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Correio da Manhã

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Segredos de um Papa português

O nome de João XXI pode não dizer nada a muito boa gente. Mas o único Papa português é agora a figura central de um livro editado pela Prime Books.
19 de Novembro de 2006 às 00:00
PRÓLOGO
A 16 de Maio desse ano de 1277, e como era seu costume, João XXI quedara-se no quarto onde instalara os seus instrumentos, a trabalhar nas suas coisas de ciências. Dali, a vista era magnífica, muito repousante e acolhedora, em contraste com a frieza austera do conjunto de pedra que compunha o palácio. Era ali que Pedro Julião se sentia a gosto e onde passava a maior parte do seu tempo, dedicando-se às tais experiências que tanto davam que falar. É que, dentro das ciências, o papa estava cada vez mais absorvido e fascinado pela alquimia, passando dias e noites juntando pós e fazendo misturas e porções.
Naquele dia de Primavera, e no meio destas experiências, algo se preparava para modificar tragicamente a calma agitação do Palácio. De repente, ouviu-se e sentiu-se uma grande e horrível explosão vinda dos aposentos do papa, e que fez grande eco por todo o palácio, por Viterbo e, rapidamente, por toda a cristandade. Vencido o espanto, formara-se espontaneamente um cortejo de bispos, e capelães, e médicos, e cavaleiros, e porteiros, e escribas, e serventes, que rumaram num sobressalto angustiado para acudir aos aposentos de Pedro Julião.
Ao aproximarem-se da habitação, os presentes depararam-se com um tecto desabado e um papa desmaiado e inconsciente, agonizando por entre os escombros. Acidente? Incidente? Todos se interrogavam, lamentavam e temiam o pior. Com grandes cuidados, o papa foi resgatado da massa de pedra e madeira que o cobria e transferido para um local limpo e seguro. Por entre os esforços dos seus médicos pessoais e das preces dos presentes, o papa João XXI, com o seu vigor, resistia heroicamente aos ferimentos, golpes e pancadas que resultaram do desabamento de uma muito grande quantidade de pedra e madeira.
O que se terá passado? Acho que ninguém poderá responder com certezas. Mas eu cá tenho o atrevimento de julgar que posso ter as minhas desconfianças...
LIVRO I, CAPÍTULO 2
Rumo ao Terreiro do Paço, absorvido nos meus pensamentos e numa indiferença pelo bulício da rua, só desperto de novo para o que me rodeia quando ouço urros e gemidos insistentes que de mim se iam aproximando. Passava então pelo Limoeiro, local onde está presa toda a escória desta cidade. Mãos andrajosas, saídas das grades que davam para as ruas, seguravam uma malga de madeira e imploravam por comida e por esmolas. O Limoeiro é a prisão dos criminosos comuns.
A maior parte destes homens leva uma existência condenada aos infernos, acorrentados pelos pés uns aos outros, postos em subterrâneos sem luz, tendo por demais companheiros os carcereiros, a palha, que aliás só é renovada uma vez por ano, e os ratos e ratazanas, os únicos seres que por ali pareciam felizes. Estes condenados vestem uniformes de burel, que não secam no Inverno e obrigam os desgraçados a andar com os pulmões infectados durante todo o tempo frio e que, por outro lado, aquecem e colam-se a tal ponto no Verão que ninguém escapa a coçar-se como cão sarnento durante todo o dia.
Uma série de gentes enxameia o lado de fora da prisão. Galegos transportam água e azeite em barris de madeira, esperando o sinal de uma alma caridosa para encher a malga de um destes presos desesperados. Vendedores de canções, de feitiços e de remédios também se aglomeram e tentam a sua sorte, num local onde tudo se compra e onde a vida dos prisioneiros pode ser menos infernal quando se é bem relacionado e se recebe na cela algum dinheiro que pode trazer algo do mundo exterior.
