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Rosa Pomar: Foi trabalho de detetive

Livro sobre malhas portuguesas desvenda hábitos de um país de grande diversidade
21 de Abril de 2013 às 15:00
Rosa Pomar percorreu Portugal para investigar o trabalho da malha
Rosa Pomar percorreu Portugal para investigar o trabalho da malha FOTO: Bruno Colaço

É num segundo andar da rua do Loreto, em Lisboa, que Rosa Pomar, 37 anos, pós-graduada em História Medieval, recupera a magia dos trabalhos manuais portugueses. Autora do blogue ervilhacorderosa.com e dona da loja A Retrosaria, lançou o primeiro encontro de tricô em Portugal e agora o livro ‘Malhas Portuguesas’ (Editora Civilização).

Temos um património rico nesta área?

A questão principal é que esse património é pouco valorizado. Na Escócia há ilhas que vivem do turismo graças às camisolas de malha, porque um príncipe foi retratado a usar essa peça. Cá é pouco valorizado pelos museus e por quem o faz. Às mulheres mais velhas não lhes passa pela cabeça que dominam uma arte com valor.

 

Isso acontece em todas as artes manuais?

É mais nas malhas, porque os lenços de namorados e os bordados de Viana e da Madeira são conhecidos. A malha, à exceção das camisolas de pescadores da Póvoa de Varzim, nunca foi valorizada, por ser uma arte discreta e vulgar. Por um lado, as peças que se faziam, meias e algibeiras, estavam escondidas, por outro, até há pouco tempo todas as mulheres sabiam fazer malha. Da minha geração para a frente é que isso mudou.

 

O que mais a surpreendeu?

Talvez o facto de nos Açores e na Madeira se conservarem peças durante séculos. São sobretudo barretes de homem, de que é impossível datar o início de execução, mas que em 1820 eram feitos tal como hoje e com padrões muito bonitos.

Qual é a origem da malha?
Tanto quanto se sabe, tem mil anos e, provavelmente, até mais. Entrou na Península Ibérica por influência árabe e seguiu pela Europa. As malhas que se faziam aqui eram conhecidas nos séculos XVI e XVII, divulgadas pelas povoações costeiras. Por isso os barretes da ilha do Corvo são semelhantes aos que se fazem na Escócia desde o século XVI.

Como fez a sua pesquisa?

Foi quase um trabalho de detetive, ver ali, colar uma ponta. Tive oportunidade de aprender com muitas mulheres que ainda sabem fazer. Em certas regiões há vocabulários próprios, às agulhas chamam ‘espita’, à barbela ‘mosca’, e nenhuma peça de museu nos conta essas histórias. No Alentejo, onde há mais pessoas a fazer malha muito bem, é também onde sempre se usaram cores garridas e as mulheres não têm medo de vestir meias como as que estão no Museu de Arte Popular, com o escudo em branco e riscas de todas as cores. No Minho há meias muito rendadas, que as raparigas ainda usam nas festas da Senhora da Agonia. 

 

O que manteve essa tradição?

Por um lado há o papel dos ranchos folclóricos, por outro há situações em que ainda é o que faz mais sentido. Na serra de Montemuro as mulheres andam de capa de burel no inverno. Parece da Idade Média, é bizarro, mas a resposta é óbvia: aquilo continua a ser o melhor.

 

Encontrou outros casos?

Na aldeia do Roção [Montemuro] vimos um senhor que usava socas de madeira com meias cor de laranja,  berrantes, feitas pela mulher com a lã de uma camisola antiga. Na Madeira, em Ribeirão Frio, estivemos com uma senhora que vive numa encosta e faz os ‘barretes de vilão’ com lã das suas ovelhas. Há vários casos de lógicas de aproveitamento. Muitas destas pessoas, com 70/80 anos, viveram num mundo diferente, com condições de dureza incríveis, mas culturalmente têm traços que hoje estão na moda defender, como a autossuficiência, a vida económica e ecológica.

 

Ainda há zonas livres dos têxteis chineses?

[risos] Não há aldeia que não tenha uma loja do chinês. Mas por vezes não fazem sentido.

Esta pesquisa mudou a sua perceção do País?  
Somos um país pequeno, mas com grande diversidade em tudo, status, temperamento, cultura. Não sei quantas mais gerações isso ainda vai durar…

Inovou com o blogue, a loja…
Comecei em 2001, quando poucos portugueses sabiam o que era um blogue, lancei os bonecos de pano quando quase ninguém fazia trabalhos manuais e organizei o primeiro encontro de tricô em 2004. Essa moda nasceu nos Estados Unidos e divulgou-se na internet. Eu trouxe o conceito para cá

Rosa Pomar malhas portuguesas blogue
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