Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
1

Sejam bem-vindas as alergias

“Nunca pensei chegar ao dia em que viria a dizer que um Constipal me dá ‘moca’ de sono, mas ele aí está, iluminado por um sol esplendoroso”.
6 de Junho de 2010 às 00:00
Sejam bem-vindas as alergias
Sejam bem-vindas as alergias

A vida nunca pára de nos surpreender. Em semana de mudanças descobri que afinal sou alérgico a pós e pólenes e que acuso os efeitos secundários dos comprimidos prescritos para combater essa coisa tão chata de ficar a espirrar ininterruptamente que nem um doido até chegar ao ponto de não conseguir mexer-me.

Nunca pensei chegar ao dia em que viria a dizer que um Constipal me dá ‘moca’ de sono, mas ele aí está, iluminado por um sol esplendoroso. Não sendo digno da rotulagem de hipocondríaco, sempre tive uma relação privilegiada com químicos de toda a forma e feitio, acabando por desenvolver uma tolerância a estes bem acima da média do comum humano. Até há pouco tempo, pelo menos.

A verdade é que nos últimos anos tenho vindo a cortar com a utilização abusiva de químicos e medicamentos – alguns de forma consciente, outros nem por isso. Assim, devagar mas seguramente, tenho voltado à tal condição de comum humano, ou seja, por estes dias sou apenas o típico português que mete um Ben-U-Ron no bucho por dá cá aquela palha.

As primeiras reacções às minhas novas reacções foram de um sarcasmo ressentido: "Porra, que menino! Como é que é possível ficar a zorbar com a porcaria de um Constipal?" Há quem possa considerar este pensamento como simplesmente pateta, mas eu prefiro adjectivá-lo de forma romântica, como sendo de uma irreverência juvenil. É assim como quem diz "quê, cinco cervejas e já estás a ficar bêbado? Não vales nada!", como se beber copos fosse desporto de alta competição e não apenas um acto de descontracção social.

Sentir demais não é nada bom, eu que o diga. Mas tentando aliviar o fardo de uma extrema sensibilidade física e emocional, corremos sempre o risco de chegar a um ponto em que não se sente rigorosamente nada. Eu que o diga, também. Algumas coisas não são nada boas de se sentir, mas devemos considerá-las como sinais de que estamos vivos e que somos, inevitavelmente, vulneráveis. E ser-se vulnerável não é especialmente bom nem mau, é o que é, assim mesmo.

Antes isso do que (não) viver num estado dormente e embrutecido, permanecendo numa ilusória zona de conforto que não é mais do que anulação da própria vida como ela é, digo eu. Bom domingo, minha gente. Atchim! 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)