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Sapatos à medida de todos os pés do Mundo

Se as exportações têm sido o motor da economia, o calçado lidera essa marcha. Em seis meses foram vendidos 35 milhões de pares
29 de Setembro de 2013 às 15:00
Sapatos à medida de todos os pés do Mundo

Os números são francamente animadores. Nos primeiros seis meses de 2013, a indústria de calçado portuguesa aumentou em 4% as vendas no estrangeiro. Foram 35 milhões de pares de sapatos, que renderam 789 milhões de euros. E os destinos são cada vez mais variados, tendo-se registado um aumento muito significativo das vendas fora da União Europeia, em países como a Rússia, Angola, Estados Unidos, Canadá ou Austrália. A explicação para este fenómeno resulta de vários fatores, mas Domingos José, gerente da fábrica Centenário - fundada em 1941 - frisa a mudança crucial: "Começa a haver uma marca Portugal. Antigamente distinguíamo-nos pela mão de obra barata, hoje apresentamos qualidade. Temos fábricas altamente sofisticadas e os clientes confiam em nós."

A Centenário, como tantas outras empresas do setor, está nas mãos da mesma família há duas gerações. Fundada por Camilo Martins Ferreira em Cucujães, no Concelho de Oliveira de Azeméis, a fábrica é hoje gerida pelo filho - que tem tantos anos de vida, 72, como os que a empresa leva de laboração - e Domingos Ferreira, de 63 anos, genro do fundador. As exportações representam 99% da atividade. "A indústria do calçado deu a volta, soubemos aproveitar para nos modernizarmos, investir em novas máquinas e equipamento sofisticado e dar formação aos nossos colaboradores", explica Domingos, que lidera uma empresa com 73 trabalhadores.

O sucesso internacional deve-se à aposta "em nichos de mercado como os sapatos de golfe" e no uso do sistema Goodyear nas solas dos sapatos. Dirigem-se a consumidores com elevado poder de compra - cada par de sapatos custa entre 250 e 450 euros - e a faturação anual ronda os oito milhões de euros.

Aposta nas crianças

Em Santa Maria da Feira, outra empresa de calçado usa o design e a qualidade para fintar a crise. "A Bo Bell começou em 2001. Fazemos calçado desde o número 16 ao 36 e distinguimo-nos pela variedade de feitios e de cores. São 90 modelos diferentes", explica Fernando Silva, de 36 anos, gerente da empresa. A empresa tem origem numa fábrica que laborava para a marca francesa Mini Belle. Os gauleses resolveram acabar com a produção em Portugal e a empresa familiar escolheu continuar com uma nova marca. Bo Bell resulta da junção das palavras Beau e Belle

A marca tem pouca expressão em Portugal. "A reduzida dimensão do mercado é uma condicionante, porque as lojas não têm capacidade para ter grandes stocks. Estamos a projetar uma rede de distribuição própria que nos permita chegar às lojas nacionais".

A Bo Bell trabalha para sete mercados internacionais: Holanda, Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos e Israel". A exigência é elevada: "O mercado mais ambicionado é a Holanda, onde temos 150 postos de venda. É um mercado que está para o calçado de criança como a Itália está para os sapatos de homem e de senhora. As exigências são tais que às vezes temos de desfazer o sapato todo antes do o enviar, para que possa ser personalizado", refere Fernando Silva. O empresário lamenta que haja "poucos designers em Portugal a dedicarem-se ao calçado infantil". O design dos sapatos da marca é feito por holandeses, pois rareiam os profissionais em Portugal que se dediquem a este segmento. A Bo Bell, que conta com 63 colaboradores, tem tido um crescimento sustentado. "A crise levou-nos a ser mais criteriosos na escolha dos parceiros. Mantemos uma faturação de 2,6 milhões de euros anuais, mas temos aumentado a rentabilidade. Apresentamos um preço competitivo sem comprometer a qualidade."

DESIGN ARROJADO 

A fábrica de Calçado Sozé, em Rande (Felgueiras) é o berço de uma das marcas mais bem-sucedidas no calçado de senhora. A marca DKode prima pelo design arrojado, que já valeu distinções em feiras tão importantes como a MICAM, em Milão, uma das maiores do setor do Mundo. Belkiss Oliveira, diretora de marketing da empresa, não é uma pessoa fácil de apanhar ao telefone, sobretudo nesta altura do ano. Em setembro, decorreram em Dusseldorf e em Milão as maiores feiras de calçado da Europa, e a DKode foi uma das presenças portuguesas. Belkiss Oliveira explica o que leva os representantes das marcas fazerem milhares de quilómetros anualmente: "As feiras são importantes sobretudo no lançamento da marca em mercados novos. Na Europa, a nossa participação consolida a presença nos mercados."

