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Sapatos, não, senhor Nacib...

Em 1977, Portugal parou para ver a primeira telenovela brasileira. Hábitos, vocabulário e modas alteraram-se.
9 de Setembro de 2012 às 15:00
Sónia Braga tinha 25 anos quando fez ‘gabriela’ e apaixonou o país
Sónia Braga tinha 25 anos quando fez ‘gabriela’ e apaixonou o país FOTO: Direitos Reservados

Depois dela, Portugal mudou. Em Maio de 1977, o País começava a traçar um rumo após os anos de deriva que se seguiram à revolução. Apesar das altas taxas de desemprego e inflação, a sociedade adoptava costumes de outros paralelos e os produtos de grande consumo entravam nos supermercados. Mais para o fim do ano chegava, pela primeira vez, o FMI. Mas, nessa altura, já Portugal andava inebriado com ‘a cor do cravo e o cheiro da canela'.

Ainda em emissões a preto-e-branco, a RTP anunciava a estreia de ‘Gabriela', a primeira telenovela brasileira, cuja protagonista, ‘morena, cheia de denguice', viria a apaixonar o País. Mesmo no Hemiciclo, habituado a discutir política até de madrugada, o romance interpretado por Sónia Braga e Armando Bógus potenciava uma nova distracção.

"O País parava, literalmente, para ver a telenovela, que bateu forte na sociedade portuguesa", recorda José Ribeiro e Castro, à época já deputado pelo CDS.

"Foi refrescante, lembro-me. As pessoas comentavam na rua, nos cafés. Era o tema do momento", adianta Medeiros Ferreira, então ministro dos Negócios Estrangeiros.

A cidade dos coronéis

Baseada na obra homónima de Jorge Amado, ‘Gabriela' recua aos anos 1920 para retratar a sociedade de Ilhéus, Brasil, onde a chegada do progresso esbarra no conservadorismo exacerbado. A história gira em torno da paixão entre Gabriela, cozinheira sensual e selvagem, e Nacib, o sírio atrapalhado que a recebe no seu bar. Pelo meio há quem questione o domínio dos coronéis, habituados à lei do chicote e da bala, meninas de família que fogem a casamentos por encomenda, jovens que desafiam o poder instituído e as raparigas do ‘Bataclã', que pela calada da noite fazem as delícias dos maridos das outras.

O efeito que causou em 1977 será irrepetível. Para uma audiência habituada a ver no pequeno ecrã minisséries europeias e ‘alto-teatro', a oportunidade de seguir diariamente uma história rodada num país tropical, que falava a mesma língua com sotaque mais quente, era um acepipe irresistível; a cereja no topo do bolo para uma sociedade que recebia outros portugueses, ex-exilados da Europa e refugiados de África, e ávida de mudança.


"Era a primeira telenovela que a RTP transmitia e não tínhamos dúvidas de que seria um grande sucesso", lembra Luís Andrade, então director de Programas da estação pública. "O País estava preparado, a grande convulsão terminara, entrávamos numa certa ordem e a televisão também estava a mudar, com programas adequados ao País", frisa.

E se "antes, os homens não usavam casacos claros no Verão, as mulheres não vestiam transparências, nada se via, depois tudo se alterou". ‘Gabriela' passava depois do jantar, após o ‘Telejornal', e era o prato forte da noite. "Reunia a população de todos os estratos sociais, que discutia nos transportes públicos os nomes das personagens como se estivessem a falar da sua família. Até os parlamentares paravam para ver a telenovela", adianta.

"Faz parte da lenda, suponho que verdadeira, que quando foi exibido o último episódio o Conselho de Ministros acabou mais cedo para que pudessem assistir ao final de ‘Gabriela'", confirma Ribeiro e Castro. E lembra que nesses anos, ainda sem gravadores de imagem, nem DVD, a RTP era a única estação televisiva em Portugal. "Todos viam a televisão. O canal 1 era uma espécie de Rossio, onde toda a gente ia, e discutia-se o debate, o filme, o teatro que tinha dado na televisão. Era normal que com a telenovela também assim fosse."

A novidade do ‘desquite'

Para quem seguiu de perto a telenovela, o mais inesperado foi a união que o produto conquistou. "Na época não era fácil reunir consensos, mas ‘Gabriela' serenou a sociedade portuguesa. Era mesmo transversal e pacificou o País", diz Medeiros Ferreira.

"Todos nós víamos", pessoas de esquerda, de direita, intelectuais e operários, anui a escritora Alice Vieira, que, de início, desconfiou do sucesso. "Pensámos que não ia pegar, que ninguém iria entender aquele falar apressado dos brasileiros". Contudo, "não só entendemos como absorvemos muitas das expressões usadas pelas personagens mais carismáticas". A saudação com ‘oi', a despedida com ‘inté' e a ‘surra' foram palavras que entraram no nosso léxico. E nos meios rurais, lembra Medeiros Ferreira, "os portugueses passaram a desquitar-se antes de conhecerem a palavra divórcio".