Continuando a descer, e estando com fome e sede, mando parar um galego que subia com dois barris de água às costas, conduzindo três cabras que domina com um pau comprido e delgado. Bebo a água de um golo e volto a estender o copo para que ele ordenhe e me sirva de leite. Tenho um vómito ao dar o primeiro golo. Aquela mistela que saiu ainda quente da cabra sabe a tudo menos a leite. O que não admira, pois que aquele animal só deve depenicar, tal como as galinhas, o que vai encontrando por entre o sujo das ruas.
Finalmente, sinto uma brisa reconfortante que afasta para longe o ar pesado que me vinha perseguindo desde manhã. O Terreiro do Paço apresenta-se de novo perante os meus olhos. À minha frente, do outro lado, o Paço da Ribeira, se não particularmente bonito, pelo menos imponente e majestoso. Por todo o lado, mercadores atarefados discutem com funcionários da Alfândega e dirigem-se a este edifício, que fica na parte baixa do Paço. Fidalgos e eclesiásticos passam em liteiras, forma preferida de aqui andar, pois permite vencer os obstáculos do labirinto das partes altas. Alguns indigentes e mendigos, que tiveram o azar de serem apanhados a exibir as suas chagas, são conduzidos pela guarda às galés. Aqui chegam também mercadorias de todo o reino, pois Lisboa tem o privilégio único de tudo receber e sem qualquer entrave: figos e amêndoas do Algarve, galinhas de Entre Douro e Minho, sal e peixe de Setúbal, vinho e trigo do Alentejo.
Em frente ao Tejo, enquadra-se a muito celebrada Ribeira das Naus, que existe sempre numa azáfama, sobretudo junto aos armazéns da Guiné e da Índia. Por aí, um verdadeiro exército de escravos, continuamente açoutados pelos guardas, descarrega os navios e transporta as mercadorias para a Alfândega e daí para os armazéns. Num caso ou noutro, e mesmo depois da quarentena a que os barcos de mercadorias são sujeitos antes de entrar na barra de Lisboa, os navios suspeitos de trazer doenças, pestença, mercadoria ou gente de pouco fiar, são primeiro visitados pelos escravos. Só no caso de estes voltarem sãos e salvos é que a embarcação pode começar a desalfandegar a mercadoria (...)
Olho para o céu e culpo-me pela continuada demora em todos os locais por que passo. O dia caminha para o seu meio, hora a que terei de comparecer no palácio do Santo Ofício perante o cardeal infante D. Henrique. Estranhamente, e ao contrário da parte alta da cidade, aqui ninguém me tem molestado com pedinchices ou com qualquer outro assunto. Pergunto a um escrivão que passava apressado qual o melhor caminho a tomar para o Rossio. Como este não me respondeu, acabo orientado por um guarda magro e calvo que acompanha um prisioneiro acorrentado, por certo autorizado, mediante o pagamento de uma soma em dinheiro, a tratar de algum assunto nesta zona.
Serpenteio pelas ruas entre o Terreiro do Paço e o Rossio, guiado até ao meu destino pela vista da enorme torre com tecto triangular do Hospital de Todos-os-Santos. A passagem nesta zona é particularmente penosa. Ao contrário das partes altas da cidade e das grandes praças abertas como o Terreiro do Paço, aqui não corre uma aragem e o ambiente é particularmente pesado e irrespirável.
Um conjunto de artesãos escolheu estas paragens de ligação para abrir negócio. Para além dos inúmeros estabelecimentos de mercadores e comerciantes que aproveitam a proximidade da alfândega, têm porta aberta nestas ruas representantes de uma série de mesteres, ferreiros que vendem tesouras, navalhas, esporas, ferraduras, facas e fechaduras, vendedores de imagens, livros e manuscritos populares, tecelões, tintureiros e alquimistas. Aqui tudo se mistura, mas com respeito, e por aqui se vêem muito poucas mulheres e crianças.
Pelo contrário, os cães e gatos vadios, pragas de Lisboa, não evitam a zona e, indiferentes ao ambiente de comércio, chafurdam na lama ou bebem por poças assinaladas por nuvens de mosquitos, bichos que aqui, no meio de tanto bulício, parecem não conseguir ou não querer dormir o sono de Inverno.