A DKode nasceu em 2002, continuando um percurso que começou muito antes: "Em 1976 a empresa fazia Exportação apenas, com a produção de calçado para uma marca em regime de Private Label. Houve então uma mudança estratégica que a leva à internacionalização com o lançamento de marca própria - a Dkode - no sentido de reduzir o risco do negócio e trazer mais valor acrescentado".

A empresa Sozé tem hoje 160 trabalhadores e uma faturação anual de 12 milhões de euros. Quase toda a produção (99%) é canalizada para os mercados externos. A DKode está presente em 800 postos de venda em todo o Mundo e a próxima aposta é juntar ao segmento do calçado o vestuário feminino e a marroquinaria para um "look total". Outra aposta é a criação de uma loja online que permita aos clientes encomendar diretamente as criações da marca.

CALÇANDO FAMOSOS

Nicolas Sarkozy, Luís Figo, Cristiano Ronaldo ou Michael Bublé. É pelos pés que se encontra a ligação de personalidades tão diversas. Todos usam sapatos da Profession Bottier, uma das marcas produzidas pela Ferreira Avelar & Irmão, Lda., fundada em Santa Maria da Feira. Rúben Avelar, gerente da empresa, prefere não destacar nomes de clientes: "Todos os clientes Profession Bottier são famosos, pois têm nos pés uma peça exclusiva e feita artesanalmente com todo o carinho e paixão desta família que desde 1947 luta arduamente para melhorar a sua qualidade e serviço. Essa é a principal estratégia".

A marca surgiu nos anos 90 e Rúben Avelar explica as circunstâncias: "Apareceu numa altura em que o mercado nacional começou a dar os primeiros sinais de enfraquecimento e a empresa achou necessário criar uma identidade própria como forma de chegar mais rapidamente aos mercados externos. O nome em francês porque foi o mercado alvo designado pelos criadores da marca e pela gerência da empresa".

Com uma faturação anual de 5 milhões de euros o Grupo Ferreira Avelar conta com 110 trabalhadores e exporta 99% da produção. O calçado, dirige-se a clientes de gama média-alta e a marca está presente em diferentes latitudes: "Exportamos para cerca de 40 países, sendo os principais: França, Holanda, Alemanha, Canadá, EUA, Austrália, Japão e China".

Crise é uma palavra que todos têm em mente, mas a marca soube preparar-se para os dias mais complicados: "sentimos como qualquer outro um decréscimo de consumo por parte dos mercados, mas estamos a crescer nesta fase. É fruto da antecipação que conseguimos fazer desta situação, o que nos permite agora estarmos a conseguir ganhar quota de mercado em países que outros ainda estão a tentar abordar".

DAR A VOLTA POR CIMA 

A APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos) tem divulgado nos últimos meses dados muito postivos sobre a indústria do calçado. Paulo Gonçalves, porta-voz da associação, explica que o crescimento das exportações é o resultado de anos de investimentos de empresários e parceiros: "Nos anos de 1990, houve uma grande aposta na requalificação técnica, depois, a partir de 2000, começou-se a trabalhar a promoção comercial dos nossos produtos no estrangeiro. Aliamos um excelente design à qualidade e a uma capacidade de resposta imediata".

O preço é um fator competitivo, mas deixou há muito de ser a principal característica do calçado português: "Nunca poderemos competir com países como a China, por isso apostamos na qualidade". No que toca aos pés, Made in Portugal é hoje garantia de qualidade.

DESIGNER PREMIADA APOSTA NA INTERNACIONALIZAÇÃO 

Guava é uma fruta tropical que a designer Inês Caleiro, de 29 anos, adotou para as suas criações. "O nome surge precisamente pela sua elegância e pelo facto de esta ser uma palavra simples de fácil internacionalização". Desde 2011 que, a partir de um ateliê em Lisboa, as criações seguem para fábricas do Norte do País e depois para as lojas nacionais e internacionais. As exportações representam já 65% da produção e distinções como o Prémio Inovação na feira GDS, em Dusseldorf, e duas nomeações para os Fashion Awards fazem prever voos mais altos: "É um reconhecimento do nosso trabalho, o que é muito gratificante e nos dá a possibilidade de chegarmos a mais pessoas".

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