Em 1977, Portugal era ainda um país de assimetrias. "Uma das grandes divisões era entre o campo e a cidade. O rural era desqualificado, com pobreza, iliteracia. No urbano já havia elites, mas ainda assim era provinciano", explica o psicólogo José Carlos Garrucho.


A telenovela, garante o também terapeuta familiar, natural de Mira, "deu um ar de modernidade, muito importante", que se juntou às várias influências que o País absorvia. Até porque a história questionava os poderes e costumes de que todos queriam libertar-se.

"Os que emigraram nos anos 1960 voltavam de férias e as filhas vinham com o cabelo solto, já não usavam a velha trança, escondida por baixo de um lenço." E ‘Gabriela' faz exactamente aquilo que não era permitido à mulher da aldeia, "solta o cabelo. E ao soltar, o que por si mesmo é a primeira manifestação de atracção, ela liberta a sua sexualidade. Isso é um sinal claro para as mulheres, é um acrescento poderoso ao que já estava em transformação na sociedade".

Foi exactamente o cabelo comprido, castanho, a bater na cintura, usado por São José Lapa, e o bigode de Alberto, seu companheiro em 1977 e pai da sua filha Inês, que deram ao casal a alcunha de ‘Gabriela e Nacib', pela qual eram conhecidos em Viseu, onde se instalaram com oito companheiros para um "projecto de ‘descentralização teatral', uma coisa muito da época".

Naquela cidade de província não se viam mulheres nos cafés. "Era um meio fechado, as de meia idade andavam de preto e as mais novas, com mais poder económico, usavam kilt pelo joelho. Nós, do grupo teatral, nem éramos muito loucos na maneira de trajar, pois éramos meio maoistas, seguíamos certa disciplina, mas o cabelo e o bigode foram suficientes para nos rotular."

O poder da imagem

Em Julho de 1977, ‘O FMI considera muito grave a situação cambial portuguesa', titulavam os jornais nacionais. A Coca-Cola chegara ao mercado em Abril. E Américo Guerreiro, publicitário na Abrínicio, tinha a seu cargo lançar a marca rival, Pepsi, quando descobriu um novo meio de comunicação.

"Com a estreia de ‘Gabriela' os cinemas perderam audiência e colocavam no foyer uns televisores para as pessoas não perderem os episódios", conta. O próprio mercado publicitário começou a olhar para esse fenómeno e "no audiovisual percebeu-se que havia linguagens distintas, que filmar para televisão e cinema era diferente. Nessa área, os brasileiros", e em particular esta produção da TV Globo realizada por Walter Avancini, "mostravam ter muito conhecimento, sabiam como filmar para TV, com grandes planos, planos fechados".


Durante a exibição da telenovela, o primeiro bloco publicitário era muito eficaz, "toda a gente via", diz Américo Guerreiro. E apesar de exibida a preto-e-branco, ‘Gabriela' vendia bem no pequeno ecrã. "Isso até dava grandes nuances, principalmente quando Sónia Braga andava nas dunas", frisa Luís Andrade.

Certo é que "antes da ‘Gabriela', o mundo da imagem era mais inocente", frisa Tó Romano, director da agência de casting Central Models. Como todos os portugueses, seguiu o fenómeno de perto: "Tinha 16 anos e um dos fascínios daquela telenovela foi introduzir-nos ao poder da imagem no audiovisual e no mundo actual."

Em termos culturais, ‘Gabriela' "reaproximou-nos de um universo que se chama Brasil e que nos maravilhou e maravilha a todos", adianta. E se o estilo ‘étnico' de Sónia Braga ficou para sempre na moda, em 1977 os cortes de cabelo ‘à Malvina' multiplicavam-se pelas ruas de Lisboa.

Cabelo ‘à Malvina'

Em Novembro desse ano, Maria João Avillez entrevistou na RTP Elizabeth Savalla, a actriz que dava vida à menina de família que numa cena é ‘surrada' com chicote pelo próprio pai.

"Foi um fenómeno, ela era muito simples e, além da entrevista, andei com ela por Lisboa, fomos a várias lojas. Toda a gente lhe sorria, todos a reconheciam como se fosse de repente um toque de magia ver a Malvina ali no meio da rua". A jornalista lembra, "não só o impacto da actriz, muito doce, simpática e talentosa, como o impacto da telenovela, muito também pela sua qualidade. Os brasileiros estiveram à altura da exigência de filmar e adaptar Jorge Amado, e isso é que é notável".

Para Odete Santos, que à época já militava pelo comunismo, Malvina, "a rapariga emancipada", que fugia ao casamento por conveniência, era também a personagem mais fascinante. "Rompia com costumes, tradições, e isso era o que mais me interessava. Acho notável aquele poema do livro de Jorge Amado, que na novela não se vê, em que ela diz ‘socorro, vão-me matar, na cama me engravidar...' é exemplar".


