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“Sempre vivemos com a nossa mãe, a avó, as galinhas e com as ovelhas”

São gémeas verdadeiras e afirmam que o mundo da moda se interessa especialmente por juntar dois irmãos, numa alusão ao universo gay. Duas das modelos mais internacionais portuguesas são o rosto da Modalisboa 2010, em Março.
7 de Fevereiro de 2010 às 00:00
“Sempre vivemos com a nossa mãe, a avó, as galinhas e com as ovelhas”
“Sempre vivemos com a nossa mãe, a avó, as galinhas e com as ovelhas” FOTO: Tiago Sousa Dias

- Vocês são mesmo iguais?! O rosto é igual, só o cabelo vos distingue.

Andreia - Fisicamente acho que já fomos mais parecidas.

Alice - A minha cara é mais quadrada e a da Andreia é mais comprida. Temos também sinais que nos distinguem. Tenho um dedo vermelho, que é marca de nascença.

- E na vossa personalidade?

Alice - Somos muito parecidas, é por isso que nos damos muitíssimo bem mas estamos sempre a discutir.

Andreia - As pessoas que nos conhecem bem dizem que conseguem ver diferenças. Mas, para nós, somos iguais.

- O que há de diferente entre ambas e que leve um cliente a preferir uma em detrimento da outra?

Alice - A minha irmã é mais comercial e eu sou mais de moda. Ela fica melhor na televisão do que eu.

Andreia - A cara dela, para uma revista de moda, tem um rosto mais forte, como tem os traços mais vincados.

- São bonitas, claro, mas certamente o vosso rosto tem algum ponto negativo; qual é?

Andreia - Nunca nos têm apontado nenhum defeito mas eu, pelo menos, não gosto muito do meu nariz...

Alice - Tolice. Quando estou a fotografar dizem-me para não rir, não me favorece.

- Alguma vez te disseram, Alice, que o teu nome era a tua cara? E a ti, Andreia, o mesmo?

Alice - A mim dizem-me que eu tenho mesmo cara de Alice.

Andreia - Com o meu nome nunca houve assim nada. Já com a Alice, acho que é pelo nome ser diferente, mais fora de vulgar.

- Andreia, tens tatuado na nuca um verso de uma música. É por romantismo?

Andreia - Não. Fiz quando tinha ainda 18 anos, era mais ingénua. Há sempre aquelas inseguranças por nunca saber se estou a fazer a coisa certa, se estou a agir correctamente e precisava de alguma coisa que me guiasse, é mais nesse sentido.

- Tu és a mais nova, Andreia?

Andreia - Sou mais velha três minutos.

- E tens algum instinto protector em relação à tua irmã?

Andreia - Não, nós sentimo-nos mais como se fossemos uma só. É mais isso.

Alice - Quando estamos juntas andamos sempre às turras, mas quando viajamos separadas, sentimos logo a falta uma da outra...

Andreia - Nem que seja pelas discussões.

- Então não estão sempre juntas?

Alice - Quando viajamos não. Esta última vez que fomos para Nova Iorque viajámos juntas, mas normalmente fazemo-lo separadas.

- Fizeram as fotos para o cartaz ModaLisboa 2010 num misto de sensualidade do corpo nu e a ideia plástica de um manequim de montra de loja...

Alice - E de boneca insuflável, também, um bocadinho.

- Como foi fazer essas fotografias?

Alice - Para já, não estávamos nuas como parece na foto.

- Não? Tinham vestido um biquini?

Alice - Estávamos só de fio dental. E depois foi tudo tirado a computador.

Andreia - Mas já estamos habituadas a fazer fotos assim.

Alice - E como são de moda, não é nada vulgar, acho que a ideia está muito gira.

- Sentem a diferença clara entre o que é a moda e o que seria um trabalho mais vulgar? Antes de irem para um casting não têm a sensação que podem estar a ser levadas, ao engano, para uma coisa mais vulgar?

Alice - Por isso é que queremos estar nas melhores agências. A agência é que consegue definir o que é uma coisa boa para a modelo.

Andreia - E mesmo a folha de casting diz sempre que tipo de trabalho é.

- Estão à-vontade com a nudez?

Alice - Não, mas não é por timidez. Se calhar, por não acharmos que estamos completamente em forma, não nos sentimos tão à-vontade. Não é por sermos pudicas.

- As revistas masculinas portuguesas já vos procuraram?

Andreia - Acho que a ‘GQ' quis uma vez que eu fizesse qualquer coisa, mas ainda não me senti muito bem.

