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São ‘melhores’ as pessoas que gostam de animais?

Tio Alberto, o nosso bibliómano de São Pedro de Arcos, dava grandes caminhadas em redor do lago – inspirado pela cúpula melancólica daqueles arvoredos, creio que imaginava Ártemis como “a loira filha de Zeus” (ele lia grego e dedicava um grande respeito a Anacreonte), caçadora e tão feroz como os animais selvagens que perseguia e amava.
António Sousa Homem 2 de Novembro de 2014 às 19:00
O comentador António Sousa Homem
O comentador António Sousa Homem FOTO: D.R.

Na sua juventude, dedicou ao assunto um breve e único poema em que referia, justamente, o amor aos animais. Tinha dois cães; eram dois monstros plácidos e cordatos que se assemelhavam igualmente a leitores de clássicos, e que aguardavam sem pressas das suas longas ausências outonais.

No eremitério de Moledo, apesar de os clássicos gregos estarem bem representados (de Homero a Píndaro há uma certa liberalidade que se estende aos latinos, Ovídio e Horácio acima dos restantes), não há animais. Não se trata de uma discriminação, mas de um acaso.

É comum dizer-se que os amantes dos animais são pessoas em geral sensíveis, capazes de gestos generosos e de disponibilidade para a comunhão com a natureza; pessoalmente, acho que os amantes dos animais são, apenas, pessoas que gostam de animais. Daí até concluir que há nelas uma superioridade moral e mística sobre os botânicos ou os geólogos vai uma grande viagem – e cheia de atalhos. Na verdade, os animais de São Francisco de Assis, aos quais o santo devotava alguma dedicação, constituem uma metáfora religiosa acerca dos simples, dos humildes e desprovidos de inteligência; deles viria alguma lição contra a escolástica e a hipocrisia da época. A misantropia dos Homem nunca buscou consolação na preferência pelos animais (ou na sua "simplicidade", que deveria ser simpática). Havia, na velha casa do Porto, dois gatos admitidos pelo velho doutor Homem, meu pai – permitiam-se-lhes certas liberdades e eram considerados parte da família, mas nunca foram fotografados para serem incluídos na galeria ou na genealogia domésticas.

Por que razão gostamos de animais? Serão "melhores" as pessoas que gostam de animais? Não é isso que faz de nós mais humanos. Apenas mais disponíveis para a misantropia (com o argumento de que "os animais são melhores do que as pessoas") e para combater a hipertensão.

António Sousa Homem em certos aspectos
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