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SANTINHO MARTINS: SEXO NÃO É CAMPEONATO

Ela é mais fingida, ele mais engatatão. Mas quando há avaria é ele o primeiro a procurar ajuda especializada. Numa guerra sem armistício, a dos sexos, o sexólogo explica porque andamos todos à procura do prazer
10 de Outubro de 2004 às 00:00
Os 20 anos da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica era o pretexto para a entrevista com o seu presidente, o endocrinologista e sexólogo Santinho Martins. O encontro estava marcado para a sede, no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, onde o médico dá consultas.Santinho Martins chegou pouco passava das 15 horas, apoquentado por ter deslizado da hora aprazada. Tinha ficado à conversa com o estofador que lhe está a forrar a gaveta, onde vai ficar uma “belíssima vulva de madeira”, justifica lembrando que o esdrúxulo motivo do atraso tem justificação no seu apreço por arte erótica.
Este setubalense, incaracterístico por se sentir também um pouco lisboeta e algarvio, tem 62 anos. Os últimos 25 passou-os a ouvir falar de sexo – basicamente os problemas dos outros.
Por dar conselhos em tão douta matéria, não nega que há quem pense que “sabe-la toda”. “Há muita curiosidade sobre o que um sexólogo pode fazer em privado.”
Vamos lá então falar sobre sexo... Não se fala demais sobre o assunto? Mais vozes que nozes...
Sim, e as pessoas continuam com ideias erradas sobre o sexo, sobre o que é normal e o que não é. A comunicação social foi fundamental após o 25 de Abril para que as pessoas percebessem que a sexualidade não era um bicho de sete cabeças. Simplesmente, hoje em dia, entrou-se num campo em que a sexualidade é um campeonato. A pessoa tem de ter não sei quantos orgasmos por noite, tem de ser tocada num determinado ponto para que a coisa aconteça…
Não acha que há muito folclore nisso tudo?
Sim. Não há inconveniente nenhum que se fale às pessoas sobre quais são os pontos sensíveis, mas é evidente que há uma grande variabilidade individual. Querer fazer disto uma ‘check list’, toca aqui, toca acolá, é errado.
Isso seria fazer do ser humano uma máquina com instruções.
Sim. Tipo: Operação 1, carrega aqui; Operação 2, carrega acolá; Operação 3, o pénis na vagina. E por aí em diante.
O sexo será aquilo que há de mais imprevisivel na vida humana?
Não diria o mais; mas é um meio de comunicação entre pessoas e qualquer coisa de extraordinário.
O sexo visa o prazer, a intimidade, e tudo isso tem uma enorme importância. Embora o homem tenha uma grande capacidade de adaptação – basta ver os padres, eles abstêm-se do sexo. O ser humano é muito complexo.
O melhor estimulante sexual é o cérebro?
Completamente. Eu só posso desejar uma coisa que me dá prazer. A experiência de vida que temos, o prazer que obtivemos, estão implicados no desejo. Se as experiências foram gratificantes, quero mais. Se forem negativas, ou posso continuar à procura da gratificação, ou ter um comportamente de evitação de modo a fugir à repetição da dor.
Quanto mais gratificante…
Mais se repete.
Então como é que se consegue partir para uma experiência de celibato?
Há outros valores. No caso dos padres, por exemplo, por questões de religião e moral. O celibato pode ser também uma opção de vida de uma pessoa egoísta, narcísica, preocupada consigo e nada com os outros. A sexualidade é comunicação e se calhar existem pessoas que não estão dispostas a partilhar o espaço ou o corpo.
Mas o sexo não é eminentemente egoísta?
E é por isso que muitas mulheres evitam ter relações sexuais. Se calhar porque nunca foi gratificante, porque o homem foi egoísta, ejaculador prematuro ou não se preocupou com o bem- -estar da mulher. Ela até pode ter prazer em proporcionar prazer mas quereria certamente mais do que isso.
A Judith Greenwood casada com um espécie de papa da sexologia, o John Bancroft, disse-me uma vez que no sexo, quando um quer branco e o outro preto, a pior coisa que pode acontecer é ficarem pelo cinzento. Um dia pode ser branco, noutro preto, assim há sempre um satisfeito.
E não é a opção masculina a que prevalece?
Sim. As mulheres recusam ter relações ou têm com menor frequência porque sentem a falta de atenção do homem. Isto não quer dizer que em todas as relações tenha que haver orgasmos, pode-se proporcionar prazer sem orgasmo, se não até parece que estamos numa sociedade orgasmocrática.
Mas a verdade é que quem defende estas coisas são os homens, pois são eles que mais trabalham em sexologia. Tenho de reconhecer que ao defender isto, quem sai prejudicado é a mulher.