Alice - Não temos o corpo das raparigas que normalmente aparecem nessas revistas. Não temos peito muito avantajado.

- O que mudariam no vosso corpo?

Alice - O rabo. Achamos que é um bocadinho grande de mais.

Andreia - Temos mais anca do que se quer, normalmente, numa modelo.

- Mais alguma coisa que mudassem?

Andreia - Eu gostava de ser mais alta.

Alice - Eu sou dois centímetros mais alta. Principalmente lá fora, tenho a altura mínima para desfile, que é um metro e 75. Aqui o mínimo é um metro e 71..

- Como se sentem na pele de protagonistas do ModaLisboa, ao fim de seis anos a desfilar neste evento?

Alice - Eu já tinha sido a cara da ModaLisboa logo no primeiro ano em que desfilei. Tinha sido o meu primeiro grande trabalho e não conhecia ninguém, estava toda a gente a olhar para mim, a apontar-me o dedo a dizer: "é aquela, é aquela."

Andreia - Se fosse há uns anos estaríamos mais deslumbradas. Agora, já vemos como uma coisa normal.

Alice - E só agora é que parece que as pessoas repararam que somos gémeas. Durante muito tempo, como nos viam separadas, pensavam que só havia uma modelo. A partir do momento em que nos viram juntas, é que descobriram.

- Já trocaram de lugar nalgum desfile? Uma estava contratada, mas a outra é que foi à sessão?

Andreia - Houve uma vez que a Alice ficou doente e eu estava lá nos desfiles e puseram-me porque ela não podia.

- E na escola trocavam?

Alice - Sim, houve uma altura em que estávamos em turmas diferente e eu ia para a dela e ela para a minha.

- Porquê?

Alice - Só para ser engraçado porque as professoras não nos distinguiam. Os colegas sabiam mas não diziam nada. E estávamos fartas da escola. Era só por brincadeira.

- Vocês gostavam de estudar?

Andreia - Parámos no 12.º ano porque a nossa ideia era tirar um ano para viajar e só depois tirar um curso. Mas, entretanto, as coisas foram andando, fomos tendo trabalho.

Alice - E também não temos nenhum curso que queiramos mesmo tirar.

Andreia - Como não apareceu nada entretanto, quisemos dedicar-nos a isto.

- Sentem rivalidades nos namoros?

Alice - Não, nunca houve nada porque eles sempre nos distinguiram bem.

- E, por brincadeira, já trocaram?

Andreia - Não éramos assim tão rebeldes.

- Onde vão estar no dia de S. Valentim?

Alice - Não tenho namorado mas não ligo muito a esse dia. Normalmente é só jantar e gosto de receber um presentinho.

Andreia - Estou sem namorado. Normalmente gosto de uma coisa mais romântica, um jantar em casa.

- Como é que tuas raparigas bonitas não têm namorado?

Andreia - Coisas da vida (risos).

Alice - Estou numa fase em que prefiro estar sozinha. E a nossa vida é um bocado complicado. Consegue-se ter namorado, mas faz-se sofrer muito porque viajamos muito.

- É mais fácil então encontrarem um namorado que seja modelo.

Alice - Sim, até é mais fácil porque podemos viajar juntos. Mas geralmente não nos atraímos muito por pessoas do mundo da moda.

- Já que vocês têm o rosto perfeito, uma imagem que vende, procuram um rapaz bonito?

Alice - Eu também não gosto de rapazes muito bonitos e muito perfeitos. Claro, também não gosto que sejam horríveis.

Andreia - Acho que é mais importante que eles sejam interessantes. Muitas vezes os mais bonitos são os que menos cabeça têm.

- Estão entre as modelos portuguesas mais requisitadas internacionalmente. Como foi saltar de Loulé para cidades como Londres ou Nova Iorque?

Andreia - Começámos a sair com 18 anos e isso obrigou-nos a crescer depressa.

Alice - Sempre vivemos com a nossa mãe, a avó, as galinhas e com as ovelhas...

Andreia - E, de repente, estamos num avião sozinhas. Da primeira vez só me lembro de pensar: ‘meu Deus, quero voltar para trás, eu sou maluca'. Mas depois nunca é tão difícil como parece.

- Mas alguma vez pensaram realmente em desistir?

Andreia - Há muitas vezes que estamos lá fora e, porque já não trabalhamos há umas semanas, parece que lá estamos só a gastar dinheiro e não recebemos nada em troca, dá vontade de dizer: vou-me embora, já não quero mais saber disto. Mas tudo compensa.

