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Sem grande final

‘Procurem Abrigo’ é um filme que vai além dos tradicionais enredos do apocalipse. Mostra que a desgraça cose-se devagarinho e todos os dias
Joana Amaral Dias 27 de Maio de 2012 às 15:00

Na mitologia grega, Cassandra passou a ser capaz de ouvir as vozes dos deuses depois de, em criança, os seus ouvidos serem lambidos por serpentes, tornando-os particularmente sensíveis. Mais tarde, tornou-se profetisa mas esses dons não a impediram de cair em desgraça, pois Apolo acabou por lançar-lhe uma maldição: o descrédito das suas previsões. Cassandra passaria a ser considerada louca pelos troianos que viam nas suas vaticinações de catástrofe um sinal de insânia. Mesmo quando implorou que destruíssem o cavalo de Tróia foi ignorada. E a calamidade sucedeu.

COMO CASSANDRA

Não se conhece a infância do protagonista de ‘Procurem Abrigo’, a não ser que, aos 10 anos, a sua mãe foi internada com uma esquizofrenia paranoide. Já o seu destino é semelhante ao de Cassandra. As suas previsões sobre um apocalipse eminente, no meio da América rural, são vistos pela sua comunidade como um sintoma de alienação. Aliás, é o próprio que, considerando os seus antecedentes de doença mental e, provavelmente, a ambiguidade do Eu que um delírio pode provocar, pondera a possibilidade de estar a perder a sanidade.

Seja como for, a questão menos relevante deste último filme de Jeff Nichols é a de saber se as suas predições são ilusão ou realidade. Afinal, com ou sem dia do juízo final, o mundo tornou-se- agora e a tal como ele o conhece- numa ameaça, num cataclismo. A economia frágil que intima a estabilidade mínima do quotidiano, os constantes sobressaltos ambientais, um sistema de saúde (como o estado-unidense) que não garante a prestação de cuidados médicos, mesmo que deles dependa a dignidade e a sobrevivência, são elementos mais do que suficientes para gerar uma funda angústia em qualquer um, ingredientes que bastem para viver no pânico que o céu desabe em cima da cabeça. Logo, não interessa se as profecias deste operário pai de família são demência ou futuros factos, até porque o que se constata é exatamente o contrário: a hecatombe já está a acontecer e, no limite, passou da realidade à perceção e não o contrário.

Para o protagonista de ‘Procurem Abrigo’, o medo é um intruso permanente mas, afinal, essa pressão fóbica é um elemento omnipresente da vida atual. Ele impregna o dia-a-dia na insegurança crescente, na televisão e, claro, no próprio cinema que fez do filme-catástrofe um género muito característico do século. Nesse sentido, esta longa-metragem é o anti-filme-catástrofe, o que mostra que o apocalipse não chegará súbito e inopinado com ondas gigantes, meteoritos em colisão com a Terra, em vírus criados em laboratório de contágio automático, mas está a ser construído, dia a dia, hora a hora. É. E só um louco, diz Jeff Nichols, é que não o vê. 

RESUMO

Curtis LaForche, que vive com dificuldades económicas numa cidade de Ohio, com a mulher e a filha surda, tem sonhos sobre uma terrível tempestade.

Realizador: Jeff Nichols

Intérpretes: Michael Shannon, Shea Whigham, Tova Stewart

Em exibição nos cinemas


SÉRIE DE TV: ‘UMA FAMÍLIA MUITO MODERNA’

Se nunca assistiu, comece pelo primeiro episódio. Não que a compreensão dos subsequentes fique comprometida. Só que vale a pena. A constelação de personagens funciona como sátira social sem ressabiamentos e o humor é tão cirúrgico como frenético.

RESUMO

Comédia que dá uma visão do que serão as complicações de uma família no século XXI. A série, que vai na terceira temporada, já foi premiada nos Globos de Ouro e nos Emmy.

Canal por cabo Fox Life

DVD: ‘ZORBA, O GREGO’

Eis uma oportunidade para rever esta obra de Cacoyannis, interpretada por Anthony Quinn e cujo tema musical se tornou num caso raro (mas não inédito) mais famoso do que o filme. Num tempo em que a Grécia não deixa a boca de cena, dá também para passar os olhos por Creta e, talvez, vê-la de outro modo.

Realizador: Michael Cacoyannis

Adaptação: ‘Zorba, O Grego’, de Nikos Kazantzakis

Intérpretes: Anthony Quinn, Alan Bates, Irene Pappás

FILME: ‘AVES DE RAPINA’

Nesta quinta-feira, passe pela Cinemateca e veja esta obra--prima de um dos mestres do cinema mudo. É um filme extremo, radical, sobre um mundo movido a dinheiro. De repente, parece que a história continua a mesma e só a tecnologia mudou.

Realizador: Erich von Stroheim (1924)

Intérpretes: Gibson Gowland, Zasu Pitts, Jean Hersholt, Dale Fuller, Tempe Pigott, Sylvia Ashton, Chester Conklin, Joan Standing

Exibição na Cinemateca Portuguesa, Lisboa

+info www.cinemateca.pt


FUGIR DE...

FALTA DE CINEMAS

É acabrunhante, mas é assim. Ir ao cinema fora de Lisboa ou do Porto tornou-se quase impossível. Nas pequenas cidades, como em Coimbra ou Faro, as salas foram engolidas pelos pequenos estúdios dentro dos centros comerciais, com programações curtas e redundantes. Ou lá se apanha um filme fora do circuito comercial ou se acaba embalado dentro do shopping. Este país não é para plateias. Só audiências.

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