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Correio da Manhã

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Saudade burlada

Queriam tanto voltar à África da sua juventude que foram na cantiga do bandido. Era fácil, afinal quem lhes oferecia o serviço também era ex-combatente. Foram enganados. A saudade tolda o discernimento.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
Os equipamentos de futebol estão dobradinhos dentro de uma mala, uma entre as várias que Manuel Branco arrastou desde Wasaga Beach, na província de Ontário, no Canadá, onde vive há quase 40 anos. O emigrante português e a sua mulher, Deborah Michelle Grant, e toda a bagagem que trouxeram, estão ali desenquadrados na provínciana pequenez doméstica da casinha que foi do pai do português, o cantoneiro de Salir de Matos, freguesia das Caldas da Rainha.
No último dia 16, no Aeroporto de Lisboa, deveriam ter seguido viagem para Moçambique. Levavam medicamentos para a população, chocolates e os tais equipamentos para os meninos moçambicanos jogarem à bola.
O Branco ia voltar à terra onde combateu, mesmo que filhos e sobrinhos, os mais novos da família que de Portugal nada sabem, não compreendessem porque alguém quer voltar à guerra. Por isso, o ex-condutor da Força Aérea escreveu em letra de forma um discurso para lhes explicar. Não lhes deve ter servido de muito.
Há 15 dias, no Aeroporto de Lisboa, o avião descolou para Maputo, mas o casal e a tralha toda ficaram em terra. Voltaram para Salir de Matos. Branco tinha pago através de depósito bancário 3500 euros, era muito pouco para o propósito grande de aliviar a memória na imensidão africana. Mesmo assim, desorientado, fez queixa na GNR das Caldas.
No início de 2006, lá em Wasaga Beach, Debbie Grant tinha feito pesquisa no Google, sobre José António Arruda. Ainda só apareciam boas referências sobre o ex-combatente – era veterano na tarefa de servir de ponte para as saudades de Moçambique e fazia-o há vários anos. Organizava grupos, tratava dos vistos, desenhava itinerários, fazia marcações de hotéis e viagens aéreas.
O negócio sentimental era até publicitado em letrinha miudinha no rodapé das mensagens das transmissões na RTP Internacional. Foi lá que Branco e a mulher leram pela primeira vez o nome do empreendedor José António Arruda, combatente em Muéda, entre 1968 e 1970.
Hoje, Arruda desactivou a sua página na net, desligou o telemóvel, fechou o escritório e a casa na Damaia, concelho da Amadora. No motor de busca cibernético, Google, lê-se: “Ó filho de uma granda p... paga aquilo que deves.” E outros impropérios, indícios de histórias semelhantes à do emigrante português. Regressos ao passado frustrados a partir do mês de Novembro, quando José António Arruda desapareceu do mapa português.
IMPOSSIBILIDADE NA OBTENÇÃO DOS VISTOS
“Com os meus melhores cumprimentos, venho pela presente informar v.ª ex.ª que em virtude da impossibilidade na obtenção dos vistos para a viagem de grupo no âmbito dos antigos combatentes para as datas inicialmente marcadas, a referida viagem só se poderá efectuar no próximo dia 16 de Janeiro [...] Nesta conformidade e como possivelmente alguns dos participantes poderão ter necessidade [...] junto envio todos os passaportes.”
A carta chegou às mãos de Joaquim Gaspar, dentro de um gordo envelope com franquia do Lavradio, concelho de Almada, a 18 de Novembro de 2006. Dois dias depois da data em que ele e 14 amigos da zona de Leiria deveriam ter viajado para Moçambique.
Gaspar e Serafim Ribeiro já tinham dado voltas à vida atrás do homem que não dava sinais: telefones desligados, e-mails sem retorno, a sua existência na Damaia completamente abandonada, ausência de pedido dos vistos deles na embaixada moçambicana, apesar de todos terem entregue os passaportes, e a informação ‘off record’ de um conhecimento do aeroporto da capital de que, no início daquele mês, Arruda tinha levantado voo.
A 15 de Novembro apresentaram queixa na PJ de Lisboa, percebendo já que no dia seguinte ninguém viajava. Ali disseram-lhes que nada podiam fazer sem “o facto consumado”. Pediram que aguardassem o dia da partida.
Fizeram-no e nada. “Quando recebemos o envelope com todos os passaportes, ficámos até esperançados, achámos que, afinal, pelo menos no dia 16 de Janeiro íamos de viagem”, conta Gaspar. Entrou o Ano Novo, passou meados do primeiro mês de 2007. Nada. Só os cerca de 25 mil euros, já pagos, tinham partido.