A ex-deputada, apaixonada por teatro, reconhece que ‘Gabriela' reunia um pano de fundo muito interessante. "Desde logo, a questão política, com uma oposição que se revelaria quase igual ao governo que derrubou, com as cenas finais que apresentam o Mundinho Falcão na mó de cima, a actuar tal como aqueles que destronara. Havia a Jerusa, menina bem comportada", que inspirou o nome de muitas portuguesas nascidas nesse ano, "um médico que bebia muito, mas era a personagem mais lúcida, o Moacir, que foge às regras e depois, claro, a Gabriela, uma mulher completamente livre. Penso que a maior parte do País estava preso ao ecrã por causa da Sónia Braga, uma actriz muito sensual". E conclui: "Não era lá pelas outras questões que a novela excitava, era por causa da sensualidade."

José Carlos Garrucho reconhece que a actriz era "o doce amargo, a cachaça que embriagava. Era de uma beldade e de uma feminilidade que rebentava com tudo. Muitas das nossas mulheres mais libertárias, feministas, queimavam os sutiãs e rompiam com os símbolos da sua feminilidade". Gabriela ia mais longe. "Aquele momento cândido em que ela diz ‘sapato, não, seu Nacib', é uma recusa em entrar na sociedade e a assunção do seu todo feminino."

E enquanto os homens se inspiravam naquela figura "excelsa e erotizada, para as mulheres funcionava como um modelo. Isso", garante o psicólogo, "fez muito bem a ambos os sexos, mexeu com as condições".

Um novo amor

Conta quem viveu na época que ‘Gabriela' ensinou a Portugal uma nova forma de amar.

"Recuperámos o nosso lusotropicalismo, algo que já era muito visível na música, com Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano, Fafá de Belém", diz Ribeiro e Castro.

Em Manteigas, Serra da Estrela, era no café do Tó que todos se juntavam para ver a telenovela. "A casa ficava cheia, principalmente de homens", lembra Helena Lucas, 59, ainda hoje funcionária da casa. Com o evoluir da trama e o adensar das cenas de paixão, "muitas famílias sentiram-se na obrigação de comprar televisores. Tinha dez anos, e lembro-me que ‘Gabriela' ajudou as mulheres a descobrir o seu lugar na sociedade", diz Paulo Costa, presidente da Junta de Freguesia de Manteigas.

Maria Fernanda, 80 anos, passa hoje os dias na Casa do Povo de Gandim e recorda com saudade os tempos em que seguia ‘Gabriela'. Casada com um feitor, mãe de três filhos, acompanhava o fenómeno da telenovela pelo que dela se ouvia na rádio. "Só assistia na televisão muito raramente, em casa de uma vizinha. Achava os dois muito bonitos, tanto ele como ela, e depois as moças daqui começaram também a mostrar mais beleza", revela.


Esta "coincidência feliz" entre o que acontecia no País e aquilo que a telenovela mostrava "teve um efeito poderoso, até de guião para o filme que se queria tornar realidade. Teve um enorme impacto, quer na elite, quer no povo", diz José Carlos Garrucho.

"Nesse ano pedimos apoio ao FMI, havia uma maratona por causa dos orçamentos, e os governantes sabiam que tinham de se virar para a Europa, uma vez que havíamos perdido o império em África e no Oriente. ‘Gabriela' foi um momento de charneira. Mudou tudo, mentalidades e costumes. Todos nós temos saudades..."

JULIANA PAES VESTE A PELE DA GABRIELA DO SÉCULO XXI

Estreia nesta semana na SIC a nova versão de 'Gabriela', produzida pela TV Globo no âmbito das comemorações do centenário de Jorge Amado, autor do romance original. Desta vez, é Juliana Paes quem dá vida à personagem de ‘Gabriela, Cravo e Canela', uma mulher que encontra consolo nos braços de Nacib, sírio desajeitado instalado em Ilhéus nos anos 1920. A produtora garante que esta versão é mais sensual do que a original que, no ano de estreia no Brasil, 1975, foi vista por 30 milhões de telespectadores.

A MULHER PERFEITA PARA SER 'DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS'

O sucesso de ‘Gabriela' (1975) ditou que, em 1976, Sónia Braga fosse convidada a protagonizar outro texto de Jorge Amado. No filme ‘Dona Flor e seus dois Maridos', realização de Bruno Barreto, a actriz encarna uma viúva dividida entre dois amores. A história decorre nos anos 1940 na boémia cidade de Salvador e centra-se na figura de Dona Flor (Sónia Braga), viúva e professora de culinária que, apesar de explorada pelo falecido marido (José Wilker), não esquece o seu ardor. Dona Flor acaba por casar segunda vez, mas a idade e o conservadorismo do novo marido (Mauro Mendonça) fazem com que se lembre cada vez mais do anterior amor, cujo espírito lhe começa a aparecer. Em 1985, a actriz interpretou ‘O Beijo da Mulher Aranha', de H. Babenco, com Raúl Juliá e William Hurt, e desde então divide-se entre o Brasil e os EUA.

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