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Correio da Manhã

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Sangue português na China

Foi a primeira manequim não caucasiana a fazer capa de revista. É filha de pai português
20 de Maio de 2012 às 15:00
A luso-chinesa, aos 81 anos, numa produção para a revista americana ‘New York’
A luso-chinesa, aos 81 anos, numa produção para a revista americana ‘New York’ FOTO: Direitos reservados

Um avô capitão, aleijado e demasiado temperamental, um pai comerciante de ouro, que enriqueceu fora da pátria, uma madrasta má, que obrigava a tarefas domésticas e fazia da enteada uma gata borralheira, e uma fuga atrás de um toureiro que roubava corações seriam ingredientes à altura de um qualquer filme de série B nascido em Hollywood.

Mas o mirabolante cenário da história de China Machado, a primeira modelo não caucasiana a fazer capa de uma revista de moda, nos idos anos 50, tem pronúncia portuguesa e não nasceu no ecrã. Noélie da Souza Machado - o seu verdadeiro nome deve-se ao facto de ter nascido no dia de Natal - é filha de mãe chinesa, com origens goesas, e de pai português, um banqueiro com raízes macaenses, proprietário de várias terras, que perdeu o dinheiro, mas não a dignidade durante a II Guerra Mundial.

China Machado, agenciada na terceira idade pela IMG, ao lado de figuras de proa das passerelles mundiais como Kate Moss e Gisele Bündchen, voltou às páginas das revistas aos 81 anos, depois de décadas afastada da moda. Aliás, a publicação americana ‘New York' apresentou-a, numa produção que fez capa, como "produto de 400 anos de relacionamentos inter-raciais entre os portugueses e as mulheres dos portos de abrigo e comércio por onde iam passando".

DE XANGAI PARA O MUNDO

Os pais enamoraram-se em Hong Kong, mas a morte da mulher, quando China tinha três anos, veio ensombrar a vida familiar de Frederico Machado. Até fazer 16 anos, a família daquela que foi mais tarde a manequim mais bem paga do Mundo (recebia 750 euros por dia, uma fortuna na época, devido aos seus traços exóticos e sensuais), musa do fotógrafo Richard Avedon, viveu numa casa apalaçada, recheada de móveis de madeira, no bairro francês de Xangai, onde se falava português à mesa. China estudava num colégio católico, sonhava casar e ter filhos, uma expectativa apoiada pelo pai.

No início da década de quarenta, a família Machado funcionava como pilar da comunidade portuguesa de Xangai, mas o patriarca viu-se obrigado a embalar o pouco que sobrara de uma vida de riqueza e fugir com a família para a Argentina, depois da invasão dos japoneses.

"Vamos deixar a China para os chineses. Nós não somos carne nem peixe", terá dito Frederico antes de embarcar. Até aos 19 anos, a luso-chinesa Noélie foi hospedeira de bordo numa companhia aérea e menina bem comportada, mas o encontro num bar com o famoso toureiro espanhol Luis Miguel Dominguín, que se rendeu à sua beleza pouco convencional mal a viu, mudou-lhe o rumo e afastou-a da família. Fugiu com ele três dias depois de o conhecer.


O pai, um português austero que imaginava a filha num caminho diferente, esteve 15 anos sem falar com a única rapariga da sua prole. Dominguín levou China para a Europa, de festa em festa, de cocktail em cocktail, antes de a trocar por Ava Gardner, estrela maior do cinema de então e uma das mulheres mais desejadas na época, casada de papel passado com Frank Sinatra. Enjeitada pelo cupido, abalou para Paris onde deu início a uma bem-sucedida carreira de modelo na Givenchy, que lhe recheou a conta e o ego.

Daí voa para a América pela mão do estilista que fazia o guarda-roupa de Jacqueline Onassis. Foi nessa altura, aos 28 anos, que conheceu o reputado fotógrafo Avedon, que ameaçou a revista ‘Harper's Bazaar' de não mais trabalhar com eles se não fizessem capa com a exótica luso-chinesa. Nessa altura, já Noélie abandonara o nome de registo e escolhera ser China, em honra ao ‘Chinita' (menina chinesa), que lhe chamavam em Buenos Aires. Mas a incursão na moda não se estendeu no tempo.

China foi editora de moda, estilista, produtora de televisão, pintora e designer. Dirigiu uma revista para mulheres com mais de 45 anos, namorou com o actor William Holden, casou e divorciou-se do actor Martin LaSalle (de quem teve duas filhas) e encontrou em Riccardo Rosa a estabilidade emocional. Tem uma galeria de arte e voltou à moda aos 81 anos. Fala sete línguas, mas há uma palavra que só existe em português: saudade. É com todas as letras que a diz.

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