Socialmente, nem sempre foi bem aceite a manifestação de prazer por parte da mulher...
A boa esposa não tinha orgasmos. Se não, não era uma senhora de bem, era uma prostituta.
Em 20 anos, o tempo de existência da Sociedade de Sexologia, muita coisa terá mudado.
Vinte anos é pouco tempo. Houve um aumento na procura do tratamento de algumas disfunções. Mas continua a haver um número muito baixo de mulheres nas consultas, ainda para mais quando se sabe que têm mais problemas sexuais que o homem.
Que tipo de problemas?
Fundamentalmente a falta de desejo. Depois, alterações do orgasmo, dor e vaginismo, que é a impossibilidade do pénis ser introduzido na vagina devido à contracção dos músculos.
Porque é que ela se queixa menos?
A mulher tem uma grande capacidade de fingir durante a relação sexual. O homem ou tem erecção ou não tem, vê-se, está ali. A mulher finge muitas vezes para não desgostar o parceiro. Às vezes durante um casamento inteiro. Por isso é-lhe difícil procurar tratamento. Como se diz ao companheiro, que se fingiu na cama durante anos?! O homem sai ferido no orgulho, primeiro porque a mulher lhe mentiu, depois porque percebe que não conseguiu ser o supermacho.
E como é que o supermacho vem à consulta dizer: ‘Olhe, isto não está a funcionar nada bem?’
Vem com a sua auto-estima muito baixa e com grande dificuldade em exprimir a sua situação. Há homens que vêm muito nervosos, que andam ali à volta até dizer o que têm
Mas conseguem dizer: ‘Olhe, doutor, tenho uma disfunção eréctil?’ Assim, com as letras todas?
Sim, e isso foi trabalho da Comunicação Social. As pessoas sabem o que é.
Quando comecei, há 25 anos, a panóplia de tratamentos era muito curta e as pessoas pouco informadas.
Nos anos 80, a sociedade portuguesa era complemante diferente…
As pessoas não sabiam como lidar com os problemas e achavam que mais ninguém os tinha.
Ainda hoje é necessário que as questões da sexologia entrem nas faculdades de medicina. Portanto, não se evoluiu como seria de esperar em 20 anos.
Seria interessante os médicos de família terem uma visão mais esclarecida sobre o assunto?
Sim, são eles que têm acesso directo às pessoas. É certo que não podem ser especialistas de tudo, mas desde o momento que conversem com os doentes e que os encaminhem, já é bom.
Nalgumas terras, o clínico aproxima-se do padre.
Não haja dúvida! Ele sabe quais são os problemas do homem, sabe quais são os da mulher e sabe quais são os de terceiros porque está inserido na aldeia, e conhece as histórias todas. Quando vem alguém à minha consulta, eu só sei aquilo que me contam.
A abordagem do sexo e do erótico difere de comunidades rurais para as citadinas?
Hoje, com a televisão, as pessoas já encaram as coisas doutra maneira. As comunidades rurais terão talvez algum prurido com determinadas práticas, mas se calhar as diferenças já não são assim tão grandes.
Prurido? Com o quê?
O sexo oral, que é uma coisa que os miúdos andam a falar muito. A Sociedade de Sexologia faz acções de formação nas escolas e o sexo oral é a coisa sobre a qual fazem mais perguntas.
De que género?
Se se pode fazer? O que é? As crianças na cidade vêem as coisas na televisão, ao passo que as do campo têm a sexualidade dos animais ali à vista.
Não se precisa de explicar grande coisa…

Não, eles vêem que o coelhinho montou a coelhinha e depois há coelhinhos.
Hoje em dia, os meninos tem uma grande ajuda através dos canais de TV pagos pelos papás. Isso signifca uma sexualidade mais sapiente?
Não, aquilo que se passa não corresponde à realidade. O que se vê nesses canais é um campeonato, sem afectividade. É claro que com os animais também não se aprende essa parte, mas é mais natural, e acaba-se por chegar lá. Nos canais pornográficos há qualquer coisa de mecânico, sem afectos. Lá não se aprende uma sexualidade com afectividade. O que para o desenvolvimento é fundamental.
Numa relação sexual tem de haver afecto?
Apetecia-me dizer que sim. Embora possa haver relações muito gratificantes, sem afecto. A sexualidade é comunicação. Num engate não existe afecto, só atracção.
O homem é mais atreito ao engate que a mulher. Ele manifesta as suas necessidades mais fisicamente, ela mais emocionalmente. Mas estas coisas são um bocadinho difíceis... A mulher por exemplo é capaz de orgasmos completos só em pensamento, de multiorgasmos...
Então quando o homem justifica a propensão para o engate com a questão biológica, é desculpa de mau pagador?
