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Correio da Manhã

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Sabe o que é bater a caçoleta?

É o mesmo que ir para a quinta dos pés juntos, dar o couro às vacas, abotoar o paletó.
Marta Martins Silva 10 de Novembro de 2019 às 10:00
FOTO: Direitos Reservados

Se lhe dissermos que o Diogo ‘deu um bigode’ (venceu com grande vantagem) ao ‘escanifrado’ (magricela) do Ricardo, que a Maria ‘deitou os garfos’ (roubou) ao ‘cachucho’ (grande anel) da Margarida, que por sua vez tem uns ‘holofotes’ (busto grande) que deixam o namorado ‘com vontade de mandar o Bernardo às compras’ (ter relações sexuais) vai-nos mandar ‘pentear macacos’ (passear) ou dizer que ‘não há espiga’ (não há problema)?

Por favor, ‘aguente os cavalos’ (tenha paciência), não ‘arme o burro’ (ficar sentido) nem tão-pouco o faça a uma ‘lã de cão’ (provocar uma grande confusão). Isto não é uma ‘baboseira’ (conversa sem interesse) nem a ‘banha da cobra’ (conversa ardilosa). Trata-se sim de calão, cujo vocabulário não só faz parte do património da língua portuguesa como lhe dá vida e a enriquece.

"O calão faz parte da identidade de um povo e foi nascendo com o uso, com a necessidade de subtileza, de surpresa, de emoção. Como vai nascendo à medida das nossas necessidades comunicativas e emocionais, faz todo o sentido dizer que é um bocado do nosso ADN, da nossa identidade", acredita José João Almeida, autor do livro ‘Dicionário de Calão e Expressões Idiomáticas’ (Ed. Guerra e Paz/Livros CMTV), no qual constam mais de três mil entradas de palavras/expressões e respetivas definições, sinónimos e curiosidades.

Alguém disse vagina?
Sabe que ‘o sítio onde a pombinha do Espírito Santo encontrou a Nossa Senhora’ pode ser uma forma de dizer vagina? E que ‘a quinta perna do burro’ significa pénis, tal como ‘besugo’? Que se alguém lhe disser ‘vai-me à venda e traz-me o troco’ é porque já não o pode ouvir e que estar ‘entre a cruz e a caldeirinha’ é o mesmo que ‘de pés para a cova’?

E ai de quem ‘confundir o olho do cu com a feira de Borba’, ‘a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras’ ou ‘o género humano com o Manuel Germano’, porque é sinal que está a ‘misturar alhos com bugalhos’ (a trocar tudo), calão mais usado no centro e sul do País.

Já a expressão ‘cair da boca aos cães’ (alguém que evidencia doença ou grande cansaço) é mais conhecida a norte, tal como a ‘vai no Batalha’ (é mentira) e ‘fardalheira’ (confusão; complicação). Já ‘ficar nos cornos do touro’ quer dizer ficar mal visto e nesse caso é melhor arranjar forma de ‘levar a carta a Garcia’ (terminar uma missão com sucesso) antes de ‘levar sopa’ (levar uma tampa). Há ainda calão que varia consoante a zona do País e que se numa latitude é palavra proibida, noutra é perfeitamente neutra.

"O verbo quilhar na zona de Aveiro é considerado um palavrão muito feio, mas na zona do Minho a gente usa-o mesmo em frente das avozinhas sem qualquer problema", explica o autor do Dicionário.

"Um dos tabus da nossa língua é tudo o que diga respeito a coisas malcheirosas e isso leva, por exemplo, a que se tenha de dizer casa de banho de maneira indireta. Quando se pergunta pela casa de banho ninguém vai tomar banho, é uma maneira de fugir ao problema. Isso já aconteceu por exemplo com retrete, que vem do francês retirar-se, mas que com o uso passou a ser demasiado evidente; enquanto as latrinas eram a metáfora que os romanos usavam pela mesma razão. Hoje já ouço ‘ir ao controlo antidoping’ e ‘ir arrear o calhau’. Quando passa a ser demasiado evidente ganha um certo grau de proibição", explica José João Almeida. A este investigador do Grupo de Especificação e Processamento de Linguagem do Centro Algoritmi da Universidade do Minho ainda hoje, mais de vinte anos depois de ter iniciado um dicionário online, fascinam as imensas possibilidades do calão. "Por exemplo ‘aquele car***’ é um pronome universal emotivo; ‘do car***’ é um complemento de ênfase e ‘como o car***’ funciona como aumentativo. E se ‘vai para o car***’ significa vai-te embora, ‘foi para o car***’ é uma ocorrência de desgraça", explica o professor universitário. Curioso é como uma mesma palavra pode significar uma coisa ou o seu oposto. "Uma vez estava a ver um jogo de futebol e o Cristiano Ronaldo meteu um golo com um pontapé de bicicleta dado a uma altura descomunal. Na altura, quem estava ao meu lado disse ‘aquele car*** meteu um filho da p*** de um golo que os f*** a todos’. O que é que quer dizer car*** nesta frase? É essencialmente uma maneira de exprimir mais emoção e servir como um grande elogio." Uma coisa é certa: percebe-se a ‘olho nu’ quando o calão é ‘baril’ e quando não é.

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