Alice - Acabamos por gostar sempre daquilo que fazemos. E claro que nunca temos coragem para desistir porque também não é isso que queremos. Temos que insistir porque nesta profissão vamos ter que apanhar com muitos "nãos" na vida.

- Como lidam com esses ‘nãos' nos castings?

Alice - De início, quando comecei, pensava: a culpa é minha, eu é que sou feia, as outras são bonitas. Mas não tem nada a ver com isso. Tem a ver com sorte e com aquilo que os clientes procuram. E acaba-se por, com o tempo, levar isso de uma maneira mais leve. Senão não se aguenta. Se calhar, às vezes, fazemos oito castings por dia e não conseguir trabalho nenhum.

- Os gémeos estão na moda?

Alice - Está a surgir um bocadinho mais essa moda. Mas lá fora vêem-se mais gémeos do que gémeas. Não sei se é mais pelo universo gay, por serem dois homens.

- Achas que há essa associação de imagem, com conotações homossexuais?

Alice - Há um bocadinho. No mundo da moda a maior parte são homossexuais. Então acho que o cliente vai preferir dois homens a duas mulheres.

- Dizes que no mundo da moda há muitos homossexuais. É notório?

Alice - Sim, normalmente cabeleireiros, maquilhadores, produtores é quase tudo homossexual.

- Houve uma altura em que se falava de drogas nos bastidores da moda; sentem que esse peso exista mais em Portugal ou no estrangeiro?

Alice - Quando entrei no mundo da moda tinha essa ideia de que havia muita droga, muito álcool. Mas acabei por ver que não é assim. Nós também não entramos nesses tipos de ambientes.

- Quando decidiram ser modelos?

Andreia - Comecei no Elite Model Look e fiquei nessa agência. A Alice imitou-me.

Alice - (risos) Comecei a ver que podia ser engraçado e vi o anúncio para participar no concurso Cabelos Pantene. E ganhei.

- Já tinham cuidados convosco?

Alice - Sempre fomos muito descuidadas. Por sorte, geneticamente não temos tendência para engordar. A uma certa altura, então, queríamos era engordar, achávamos que éramos magras demais.

- Como é ser modelo?

Andreia - Quando fiz a publicidade televisiva para a Net Cabo, houve um dia que passei 24 horas acordada.

Alice - Quando estamos lá fora sentimos mesmo que temos uma profissão a tempo inteiro. Se não estamos a trabalhar, temos castings a uma média de oito por dia. Cá é mais calmo. Quase não fazemos castings. E trabalhamos quase todas as semanas.

- E quando uma consegue um trabalho e a outra não, como reagem?

Andreia - Como viajamos quase sempre separadas nunca existiu esse problema. Cá, em Portugal, às vezes fica uma, outras vezes a outra. Mas isso também é normal, somos diferentes.

- Pagam-vos muito dinheiro?

Alice - Depende. Nos anúncios e nas campanhas é onde se ganha mais.

- Quanto podem ganhar em Portugal relativamente ao estrangeiro?

Alice - Depende dos países. Em Londres é muito bom. Pelo mesmo trabalho fotográfico, tipo um catálogo de Internet, que aqui receba 300 euros, em Londres pagam 600 libras [cerca de 685 euros]. Agora Nova Iorque, com a crise, está tudo muito mau. É mais ou menos igual a Portugal.

- Sentem a influência de alguma top model?

Andreia - Gosto muito da Kate Moss, pelo estilo. E de outra, que acho mais bonita: a Bianca Balti.

Alice - Eu gosto da Adriana Lima.

- Por exemplo, acham que nasceram para serem vestidas por algum estilista em particular?

Andreia - O Balmain. É um estilo mais descontraído, mais urbano, um bocadinho para o rock.

- Gostam do estilo roqueiro?

Alice - Sim, misturamos um pouco de tudo. Não gosto 100% rock.

Andreia - Também gostamos do estilo vintage. Por acaso em Nova Iorque safámo-nos bem porque gostamos de lojas de roupa em segunda mão. E há muitas e baratinhas.

- Gostam de ir a concertos de música rock?

Alice - Adoramos. Quando estamos lá fora procuramos logo alguma coisa que gostamos e que esteja a tocar.

- Que ideia teriam para conciliar com a carreira de manequim?