O homem tem uma grande necessidade de manifestar a sua sexualidade e a sua virilidade, de estar em situação dominante. Se calhar tínhamos de descer ao reino dos macacos para perceber isso – há um macaco que domina o harém e os outros só podem ter qualquer coisa às escondidas se houver macaca disponível. Nós temos o lobo frontal mais desenvolvido para raciocinarmos, para termos emoções, mas temos formações cerebrais que vêm desde os répteis e ainda estão cá.
Podemos ter domínio, mas também não tão acentuado que possa inibir essas outras estruturas cerebrais arcaicas.
O que é uma pessoa atraente?
Inconscientemente vamos elaborando um modelo ideal do que gostamos no outro. Isso vai-se construindo ao longo da vida, desde que se nasce. E está sempre em construção e reconstrução.
A pessoa viu uns olhos de que gostou, regista, se calhar nem se apercebeu, vê aquele nariz, aqueles lábios, a cor de uns cabelos e até pode dizer: ‘eu gosto mais das louras’ mas é mentira porque um dia se lhe aparece uma pessoa que corresponde à base de registo… Se há qualquer coisa que encaixa no puzzle, nasce a paixão ou o desejo erótico.
Como se dissocia a paixão do desejo erótico?
É muito complicado. Normalmente, quando gostamos de qualquer coisa queremos possuí-la. Esse desejo de posse é grande, queremos tocar, acariciar. Até mesmo uma obra de arte, uma escultura, a tendência é para passar a mão, sentir o volume.
É isso que é o erotismo?
É o desejo e uma série de fantasias que fazem com que nos sintamos bem. Pode-se pensar que é qualquer coisa que provoca uma erecção, mas não é verdade.
O conceito de erotismo varia com as épocas, as civilizações e até de indivíduo para indivíduo...
Os processos religiosos, culturais e até o sentido estético e ético condiciona aquilo que é erótico e o que não é. É uma questão muito individual.
Participou no I Festival de Cinema Erótico e Pornográfico Pornimbra 2003...
É verdade, convidaram-me para falar sobre pornografia. É um conceito que depende da estética pessoal.
Há coisas que são muito bonitas sob o ponto de vista estético e há outras que, embora representem exactamente a mesma coisa, como não são aprensentadas dentro do meu conceito estético, não são nada eróticas ou estimulantes.
Há pessoas que dizem que pornográfico é mostrar expressamente genitais ou a cópula. Isso não me impressiona minimamente. A estética é que diferencia o pornográfico do erótico.
Num tempo como o nosso, onde tudo se mostra, tudo se vê, o que é que pode ser erótico?
A arte, por exemplo, é algo que nos faz despertar emoções. Também é natural que desperte em nós pensamentos eróticos e de desejo. Quando nós ouvimos uma música que nos agrada, ou vemos um quadro, a sensação de prazer é devida à libertação de substâncias condicionantes do bem-estar no organismo. Há uma associação entre o desejo da prática sexual e aquele bem- -estar do que estou a ver nesse momento.
Isso é uma concepção do prazer erótico que pode ser extrapolada para o mundo em geral. Tudo tem um sentido erótico?
Acho que sim. Quando acabar esta conversa quero ir a uma livraria, onde sei que está um livro que é exactamente isso. Intitula-se: ‘O Sexappeal das Coisas Inorgânicas’.
E existe?
Os objectos de ‘design’, uma cadeira soberbamente bem conseguida, pode não me despertar interesse erótico mas desperta de bem-estar. Lá estamos nós no sentir bem, no prazer.
Somos portanto todos animais de prazer...
Fundamentalmente.

Nessa perspectiva, quem se vê coibido de sentir prazer não se cumpre enquanto ser humano?
Costumo dizer que o Homem não foi feito para ter desprazer. O Homem fundamentalmente o que procura é o prazer.
Ainda bem?...
Claro, não estamos cá para sofrer.
E onde está o limite, até onde se pode ir, nessa busca pelo prazer?
O limite tem de estar na parte social.
Mesmo que contrarie a natureza humana?
Suponha que o meu grande prazer era matar?!
DICIONÁRIO PRIVADO
Erótico - Prazer
Prazer - Satisfação
Sexo oposto - Desejável
Censura - Execrável
Sexologia- Uma ciência para ajudar o homem na procura da felicidade
Tornozelo - Há muitos anos era erótico
Muito erótico hoje em dia - Aquelas blusinhas curtas e calças de cós baixo em que se vê o início da curvatura das nádegas
Casamento - Ligação provisória, pensando que é definitiva.
Mulher - A melhor coisa que um homem pode ter
Primeira vez - Curiosidade
Genitais - Orgãos absolutamente vitais
Cabeça - Onde está o sexo
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