Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

Sem medo da guerra

Para quem já viveu tantos anos, viu tanta coisa, morar com a guerra em Haifa, alvo predilecto do Hezbollah, não assusta. Esta portuguesa de 93 anos trocou, há muito tempo, solo tranquilo pela fustigada Israel.
13 de Agosto de 2006 às 00:00
Simy Levy Sequerra está há 25 anos em Israel
Simy Levy Sequerra está há 25 anos em Israel FOTO: Miriam Assor
Não é exagero afiançar que o calendário poderá ter cometido um redondo engano. A idade assinalada no Bilhete de Identidade não corresponde com a sua enérgica vivacidade e extraordinária lucidez. Simy Levy Sequerra nasceu em Lisboa, e de facto, a doze meses antes do início da I Guerra Mundial, no Verão de 1913.
Feitas as contas, custa acreditar no resultado da matemática: 93 anos. A senhora Sequerra reside há um quarto de século em Haifa – capital do norte de Israel – alvo predilecto do Hezbollah. “São incontáveis as vezes que as sirenes tocam.” Os múltiplos sinais de alerta reproduzem na íntegra os 90 mísseis que estalaram na artéria da cidade e arredores. Assim que o fragor termina, diz-nos, com sorriso compassado, começa outro, muitíssimo mais potente: a detonação dos petardos que “ensurdece os tímpanos de um surdo.”
Precisamente nesta tarde o estouro ficou bastante mais nítido. Neveh Shaanah, o bairro onde vive, serviu de epicentro. Os ‘rockets’ caíram a uma minúscula distância da sua residência. “O prédio estremeceu. Parecia um terramoto.” Com humor, peça fundamental para aguentar o imprevisível dia-a-dia, garante que a escala de Richter não galgou devido à magnitude, mas às toneladas oriundas do Líbano.
A rotina desta explicadora de Português, Inglês e Alemão, que, até, há bem pouco tempo, ainda tinha ‘pernas’ para ser voluntária em instituições de solidariedade, não sofreu alteração: “A minha vida continua na mesma.” A característica da sua personalidade segue implacável às notícias que presencia num directo inquieto. Frequentemente “a televisão é a minha janela”. Nem é preciso correr as cortinas. Os vidros não mentem as direcções. Em baixo, do lado, ou um pouco mais para cima.
A localização dos efeitos da guerra posiciona-se demasiadamente próxima. Dizer que fica perto da casa de Simy equivaleria a não sermos justos. Porque neste caso, perto torna-se muito longe. A guerra é ali. Mas a proximidade da brasa do conflito não traduz insónias. Elege um adjectivo que afasta qualquer hipótese de mudança de morada: “Não tenho medo.” Não vai para Telavive ou para Jerusalém, actualmente as cidades mais procuradas por estarem distantes da área acalorada. Não vai para outro lugar que não seja este onde nos recebeu. A sua casa.
Não ter medo também significa que nunca fará as malas para regressar ao país que a viu nascer – Portugal. O refrão popular encaixa a cem por cento: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira.” No exacto momento em que as sirenes retumbam, Simy, mulher de pele nívea, rosto pouco marcado pela cronologia, mãe de três filhos, avó de um punhado de netos, optimista por natureza, nem sempre procura o abrigo que fica no seu andar. Prefere a ombreira de uma porta. O ritual simples é espontâneo: abre um livro de Tehilim – salmos e reza. Espera pelo colo da sorte com as mãos que seguram a oferta de Arão, o único filho que escolheu Israel como poiso definitivo.
“Não foi por acaso que tive que viver tantos anos.” Quem nasceu em vésperas de uma contenda vem ao mundo vacinada. “Já vivi muitas, e esta só é mais uma...” Sentiu e de feição a Segunda Guerra Mundial. O falecido marido, Joel Sequerra, algarvio da casta de Faro, teve um papel importante na História: “Ia buscar refugiados aos Pirenéus e trazia-os para Portugal.”
Em 1958, por razões profissionais, o casal trocou Portugal pelo Brasil, mas a Guerra dos Seis Dias e a de Yom Kipur, apesar da distância que separa a terra do ‘leite e do mel’ da cidade maravilhosa, “foram vividas muito intensamente”. Em 1991, quando o Iraque enviou skuds com iminência de efeitos químicos, “é claro que coloquei a máscara no rosto”. Mas a frase repete-se: “Não tive medo.” Igualmente as duas Intifadas e os bombistas não lhe causaram pânico.
E este vendaval de mísseis em nada a surpreende: “Há muito tempo que o sul do Líbano ataca Israel.” Enquanto o cessar-fogo não se transforma na desejada realidade, o apartamento 27 da Rehov Aba Hillel Silver tem uma inquilina que não arreda pé. “Eu sou portuguesa. Mas esta é a minha terra.” O adágio volta de novo, ainda que ligeiramente alterado no tempo verbal: “Daqui não saio. E daqui ninguém conseguirá tirar-me.”
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)