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Seis balas silenciaram 'Franky boy'

O anterior assassinato de um chefe das 'Cinco Famílias' de Nova Iorque tinha sido há 34 anos.
Fernando Madaíl 31 de Março de 2019 às 13:30
FOTO: Direitos Reservados

Parecia uma cena da trilogia cinematográfica 'O Padrinho' ou da série televisiva 'Os Sopranos': num bairro pacato, seis balas calaram o mafioso Francesco Cali (‘Franky Boy’), que era, desde 2015, o chefe da Família Gambino – uma das cinco que têm dominado o crime organizado em Nova Iorque. No dia 13 de março, por volta das 21h30, um indivíduo tocou à campainha da sua casa, em Staten Island, para o informar que tinha abalroado o seu Cadillac com uma carrinha azul e, depois, disparou a pistola doze vezes, mas só acertou metade dos tiros no alvo – e Francesco, apesar de ter chegado ainda com vida ao hospital, acabaria por morrer.

Sobrinho de John Gambino, que era um ‘capitão’ daquele clã, ‘Franky Boy’ (que festejaria 54 anos no último 26 de março) ainda era um jovem quando se juntou a Jackie D'Amico, um ‘tenente’ de John Gotti. Este mediático mafioso só assumiu o poder após ter planeado o último assassinato de um chefe mafioso em Nova Iorque, há 34 anos: Paul Castellano foi alvejado, em 1985, por quatro atiradores à porta de um restaurante, no centro de Manhattan.

Francesco Cali foi subindo na hierarquia, passando por diferentes setores e tendo cada vez mais responsabilidades. Ao casar com Rosaria Inzerillo, destacou-se como ‘embaixador’ junto da Família Inzerillo – na época, importante na ‘Cosa Nostra’ siciliana (em Itália, a Máfia tem ainda outros ramos, como a napolitana ‘Camorra’ ou a calabresa ‘Ndrangheta’). E, em agosto de 2015, o jornal ‘Daily News’ noticiava que substituira Domenico Cefalu na liderança dos Gambino, passando a ser tratado, respeitosamente, por ‘Don’ – honraria conhecida pelos leitores do romance de Mário Puzzo, ‘O Padrinho’, que Francis Ford Coppola adaptou ao cinema.

As Cinco Famílias

A presença da organização mafiosa em Nova Iorque pode ser anterior à Estátua da Liberdade, pois quando o siciliano Giuseppe Morello (que está na origem da mais importante das famílias, a Genovese) ali desembarcou, em 1892, já havia grupos de origem italiana a replicarem, numa rede de cumplicidades, a criminalidade violenta e o ambiente de medo da ilha mediterrânica onde ele nasceu. As décadas seguintes, em Nova Iorque como em Chicago, além da imposição da sua vontade com o recurso à ameaça das populações, seriam assinaladas por combates ferozes entre bandos, inimigos abatidos, traidores executados.

Até que, no final da Guerra Castellammarese, entre os rivais Giuseppe Masseria (‘Joe The Boss’) e Salvatore Maranzano (‘Little Caesar’), que repetidamente sujou de vermelho as ruas nova-iorquinas, em 1930 e 1931, uma nova geração – em que se destacava ‘Lucky’ Luciano, cujas conceções para modernizar os negócios deste submundo levaram a revista ‘Time’ a incluí-lo na lista dos dez empresários de sucesso do século XX, percebeu que tantos cadáveres eram um mau ‘cartão de visita’ e livrou-se daqueles dois vultos da ‘velha guarda’.

Chegaram, depois, a um acordo em que dividiram o poder e o território por Cinco Famílias e criaram a ‘Comissão’ para evitar confrontos: a Genovese, que se chamava, então, Luciano; a Colombo, que tinha o nome de Profaci; a Bonanno, que se designava Maranzano; a Lucchese, conhecida como Gagliano; e a Gambino, na época a D'Aquila. Iniciou-se uma fase de êxitos baseados no terror, que só começou a declinar nas décadas de 1970 e 1980, quando a perseguição policial se impôs e se verificou uma onda de arrependidos, dispostos a, contrariando o seu juramento, colaborarem com as autoridades. A fama do seu poderio – e a eficácia do modelo do ‘polvo’, que estende os seus tentáculos a diversos domínios, mas que dificilmente é atingido na sua parte crucial – levou a que se chamassem máfias a outras organizações criminosas, como a Bratva russa ou a Yakuza japonesa, as Tríades chinesas ou os Cartéis colombianos e mexicanos.

Lutas entre Gambinos

A história da Máfia nos Estados Unidos da América (como em Itália) foi quase sempre escrita com sangue – e escondida pelo código de silêncio conhecido pela palavra ‘omertà’. Disso são bom retrato as disputas no clã Gambino: Vincent Mangano, após 20 anos de poder, desapareceu sem deixar rasto, em 1951; o seu sucessor, Alberto Anastasia, foi assassinado por cinco mascarados quando estava numa barbearia do Hotel Sheraton, em 1957, a mando de Carlo Gambino; já se sabe o destino de Paul Castellano; e até John Gotti escapou de uma bomba num carro em que devia ter viajado, instalada por membros das rivais Genovese e Lucchese. Contrariando esta quase fatalidade, Carlo Gambino – o ‘boss’ entre 1957 e 1976, que rebatizou a Família com o seu apelido e a levou ao seu período de apogeu –, além de nunca ter dormido qualquer noite na prisão, morreu em casa, aos 74 anos, quando assistia, pela televisão, a um jogo de basebol.

Agora, a polícia capturou, em Nova Jersey, três dias após a morte de 'Franky Boy', um suspeito, Anthony Comello, de 24 anos, que não parece estar ligado à Máfia. Alguns jornais americanos avançam que o dono da carrinha filmada pelo sistema de videovigilância do prédio tinha sido proibido de namorar com a sobrinha da vítima. Conforme o desenlace do caso, e com as tatuagens que Comello tem nas mãos, pode ser que este crime ainda venha a inspirar nova obra ao cineasta Martin Scorsese, que retratou os Gambino – através da personagem ‘Billy Batts’ – no filme ‘Goodfellas’ (‘Tudo Bons Rapazes’, 1990).

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