problema nenhum e que até teria grande gosto em associar-se aos padres lusos nesta luta futebolística europeia. Só que (isto faz lembrar a história de atribuir o nome de Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira) saíram a terreiro as marcas dos equipamentos a dizer que essa parceria implicava algumas contrapartidas.

"E nós perguntámos então que contrapartidas seriam essas e, perante a resposta, desistimos da ideia. É que tínhamos de participar numa série de eventos sociais, realizar jogos integrados em iniciativas que eles organizassem e nós, que nos vemos e desejamos para treinar e participar nesta competição e no nosso campeonato nacional entre dioceses, não conseguiríamos nunca cumprir essas exigências", explicou Manuel Fernando.

Mas existem também outras razões para desistirem da parceria com a Federação Portuguesa de Futebol. É que esta é a melhor equipa de padres da Europa, mas está longe de ser tão competitiva como qualquer clube ou associação civil. "Claro que nós temos um nome e um estatuto a defender. Já viu o que era os campeões da Europa serem humilhados por meia dúzia a zero por qualquer equipa de bairro (risos)", questiona o mister. Colocada de parte a hipótese de parceria com a Federação Portuguesa de Futebol, os padres bateram à porta de algumas empresas e abriram os cordões aos próprios bolsos para garantirem os equipamentos necessários: três para cada um, para além de fatos de treino e casacos quentes, porque nos Balcãs aquilo é de bater o dente.

"Desenhamos um logótipo e as pessoas que nos ajudaram criaram equipamentos que, não sendo iguais aos das seleções nacionais, são facilmente relacionados com as cores do nosso País", afirmou o padre António Cunha.

Às vezes lá saem uns palavrões
"O calor da competitividade acaba numa luta mais renhida por toldar um pouco o discernimento e, por vezes, tenho de o confessar, lá saem uns palavrões". A confissão é de Marco Amaro, pároco na zona das Pedras Salgadas, que, a meias com o padre José Ricardo, pároco de Alpendurada, em Marco de Canaveses, defende a baliza nacional. Mas, acrescenta o sacerdote, "há sempre algum padre no banco que perdoa".

Os sacerdotes levam tudo isto na desportiva. É claro que, como já foi referido, ninguém gosta de perder. Nem a feijões. Mas, passado o calor da contenda, tudo volta à normalidade e há sempre um abraço.

"Em primeira linha, nós entendemos isto como uma forma de convívio, de concretização do provérbio romano ‘mente sã em corpo são’ e só depois, muito depois, vem o aspeto competitivo", afirma o padre José Miguel.

Nelson Barros, que para percorrer as suas seis paróquias do arciprestado de Monção gasta dois conjuntos de pneus por ano, diz mesmo que "durante a semana comemos como abades e, ao domingo à noite, derretemos toda essa energia a jogar à bola nos treinos [risos]".

E como festejam os padres as vitórias? "Como toda a gente. Vibramos, num primeiro momento, e exteriorizamos uma alegria natural de quem realizou uma conquista. Com o passar do tempo, o entusiasmo vai esmorecendo. Os padres são homens como os outros", garante Joel Brito, pároco do Extremo, em Arcos de Valdevez, que pela primeira vez participou na competição.

E de onde sai, afinal, a seleção nacional dos padres? Do campeonato nacional entre dioceses. Este ano vai realizar-se em Santiago do Cacém. Participa a maioria das dioceses, embora algumas tenham dificuldades em organizar uma equipa. O campeonato realiza-se desde o início do século e a diocese de Viana do Castelo é a que conta mais troféus: sete. Seguem-se Braga e Vila Real com dois cada uma. É por isso que metade dos selecionados para o campeonato europeu são oriundos da diocese de Viana.

Torneio cada vez mais difícil
A Clerigus Cup está cada vez mais competitiva. O capitão Marco Gil, que está desde a fundação, diz que "já não há os patinhos feios, aquelas equipas que já sabíamos que seriam goleadas. Basta ver que a Polónia, que era sempre candidata ao título, ficou em sétimo lugar".

Este ano participaram quinze países, que a organização dividiu em quatro grupos. No grupo A constava a Croácia, Bielorrússia, Áustria e Eslovénia; grupo B com Portugal, Hungria, Itália e República Checa; Grupo C Polónia, Ucrânia e Roménia; e grupo D Bósnia Herzegovina, Eslováquia, Montenegro e Cazaquistão.

Na fase de grupos, Portugal venceu a República Checa por 2-0, bateu a Itália por 4-2 e a Hungria por 3-1. Seguiram-se os quartos de final, frente à Áustria, que os sacerdotes portugueses bateram com facilidade por 4-0. Nas meias-finais, o adversário luso foi a Eslováquia e o jogo foi bem mais equilibrado: vitória tangencial por 2-1.

Na final, os padres portugueses defrontaram a Bósnia Herzegovina e venceram por 3-0. O resultado dá a ideia de um desnível considerável, mas o treinador Manuel Fernando assegura que o jogo "foi extremamente equilibrado" e que "o resultado indicia facilidades que não existiram".

Feitas as contas, a vitória foi fantástica e a iniciativa valeu também por outras experiências, como a visita a Vukovar, onde a guerra deixou marcas dolorosas.
Alpendurada Viana do Castelo Áustria António Cunha Ponte da Barca Clerigus Cup
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)