José António Arruda pedira aos 15 de Leiria que abrissem uma conta bancária colectiva, no caso na agência local da Caixa Geral de Depósito, com autorização de transferência para a conta do BBVA de Arruda. Quatro meses antes da data escolhida, pelo menos 50 por cento da totalidade da verba deveria estar lá depositada. O organizador alegava que precisava de dinheiro para começar a montar a viagem moçambicana. Uma semana antes da primeira data marcada para a viagem – 16 de Novembro – estava tudo pago e nada na conta da CGD.
No início do ano de 2006, depois de terem andado em bolandas à procura de uma agência de viagem com preços camarada, Joaquim Gaspar e Serafim Ribeiro – os encarregados de espoletar o sonho colectivo – tinham dado com os programas de José António Arruda. Nem era uma agência formal mas o factor ex-combatente e o facto deste organizar idas à saudade há pelo menos três anos servia de garantia.
O orçamento era também melhor do que os que tinham até então recebido. Por isso, expressaram a boa vontade lusitana quando o dono e único trabalhador da Moçambique Viagens (assim era o domínio que ocupava na internet) lhes disse que era preferível não haver papéis nenhuns – recibos de pagamento – por causa das Finanças.
ITENERÁRIO SENTIMENTAL
Maputo, Pemba, MuEda, Mocimboa do Rovuma, Mocimboa da Praia, Ilha de Moçambique, Nacala, Nampula, Maputo e regresso a Lisboa. Este era o itinerário sentimental, com nomes e cenários mudados pelo tempo da independência, dos 15 amigos de Leiria. Joaquim Gaspar, 66 anos, já lá tinha voltado muitas vezes depois dos quatro anos da comissão nas forças policiais, iniciada em 1966, quando a mulher enfermeira teve lá a primeira filha de ambos.
A partir de 1997, regressou sempre, integrado em missões humanitárias da Caritas e dos Missionários da Consolata. Aprendeu a cavar, a assentar chão em Portugal, depois regressava ao país dos primeiros anos da sua vida adulta para passar a sapiência. “Cheguei a estar quase um ano a ensinar os pretos. Conheço Moçambique como Portugal.”
Serafim Ribeiro, capitão, queria ir porque nunca lá tinha estado. Passara ao lado da guerra africana, numa comissão em Timor. Os outros todos iam para voltar atrás no tempo, alguns levavam as mulheres para que vissem aquilo que eles tinham visto em novos. Vã expectativa. “Já não se reconhece nada. A primeira vez que lá fui depois da comissão, em 1997, chorei.
O Liceu Salazar hoje é Liceu Josefina Machel. Aqui está a estátua do Mouzinho debaixo de uma palmeira e nos arredores de Mapula, a estátua do Camões também escapou. Esta é a casa onde eu vivi no tempo colonial, hoje é um orfanato. Mas bem, continua a ser uma terra extraordinária”, diz Joaquim Gaspar enquanto procura desesperadamente uma fotografia da paisagem moçambicana que faça jus ao adjectivo extraordinário. Impossível, essa fotografia não pode ser tirada.
JOSÉ PEREIRA BERNARDINO
José Pereira Bernardino era um entre este grupo de Leiria. Aos 64 anos é motorista de transporte internacional, ultimamente entre Portugal e a Suíça. À ida leva enchidos e papel; à volta, iogurtes, chocolates e queijo. Entre 1962 e 1965 foi da Força Aérea em Moçambique. Durante 40 anos fez a sua vida europeia sem muito pensar em África. Mas quando os outros disseram que iam, arranjou 3200 euros para ele e para a mulher – “muito dinheiro para quem é assalariado, muitos milhares de quilómetros de camião”.
Mesmo que soubesse que pouca coisa está igual, contava com a capacidade da memória e das palavras para mostrar àquela com quem casou o sítio onde fez 20 anos. “Estive três meses em Mutama, uma pequena aldeia onde estávamos a abrir um posto de rádio, foi lá que festejei o aniversário dos meus vinte. Foi numa jantarada no senhor Adão, almoçávamos e jantávamos lá todos os dias.” As férias que tirou para a viagem acabam daqui a dias sem ter saído de Leiria. Espera que “agarrem o Arruda”, mas o dinheiro não conta voltar a vê-lo. Tanto faz: “Agora é que volto lá mesmo, nem que seja a pé!”
ANTÓNIO CARNEIRO
António Carneiro está a morar em Vila Nova de Gaia desde que em Abril regressou de vez da Suíça. Esteve lá décadas como trolha a construir túneis; agora, aos 61 anos, na terra em que nasceu, trabalha no comércio de ferragens. No último dia 16 esteve no aeroporto, encontrou-se com Manuel Branco e Debbie Grant, os donos de uma imobiliária no Canadá. O conhecimento e a troca de contactos cimentou-se numa decepção comum.