Alice - Eu já participei no filme ‘A Espada e a Rosa', de João Nicolau. Ainda não saiu. Gostei da experiência porque quando eu era miúda queria mesmo era ser actriz. Fui crescendo e distanciei-me um bocado dessa ideia. Depois da participação neste filme, que gostei, se calhar voltaria a repetir. Telenovelas não, acho que não faria.

Andreia - Eu fiz pequenas participações nas novelas, uma coisa muito pequena. Mas é uma área que gostava de experimentar um dia. O cinema atrai-me imenso.

- Um dia que deixem de ser modelos...

Alice - Isso assusta-nos um bocadinho porque ainda não sabemos o que queremos fazer exactamente.

Andreia - Mas eu já falei com outras colegas que também não sabiam e, depois, quando chegou a altura, surgiu uma oportunidade.

- Têm pronúncia algarvia. Como é viver na aldeia do Parragil com os pais?

Andreia - É bom porque nós agora tivemos uma mês e pouco em Nova Iorque, que é o oposto, e é completamente diferente chegar lá e acordar com os passarinhos e não ouvir barulho.

Alice - Mas também só aguentamos uma semana. É mais um retiro.

- O vosso pai foi proteccionista quando começaram a sair de casa para trabalhar?

Alice - Não, os nossos pais sempre foram muito conscientes.

Andreia - São mais espirituais. Eles conseguem ver as coisas de outro lado. São proteccionistas, claro, mas nunca disseram para não fazermos nada.

- Qual é a profissão deles?

Alice - O nosso pai é comerciante de móveis e restaura também. A nossa mãe é esteticista.

- Em Loulé andam de saltos altos e maquilhadas?

Andreia - Gostamos mais de passar despercebidas. Então lá no Algarve as pessoas ainda olham mais e têm muito a mania de apontar o dedo e de criticar.

- No interior algarvio sofre-se de algum provincianismo no que toca à Moda?

Andreia - Um bocadinho.

- Em que lojas compram roupa?

Alice -Acho que é o normal de toda a gente: Zara, H&M. Nada de grandes marcas.

- Não fazem grandes rombos na carteira?

Alice - Não. Conseguimos sempre encontrar o que gostamos em lojas mais acessíveis. E como não temos aquele gosto muito requintado, não gastamos muito dinheiro.

- E vestem-se de estilos diferentes?

Alice - Nós diversificamos muito, não temos um estilo próprio.

Andreia - Vestimos até roupa uma da outra. Às vezes, há guerrinhas, mas pronto.

- Alice, sei que sentes que o desfile na passarela é bom para o ego. E caminhar na rua, onde os rapazes olham, comentam, como se sentem?

Alice - É bom e também um bocado constrangedor, porque nunca gostei de ter muitas pessoas a olhar para mim, o que é um contra-senso. Claro que é bom para o ego e se eles deixassem de olhar era um bocado estranho. Lembro-me que em Inglaterra ninguém olha. Uma mulher pode estar nua na rua que eles não olham. Mas no início eu pensava: o que é que se passa, devo estar mesmo feia.

Andreia - Nós somos mais tímidas. Costumo dizer: às vezes gostava de ser invisível, que ninguém reparasse. Porque há alturas que uma pessoa entra, todos olham e eu tenho vontade de me esconder.

- As pessoas reconhecem-vos?

Alice - Nós achamos que não.

Andreia - Somos mesmo distraídas nisso.

- Qual foi a sessão fotográfica mais estranha que fizeram?

Alice - Fiz uma com um frango na mão, tinha que o comer, e tinha a cara toda cheia de óleo. A seguir, comi chocolate e fiquei toda suja. Foi uma coisa um bocado nojenta. Mas era supostamente moda.

PERFIS

Andreia nasceu três minutos antes da irmã gémea Alice, às 19h15 do dia 24 de Fevereiro de 1987. E foi também a mais velha a primeira a entrar no mundo da moda. Em Setembro de 2003 participou no Elite Model Look, tendo sido contratada por essa agência. Andreia encarnou o personagem da ‘Rita' no anúncio televisivo das "meninas da Net Cabo". Fez editoriais para revistas como a ‘LuxWoman', ‘Máxima', ‘Cosmopolitan', ‘Elle'. Desfilou para o designer Alexander McQueen.

Em Novembro desse ano, foi a vez de Alice ganhar o concurso Cabelos Pantene e entrar para a Central Models, agência onde hoje trabalham ambas. Alice venceu um Globo de Ouro em 2007. Desfilou para Emílio Pucci e fez editoriais para revistas como a ‘Vogue', ‘Cosmopolitan', ‘Elle', ‘Madame Figaro'.

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