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Correio da Manhã

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"Salvei Spínola de morrer com tiro na cabeça"

Muito do que sou como homem devo a António de Spínola – que foi o comandante do meu batalhão, era ele tenente-coronel, quando estive na guerra em Angola. O Batalhão – ou melhor, o Grupo, porque somos de Cavalaria – foi formado em Estremoz por 638 militares oriundos de várias unidades. Embarcámos no navio ‘Angola’ ao final da manhã de 24 de Novembro de 1961, uma sexta-feira, e chegámos a Luanda na tarde de 9 de Dezembro. Ficámos uns dias acomodados no campo militar do Grafanil – até que fomos mandados para o Norte: primeiro estivemos em Ambrizete, no litoral; depois em Bessa Monteiro, mais para o interior.
20 de Julho de 2008 às 00:00
'Salvei Spínola de morrer com tiro na cabeça'
'Salvei Spínola de morrer com tiro na cabeça' FOTO: d.r.

A vila de Bessa Monteiro estava deserta: a população tinha fugido, acossada pelos ataques dos guerrilheiros da União dos Povos de Angola, a UPA. Lembro-me que chegámos à zona por volta das 11 horas da manhã. Pouco tempo depois, fomos atacados. Estávamos de marmita na mão na fila para o almoço e mal tivemos tempo para reagir. À volta era tudo mato. O meu pelotão ainda saiu para perseguir os atacantes – mas eles já tinham saído dali para fora.

A vida não era nada fácil em Bessa Monteiro. A missão do Grupo 345 era limpar a zona de guerrilheiros e permitir o regresso das populações. Numa das primeiras operações de grande envergadura, a Companhia 253 sofreu uma brutal emboscada – em Quidilo, durante a travessia de um rio, na manhã de 25 de Abril de 1961. Nove militares dos nossos caíram mortos e 21 sofreram ferimentos.

A companhia ficou muito desmoralizada. Nunca mais me esqueço do que fez o nosso comandante quando os homens regressaram ao quartel. Vinham mesmo em baixo. O tenente-coronel Spínola foi ter com eles e disse-lhes:

– A partir de hoje, quando saírem para o mato, eu é que vou à vossa frente.

A atitude do comandante acabou por levantar o moral dos soldados. No dia seguinte, já sob o comando directo de Spínola, a companhia voltou ao local onde tinha sido tão massacrada.

Todos os dias, quando era a hora da refeição, ele ia ter com os soldados para os animar e conversar. Era um grande comandante: exigia muito aos militares – mas também os tratava bem. Saía com eles para o mato e enfrentava os mesmos perigos. Interessava-se por nós. Lembro-me de um período em que só se comia arroz. Ele ficou furioso. Conseguiu melhorar as nossas condições. Passámos a receber, no meio do mato, pão, batatas, conservas e outros mantimentos transportados por aviões Dornier. Mas ai de nós se as ordens não fossem cumpridas à risca... Nisso era implacável. Não perdoava a ninguém. Tanto gritava com os soldados como com os oficiais.

Conseguimos ‘limpar’ a zona de Bessa Monteiro. As populações começaram a regressar. O nosso Grupo foi colocado, em Julho de 1962, no sector de São Salvador – região mais a norte, onde a guerra ainda era mais dura. Eu e o ‘Alenquer’ passámos a acompanhar de perto todos os passos de Spínola: quando ia para o mata, e ia muitas vezes, nós estávamos sempre com ele.

Uma vez, a Companhia 345 saiu para uma operação perto da fronteira com o Congo ex-belga [actual República Democrática do Congo] e, como se tratava de uma zona difícil e perigosa, Spínola também foi. O mato era cerrado. Chegámos a uma bifurcação – e escolhemos um dos caminhos. A caminhada foi interrompida ao cair da noite. Ajeitámo-nos para comer e dormir. Ao cair da noite, os guerrilheiros iniciaram um ataque em grande força. Caíam morteiros. Eu estava deitado de barriga para baixo e, ao rebolar para me abrigar noutro local, encalhei num capacete. Reparei que Spínola estava de cabeça erguida a tentar ver pelos clarões de onde vinham os morteiros. Enfiei-lhe o capacete na cabeça. Momentos depois,ouvimos uma bala a resvalar no ferro. O comandante fora atingido e o capacete salvou-lhe a vida. Se não fosse eu, Spínola teria morrido com um tiro na cabeça. Estivemos toda a noite debaixo de fogo. Só conseguimos sair de manhã, com o apoio dos bombardeamentos da Força Aérea.

Noutra operação, também com a presença de Spíonola, fomos atacar um grande depósito de munições dos guerrilheiros, na zona de São Salvador. A aviação bombardeava à nossa frente – e nós seguíamos o rasto. Chegámos a um morro e fizemos o cerco ao objectivo. Houve troca de tiros. Os guerrilheiros debandaram e deixaram lá tudo: metralhadoras, morteiros, granadas – e muitos documentos. Foi através desses documentos que descobrimos, pela primeira vez, que havia minas anticarro em Angola e que todas as saídas de São Salvador estavam minadas.

Ao fim de um ano no inferno do Norte, o Grupo de Cavalaria 345 é mandado para o descanso de Sá da Bandeira, no Sul, onde ainda não havia guerra. O Grupo regressou à Metrópole – juntamente com Spínola, que entretanto foi promovido a coronel. Chegámos a Lisboa, no paquete ‘Vera Cruz’, no dia 4 de Março de 1963.

'SPÍNOLA OFERECEU-SE PARA MEU PADRINHO DE CASAMENTYO'

António de Spínola ficou reconhecido por Cáceres Veiga lhe ter salvo a vida. Terminada a comissão, Veiga recebe em casa, nos arredores de Arronches, no Alentejo, um telegrama do antigo comandante: Spínola arranjara-lhe um bom emprego – no laboratório de produtos farmacêuticos do irmão, Francisco Spínola. Veiga aceitou. Mas teve saudades da terra. 'Não me adaptei à vida de Lisboa e regressei ao meu Alentejo, onde me sentia com mais liberdade', recorda. Spínola compreendeu as razões do amigo. E, para provar que o estimava, fez questão de ser o seu padrinho de casamento. Veiga casou-se em 12 de Setembro de 1964. Trabalhou uns tempos na agricultura, até que conseguiu entrar para a Guarda Fiscal. Reformou- -se pouco depois do 25 de Abril de 1974. Nunca deixou de visitar Spínola, na casa do Paço da Rainha, em Lisboa, ou na quinta de Massamá, no concelho de Sintra. António Veiga e Rosa têm dois filhos: Alice, professora de Português em Alenquer, e José, professor de Música em Portalegre. Hoje, António Veiga dedica-se à produção de gado bovino numa propriedade nos arredores de Monforte, no Alto Alentejo.

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