O processo do engano foi semelhante. António Carneiro viu o anúncio no rodapé televisivo e telefonou ao anunciante para uma viagem a 5 de Outubro – perguntava, aflito, se ainda havia lugares. Para garantir pagou 1810 euros sem pestanejar e entregou o passaporte e duas fotografias.
Os dias passaram e nada. Quando Arruda atendeu finalmente a sua chamada, ouviu que havia dificuldades na obtenção de vistos. António Carneiro confirmou a informação na embaixada de Moçambique. A viagem ficou adiada para mais tarde, mas uma notícia fez o ex-emigrante ficar apoquentado: “Li no ‘Correio de Arganil’ a história de uma pessoa que tinha viajado em Março de 2006 e que dizia que as coisas não tinham corrido muito bem. Nos hotéis, o Arruda tinha sido ameaçado por não pagar as contas.”
Carneiro tenta levar a bem Arruda – liga-lhe e diz-lhe que uma vez que a viagem só se realiza mais tarde, deseja a devolução do passaporte e do cheque do pagamento, apenas como garantia entre cavalheiros. António José Arruda devolve-lhe o passaporte e as duas fotografias e nunca mais atende o telefone. Apesar de tudo, António Carneiro apresenta-se no aeroporto, para descargo de consciência, para ver se aquele a quem nunca viu a cara dava por lá de sua graça. Em vão. Conheceu apenas Branco, o camarada de fortuna com quem nunca se tinha cruzado em Moçambique. Com ele viu o voo para Maputo sair de Lisboa. Na desgraça, António já travou conhecimento telefónico com gente burlada de norte a sul do País. Apresentou queixa na PSP de Vila Nova de Gaia e tratou temporariamente de acalmar o chamamento africano que diz sentir nos últimos quinze anos de vida. Era 1.º cabo entre 1968 e Abril de 1970, esteve 17 meses em zona de guerra. Há coisas que um homem não explica.
PENSOU QUE ELE ERA INVISUAL
A primeira vez que Amina Sousa viu António Arruda pensou que ele era invisual. No início de 2006, apresentou--se de óculos escuros no Hotel Meliá de Aveiro perante uma assistência de dezenas de ex-alunos e professores da Escola Industrial e Comercial Freire Andrade, em Moçambique. Nunca os tirou enquanto fazia a apresentação do seu programa de viagem à assistência eventualmente interessada.
Desde há três décadas que todos os anos se realiza um encontro-convívio daqueles moçambicanos. No último, o casal Sousa, Luís e Amina, ambos ex--alunos daquele liceu, comprometeu-se a cumprir o desejado regresso à terra. Amina teve conhecimento da Moçambique Viagens e pediu uma apresentação formal ao dono. Os interessados deveriam depois inscrever-se junto dela e depositar o valor da viagem numa conta bancária que abriu também em seu nome e sem acesso a terceiros. A viagem a Moçambique ficou agendada para Março deste ano.
Cedo, António Arruda começou a pedir dinheiro. Em Novembro, quando muitos já se desiludiam por não conseguir entrar em contacto com Arruda, Amina ouvia-o pelo telefone a pedir seis mil euros, sob o pretexto de negociar promoções. “Disse-lhe que o que tinha sido acordado era metade do dinheiro 90 dias antes da viagem.” Amina nunca cedeu. “Três dias depois voltou a ligar-me, dizendo que, afinal, estava era a abrir uma agência de viagens.
Disse-lhe que não tinha nada a ver com isso.” Arruda queria então seis mil euros em dinheiro, enviados pelos serviços de transporte da Western Union. Para o efeito, deu-lhe uma morada em Moçambique. No início de Janeiro, Amina chegou a receber, num dia, 16 chamadas do ex-combatente.
A 29 de Outubro de 2006, num blogue de ex-combatentes da Guiné, António Arruda dirigia-se aos “prezados colegas e ex-combatentes”. “Junto em anexo programa para uma viagem à Guiné. Vamos realizar o sonho da nossa vida, voltarmos aos locais onde nos anos 60/70 andámos”, escrevia. Oito dias por 1450 euros para voltar ao passado de um dos mais dolorosos palcos da guerra colonial.
Noutro blogue, a 18 de Maio de 2006, Arruda dissertava: “Prezados colegas ex-combatentes, fazendo votos para que o vosso convívio decorra com o maior êxito e alegria entre todos [....] organizo viagens a Angola.” O negócio da saudade saia do país do rio Zambeze e diversificava-se. Na globosfera como em jornais e outros meios de comunicação, António Arruda sempre apelou ao coração fraco da saudade.
