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Se houver uma segunda volta Cavaco perde

O antigo Presidente da República acredita que pode ir à segunda volta e derrotar o candidato apoiado pela direita.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Se houver uma segunda volta Cavaco perde
Se houver uma segunda volta Cavaco perde FOTO: Marta Vitorino
- Considera que a sua conduta política se coaduna com o ‘outdoor’ de campanha, ‘Sempre presente nos momentos difíceis’?
- Sim. Na verdade, eu estive sempre presente. Só não estive quando fui expulso do território nacional por lutar contra a ditadura. Estive preso por doze vezes. Quando regressei a Portugal participei na descolonização, na questão dos retornados, na normalização democrática. Quando optámos pela Comunidade Económica Europeia, inseri Portugal na CEE. Durante duas crises económicas, na bancarrota em 1977, em todas as situações de crise, eu estive sempre presente. E aqui estou eu de novo presente, neste momento difícil.
- É essa a razão da sua candidatura?
- É a razão principal. Mais uma vez, não abandono o País. Larguei a escrita, as conferências, as crónicas, o meu programa de televisão, a minha Fundação. Sou uma pessoa que quando se mete numa coisa é para ir até ao fim! E, se possível, ganhar.
- Acredita mesmo que vai ganhar?
- Eu estou convencido que sim, à segunda volta. Estou convicto que os portugueses não vão cometer o erro de dar vitória a uma pessoa que não conhecem, a alguém que não fala e que segue um guião. Todos dizem: se houver uma segunda volta o prof. Cavaco vai perder. Eu pergunto: se ele não ganha à segunda volta porque razão querem elegê-lo à primeira?
- E se perder?
- Vou trabalhar, escrever, viajar. Vou fazer o que me apetece. Tenho muitos projectos. E muitos convites. Não me falta trabalho nem motivação.
- A candidatura de Manuel Alegre é a principal responsável pela fuga dos votos clássicos do PS?
- Para já, os votos só se contam no dia 22 de Janeiro.
- Poderá ele vencer o prof. Cavaco Silva?
- Respeito a sua decisão de se candidatar, embora não me pareça que tenha a mínima condição de o conseguir.
- Em entrevista à revista Domingo, disse que não lhe telefonou por considerar que esse passo teria de ser dado por si.
- Há coisas que ele disse que não são exactas, mas, neste momento, eu não quero comentar.
- Nas ‘Cortes’, na casa do seu pai transformada por si num museu, afirmou que o prof. Cavaco Silva seria um bom candidato à Presidência da República. Ainda o é?
- Bem... eu acho que ele é um bom candidato, tanto é que tem grandes sondagens... Agora se será um bom Presidente, ou não, isso é uma questão que os portugueses irão perceber até ao dia das eleições.
- O que o leva a criticar a Comunicação Social, nomeadamente a SIC, que, em seu entender, dá primazia ao prof. Cavaco. O dr. Francisco Pinto Balsemão já lhe respondeu: “Pura fantasia do candidato.”
- Baseio-me em todas as reportagens que vi, feitas sobre as candidaturas e há uma preferência nítida por um candidato, que é colocado à parte como se fosse o Presidente, que desde o princípio que se chama Cavaco Silva. Os outros candidatos são menosprezados. Normalmente só apanham o que falo sobre o prof. Cavaco Silva, para depois insistirem que eu só me refiro a ele.
- Voltaria a assinar o relatório do Ouro nazi?
- Claro. Aliás o presidente da comunidade judaica de então, Joshua Ruah, também assinou. Esse ouro não chegou a Portugal via pilhagem. O ouro chegou a Portugal legitimamente.
- Após esse relatório houve um outro proposto pelo congresso mundial judaico, composto por cerca de 80 historiadores, cuja maioria não eram judeus, com uma conclusão bem diferente.
- Eu não me deixei intimidar, disse ao governo chefiado pelo eng. António Guterres que entendi que não se devia indemnizar ninguém, e se o governo considerasse que sim, teria de passar por cima do meu relatório. Eles não passaram e não houve problema nenhum. Nem as nossas relações com o mundo judaico pioraram por causa disso.
- Apesar de agnóstico, afirmou ser o “apóstolo do ecumenismo.”
- Porque fui eu que trouxe a Lisboa a Comunidade de Santo Egídio, que, por sua vez, reuniu todos os grandes líderes de todas as religiões. E eu já não tinha nenhuma função política. Sou agnóstico mas respeito todos os que acreditam em Deus. Não creio na imortalidade da alma nem na alma, no sentido de uma entidade separada do corpo. Mas há quem acredite e eu respeito. Eu sou formado em Filosofia, e leio bastante sobre temas de teologia, apesar de não acreditar em Deus.
- Crê em alguma coisa?
- No progresso, na obrigação de dar tudo por tudo para que a comunidade onde nasci viva melhor e seja mais justa. Já não é possível que hoje em dia haja pobreza no Mundo, e há recursos para isso. Mas o egoísmo trava o progresso, e o culto da educação pela violência em vez de ser pela paz.
- Disse que não acredita na alma. Existe a imortalidade das pessoas através da obra feita?
- Há a memória das pessoas. Os grandes criadores científicos, os grandes escritores, ficam “imortais”.
- Mário Soares será imortal?
- Não sei. É uma questão que eu deixo aos historiadores. Eu estou a trabalhar para o presente e para o futuro. Sou uma espécie de aprendiz de historiador para saber que as interpretações várias da História mudam, curiosamente com os tempos e com o presente.
- Muitos lhe apontam que tem 81 anos mas, o seu dinamismo eleitoral é um facto inegável.
- É uma questão genética, o meu pai morreu aos 92 anos e sempre lúcido. Enferrujar é morrer!
- O seu pai, que era padre...
- O meu pai, por várias razões, foi um pouco forçado a ser padre, mas não tinha nada temperamento para tal... era um padre capelão militar que teve um filho, o meu meio-irmão que era médico.
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