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Correio da Manhã

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SALVACION

‘Um País Para Lá do Azul do Céu’ (livro de contos que incluiu este ‘Salvacion’) é o mais recente livro da italiana Susanna Tamaro, ‘best-seller’ em Portugal e numa série de outros países. Tem tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo e surge com a chancela habitual da Presença. Tamaro nasceu em Trieste, em 1957, embora tenha habitado em Roma durante a maior parte da sua vida. Em 1989, o livro ‘Com a Cabeça Nas Nuvens’, fortemente elogiado pela crítica, lançou-a no panorama literário italiano. Mas foi em 1994, com o sucesso de ‘Vai Aonde Te Leva o Coração’, que Susanna conquistou o mundo. Só essa obra já vendeu 6 milhões de exemplares.
7 de Fevereiro de 2003 às 19:28
“A primeira coisa em que Salvacion reparou foi na distância. Já vivia há um mês naquela casa e começava a perceber como se comportavam os patrões. Nas primeiras semanas, a patroa tinha estado sempre ao lado dela. Tinha de lhe explicar o funcionamento da casa, onde estavam as panelas e os esfregões, como se usava o aspirador e a enceradora, como se carregava a máquina de lavar a roupa: as coisas escuras com as coisas escuras, as claras, com as claras. Tinha-lhe ensinado a distinguir a seda dos outros tecidos porque a seda era a única que tinha de ser lavada à mão. Depois, tinham sido as aulas de culinária: os tomates com arroz, o guisado, as beringelas estufadas, a carbonara. Nessa altura, a patroa tinha sido a sua sombra, mal ela tinha problemas com alguma coisa, ajudara-a, explicando-lhe tudo mais uma vez.

Tinha tido de aprender tantas coisas que, para Salvacion, aquele mês tinha voado. Agora, era o seu primeiro domingo de folga: a patroa já tinha ido há dois dias para o campo, e o marido, o senhor doutor, tinha ido ter com ela na noite anterior. Salvacion estava sozinha naquela casa enorme e luminosa. Mal abrira os olhos, viera-lhe à ideia a questão da distância: a patroa nunca tinha estado tão perto dela como o senhor doutor, na noite anterior. Normalmente, se falava com ela, era de tão longe que nem estendendo um braço conseguiria tocar-lhe. Mas, na noite anterior, quando o acompanhara à porta, com a mala na mão, ele voltara-se de repente e só por uma fracção de segundo não se encontraram, de rostos colados. Então, ela dera logo um passo atrás, aquela distância mínima parecia-lhe uma falta de respeito. Ele, pelo contrário, dera um passo em frente.

Por uns instantes, tinham estado tão próximos que Salvacion sentira o hálito do doutor na sua testa. Na espinha formara-se-lhe um suor estranho e leve, e, quanto mais tempo passavam assim parados, mais o suor ia aumentando. Depois, de repente, ele dera-lhe um piparote na face. — Quantos anos tens? — perguntara. — Dezanove, senhor doutor — respondera Salvacion. O doutor sorrira. — Pensa em divertir-te — dissera-lhe, abrindo a porta. — Voltamos na segunda-feira, de manhã.

Naquele domingo, Salvacion acordara cedo, como era seu hábito e, como era seu hábito, passara a primeira meia hora do dia recolhida em oração. Depois, tomara um duche, mas, mesmo durante o duche, a sensação de mal-estar por causa da noite anterior não tinha desaparecido. Ainda sentia na testa o hálito do doutor.

Aquele pensamento mantinha-se dentro dela como um diabinho malvado. Às dez horas, a prima iria buscá-la para passarem o dia juntas. Como ainda faltavam duas horas, foi descalça para o terraço, tratar das plantas.

Parcialmente escondido por um véu esbranquiçado de humidade, o sol começava a aquecer o ar. Da corola de uma flor despontavam as patas traseiras de um besoiro.
Quando a campainha tocou, Salvacion gritou: “Já vou!”, como se alguém pudesse ouvi-la, depois ligou o alarme e desceu as escadas com uma bolsinha branca na mão. Do grupo todo daquele domingo só conhecia a prima. Eram muitos e foram almoçar a uma lagoa artificial no meio de uns prédios enormes e claros. Tinham levado um piquenique e comeram todos juntos, ouvindo música da sua terra. — De onde és? — perguntou-lhe um rapaz. — De Jordan Ilo Ilo, como ela — respondeu Salvacion, apontando para a prima. — Queres jogar raquetas? — perguntou o rapaz. Salvacion sorriu. — Não, agora não. Fica para outra vez. — O rapaz sorriu e foi jogar. O sol estava quente. Salvacion abriu a bolsa e tirou uma folha de papel de carta. Ainda não tinha escrito para casa. “Querida mãe, queridas irmãs”, escreveu na primeira folha, “é domingo e estou com uns amigos num campo, no centro da cidade. Desde que cheguei, ainda não tive um minuto livre para vos escrever. Tive de aprender muitas coisas, a senhora é muito simpática e tem muita paciência comigo. Penso muito em vocês e quando vou para a cama e à minha volta não ouço os ruídos da casa fico muito triste. Na semana que vem, mando-vos o meu primeiro ordenado.

Eu aqui estou bem e não me falta nada. Um grande abraço. Salvacion.” A segunda carta escreveu-a à madre superiora do colégio onde tinha estudado. Tinha sido ela quem a aconselhara a ir trabalhar, durante uns anos, para a Europa. Aos dezasseis anos, Salvacion gostaria de ir para freira. Já então sentia que a sua vida era essa. Tinham conversado durante muito tempo: a madre superiora não duvidava da sua vocação, mas opunha-se a uma opção tão precoce. Dois anos antes, quando lhe morrera o pai, de repente, a situação tornara-se dolorosamente clara. “És a mais velha”, dissera--lhe a madre superiora “e, em primeiro lugar, tens de pensar na tua família, nos teus irmãos, que ainda são pequenos. O convento está aqui, à tua espera.

Entretanto, vai conhecer o mundo, Jesus segue-te para todo o lado, mesmo sem o hábito de freira.” Na carta, Salvacion dizia-lhe que estava contente por estar onde estava. O facto de ser útil à sua família fazia-a sentir-se menos triste e menos só. Todavia, nos momentos livres, não deixava de pensar no convento: o dia em
que fizesse os votos seria o dia mais bonito da sua vida. (...)”
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