Em Portalegre, um ex-combatente marcou a sua Angola para o início deste Fevereiro. Pagou 2300 euros por 15 dias e depressa percebeu tê-los pago em vão. Quando Arruda não lhe atendeu as chamadas, foi à Damaia. “Nos correios do prédio dele estava um papel afixado – ‘sr. carteiro, por favor não meta as cartas nesta caixa que o morador já cá não está’.” O alentejano acha que foi “dos últimos a ser aldrabado” e a revolta dá-lhe para a vergonha. Não quer que se escreva o seu nome.
MANUEL BRANCO
Era conhecido pelo Branco, o Brincalhão, e ainda hoje não esconde a veia humorística nunca danificada pelos três anos de guerra. Não esquece, porém, o dia em que o mandaram para Nova Freixo e a um camarada de armas para Marupa.
As guias de marcha acabaram por ser trocadas e Branco rumou a Marupa; o outro morreu à chegada a Nova Freixo. A notícia correu – o condutor de Nova Freixo morreu. “Houve um rapaz que durante 30 anos achou que tinha sido eu.” Manuel Branco esteve mais de 20 anos sem falar da guerra.
COMBATENTE ANTÓNIO ARRUDA
JOSÉ ANTÓNIO ARRUDA. PROFISSÃO: ORGANIZADOR DE VIAGENS ÀS EX-COLÓNIAS
“Família simples, descendentes açorianos, mas com grande implantação no Ribatejo, nomeadamente em Santarém, que fundou o jornal da Extremadura, actual ‘Correio do Ribatejo’ e que teve uma longa passagem por terras moçambicanas, quanto ao resto é como qualquer outra família que vive do seu trabalho.” A descrição vem no site A Família RTP, um ponto de encontro da televisão pública para as comunidades portuguesas no Mundo. Mas os Arruda a que se refere José António terminaram na segunda geração.
O fundador do jornal regional, João António Arruda, teve um único filho Virgílio Arruda, que não teve descendência. “Só se for um primo muito afastado”, informam cépticos do ‘Correio do Ribatejo’. Naquela página da net, José António Arruda apresenta-se como amante da pesca, de futebol e do computador e organizador de viagens a Moçambique para ex-combatentes da Guerra do Ultramar “que comigo lá estiveram”.
De facto, entre 1968 e 1970, foi condutor na Companhia 2369 do Batalhão de Artilharia 2846 das NT (Nossas Tropas). E em declarações, a 3 de Setembro último, a um jornal sobre os traumas da guerra, Arruda dizia: “Antes de ir a Moçambique pela primeira vez, acontecia-me acordar debaixo da cama, desatar a chorar ou entrar em pânico (...) Sabia de onde isto vinha, quis lá ir e fui, em 2003. (...) Entretanto, comecei a organizar estas coisas e, ao todo, já lá fui 22 vezes. De cada vez que vou, o grupo que vai comigo é maior.” A Domingo tentou contactar pelos diversos telefones e e-mails o ex-combatente, sem sucesso.
CASAL SOUSA
Luís e Amina nasceram em Moçambique, todas as recordações dos melhores anos da sua vida estão ali. Os primeiros namoros, os estudos, a tropa, o primeiro emprego e, finalmente, o casamento de ambos em 1975. Viriam para Portugal pouco depois.
JOAQUIM GASPAR
Pertenceu à polícia durante os anos 60, em Moçambique, mas são as viagens de ajuda humanitária àquele país, depois de 1997, que melhor recorda. Vai para ensinar os locais.
ANTÓNIO CARNEIRO
Esteve entre 1968 e Abril de 1970 em Moçambique. Era primeiro cabo e aguentou 17 meses num dos palcos piores da guerra, Mueda.
COMO FUNCIONAVA
AS VIAGENS DE ARRUDA
- CONTACTO: Anúncios em jornais e restante imprensa escrita. Rodapé em programas da RTP. Divulgação em página própria na internet e em blogues.
- CLIENTES: Maioritariamente ex-combatentes.
- FORMA DE PAGAMENTO: Quase sempre por transferência bancária de uma conta para outra, 50 por cento 90 dias antes.
- VALOR: Para Moçambique 1800 euros por viagem standard; Angola por 2300 euros, 15 dias; Guiné por 1450 euros oito dias.
- DESTINOS: Em Moçambique (viagem standard) Maputo, Beira, Pemba, Matola, Boane, Namaacha, Cascatas e Pequenos Libombos, Costa do Sol. Em Angola, Luanda, Luena, Sumbe, Barra do Kuamza, Porto Aboim, Lobito, Bengela, Huambo, Caxito. Em Guiné, cidade de Bissau.
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