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São os agudos, rapaz

Quando penso em agudos penso em mulheres, suas vozes e gritos, e lembro-me de algo que li na minha infância (...)
30 de Maio de 2010 às 00:00
São os agudos, rapaz
São os agudos, rapaz

É oficial: perdi parte da minha audição. Ontem o otorrinolaringologista (quantas vezes é que tenho oportunidade de escrever uma palavra destas?) confirmou as minhas suspeitas após um teste conciso, concluindo que tenho vindo a perder capacidades auditivas ao longo dos anos. Os meus ouvidos portam-se como os de um homem de quarenta e cinco, cinquenta anos, e já não ouço os agudos como deveria.

É fácil ir buscar justificação para isto na evidência de sempre ter ouvido música muito alto, quer em casa quer nos headphones, ao facto de os primeiros espectáculos a que assisti serem de heavy metal e andar a dar concertos há dezasseis anos ao lado do bruto do meu irmão, cujo amplificador está sempre no prego, obrigando-me assim a colocar a minha munição em forma de auricular in-ear mais alta, ainda.

Seria fácil, dizia, encontrar nestes factos a razão para o meu pequeno resvalo de surdez. Mas como não gosto de soluções fáceis, proponho-me a encontrar outra causa, aproveitando para pôr de alerta todos os homens incautos que poderão estar a ler estas linhas à medida que, sem dúvida, sentem a minha dor. Ora o médico disse-me que já não ouço bem os agudos.

Quando penso em agudos penso em mulheres, suas vozes e gritos, e lembro-me de algo que li na minha infância nas ‘Selecções do Reader’s Digest’, publicação obrigatória na casa dos meus pais e privilegiada leitura de casa de banho. Rezava o artigo que com o avançar da idade os homens perdem inevitavelmente a aptidão de ouvir com clareza as suas companheiras, porque vão deixando de ouvir os agudos (que elas nos espetam nas orelhas diariamente ao longo da vida, pois claro).

Longe de mim questionar a sapiência encerrada nas páginas das ‘Selecções’, e sei que por ali havia uma mensagem subliminar, parecendo-me óbvio que existe uma relação causal, apenas ao contrário. No meu caso a coisa faz sentido e até consigo encontrar algumas responsáveis. Diz o otorrinolaringologista (e vão duas!) que apesar de não ter cura, a minha condição nada tem de grave, desde que me proteja bem.

Enfim, vendo a coisa pelo lado positivo, sempre tenho uma desculpa para não ter lavado a loiça do dia anterior ou me ter esquecido de fazer uma máquina: posso sempre dizer que não ouvi nada.

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