A chegada à Praça de São Domingos, também conhecida por Rossio, desperta-me os sentidos. Como na Praça do Pelourinho, lugar em que os prevaricadores eram castigados em público com açoutes e outras punições, esta zona também é povoada por uma espécie de tabeliães que se entretêm e ganham a vida a ouvir tudo o que não interessa e a escrever cartas inúteis, de raparigas para os seus amores que estão de serviço além-mar, ou de presos no Limoeiro ou mesmo aqui, no Santo Ofício.
A vista do Hospital de Todos-os-Santos não pode deixar ninguém indiferente. Aqui os desafortunados encontram amparo, os doentes, esperança e os pobres de bens e de espírito, conforto. À minha frente, um frade menor recolhe dois recém—nascidos abandonados. Um deles, que me parece um rapaz, embrulhado num trapo escuro, está branco, calmo, parece-me que já inanimado. A outra, uma rapariga, nada tinha a cobri-la, chorava de forma violenta, como que a proclamar a todos que iria vencer a batalha que travava pela vida.
Aqui no Rossio, um mercado permanente empresta cor e cheiros à cidade. Percorro distraidamente as bancadas onde se vendem tecidos, sapatos, e concentro a atenção naquelas com cheiro forte do peixe fresco vindo do Tejo e de Setúbal, do bacalhau salgado, da carne de boi, porco, carneiro e cabrito que, exposta ao alto e porque não é sangrada, forma rios de cor púrpura que os cães vadios se apressam em lamber.
Do lado oposto às carnes e peixes, as bancas das hortaliças, cenouras, cebolas, feijão, alcachofras e couves, o odor fresco a limão, laranja e alfazema, o adocicado a canela e mel, e o intenso picante das especiarias, açafrão, pimenta, mostarda e cravo. Todas estas sensações provocam-me fome e advertem-me para comer algo e não enfrentar o meu destino em jejum. Aproximo-me de uma bancada concorrida e pergunto ao anão que a chefia o que posso comer. Este salta de imediato para cima de um banco, aproxima-se e, ao nível dos meus olhos, descreve as suas iguarias com um entusiasmo incontido.
Procuro recuar, desviar-me para os lados, e assim conseguir escapar ao ataque contínuo de cuspo e algo mais que lhe sai da boca. Sem sucesso, e procurando aplacar o entusiasmo do meu interlocutor, decido-me rapidamente por um caldo de couves com feijão, que ele se apressa a tirar de um panelão sempre aquecido, por um naco de pão escuro com azeite e mel e um copo de vinho. Tudo me soube esplendidamente excepto o vinho, que desconfio que seja do lado de lá do Tejo e que de tão ácido e agreste me deixou com enjoos.
Sento-me por breves instantes, recomponho-me e fixo o meu objectivo, o Paço dos Estaus, sede do Santo Ofício da Inquisição. Em breve, e caso tudo se passe como me disseram, iria estar cara a cara com o que já foi o homem mais poderoso do reino e perceber, por fim, o que me trouxe a Lisboa. Por momentos, um receio invadiu-me. E se tudo não passasse de uma armadilha? Não, não era possível, pois frei Fernando de São Miguel sabia e autorizou a minha vinda. Mas o que quererá de mim o cardeal D. Henrique?
O INVESTIGADOR DO PAPA
Lourenço Pereira Coutinho nasceu em Lisboa a 11 de Janeiro de 1973. É licenciado em História e tem formação complementar nas áreas de marketing e de gestão. Trabalhou no Protocolo da Expo’98, foi Técnico Superior do ICEP e Assessor da ministra da Educação do XVI Governo Constitucional.
Actualmente, para além de gestor na área do marketing, voltou a centrar a sua actividade no campo da História, quer como autor e investigador, quer como coordenador. É autor da obra ‘Do Ultimato à República – Política e Diplomacia nas Últimas Décadas da Monarquia’ (2003). ‘Na Sombra de João XXI’ é a primeira obra em que o autor utiliza o registo ficcional a par de um extenso trabalho de investigação histórica.
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