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Sempre a subir até à Arrow

Foi professora de Passos coelho antes de ser sua ministra. Mexe-se bem, e até dispensou o motorista. A devoção que o marido lhe tem dá-lhe para ameaçar jornalistas. Nasceu em Braga e chegou a viver em moçambique. O pai trabalhou na barragem de Cahora bassa. Foi de adolescente atinada e um pouco gordinha a mulher que está sempre nos sítios e com os dossiers certos nas mãos.
Miriam Assor 20 de Março de 2016 às 12:33
Têm quase a mesma idade, mas Pedro, já pai de família, fez a licenciatura em Economia na Universidade Lusíada de Lisboa e foi aluno daquela que depois foi sua ministra das Finanças, e que até lhe deu então um gordo 17. Mas vamos por partes, que quem nos interessa é a professora e não o aluno.
Nos anos 80, a escolha de Maria Luís Albuquerque ainda não pendia para êxitos estrangeiros. Música portuguesa, e de preferência ao vivo nos bares, contemplava a opção da senhora que hoje se encontra na boca do lobo por ter aceitado o convite da financeira britânica Arrow. A adolescente andava longe de borgas e afins. Um ex- -colega de turma afirma sem titubear: "Não trocava os livros por uma saída."
Habitava na casa dos pais no Monte Abraão, Queluz (Sintra), à distância de um espilro do bairro que segue a provocar dores de cabeça à polícia: 1º de Maio, ou o afamado ‘Bairro da Caixa’. As pernas não lhe tremiam. Os quinze minutos até ao Liceu de Queluz, actual Escola Secundária Padre Alberto Neto, eram calcorreados a pé. Talvez seja ainda esse tique, a de valer-se de si própria, que aquando do seu exercício ministerial prescindiu de segurança à porta do seu apartamento na Parede e mais do motorista, ainda que uma vez apeada andasse à boleia dos assessores. Para sermos francos, a rota dos anos 80 resumia-se à escola, onde era óptima aluna em todas as disciplinas, menos, e lá está, na Educação Física. "Era um pouquinho gorda." Ninguém diria, "não desfrutava perfil de chefe e tão pouco se entusiasmava com tal probabilidade". A vida dá mais voltas do que as saias da Nazaré.
Maria Luís Albuquerque chegara ao distrito de Lisboa com 15 anos, vinda de África. O pai, o senhor Morgado Dias, comandante da Guarda Nacional Republicana, havia estado a trabalhar na Barragem de Cahora Bassa, e a família – a esposa e as três filhas – acompanharam-no nessa viagem entre 1976 e 1982. Viu a guerra da Rodésia, a ditadura da FRELIMO e o movimento de resistência da RENAMO. Como já fez saber, o que marcou a sua formação do ponto de vista ideológico, a par da católica, assenta no facto de ter vivido esses anos da mocidade nas adjacências da ditadura.
Maria Luís Casanova Morgado Dias de Albuquerque, que tal como uma das irmãs, Maria João, uma reputada bióloga, recebeu o segundo nome de baptismo masculino, e que liderou o ministério que dá sempre azo a palratório, nasceu em Braga, em 16 de Setembro de 1967, e a geografia será intensa devido às deslocações profissionais do lado paterno: Fafe, Armamar, Moçambique e Queluz, como referidos. Mãe duas vezes, mas com três filhos – Ricardo, 15 anos, e os gémeos Alexandre e Francisco, 13 anos, o Colégio Maristas é o escolhido para cuidar da instrução educacional da descendência. Sabe-se que a mãe do actor Heitor Lourenço dá explicações a um dos rapazes. E sabe-se também que Maria Luís Albuquerque é uma mulher que vende paciência desde que os seus objectivos possam ser alcançados.
"Vais parar ao hospital"
O marido ferve em pouca água. Acha-se acusado pelo Ministério Público de cinco crimes: coacção na forma tentada, dois crimes de injúria e dois crimes de difamação com publicidade. António Albuquerque, em tempos que lá vão, exerceu funções de editor- -executivo no ‘Diário Económico’. Maria Luís Albuquerque, e não é por mero acaso, jamais concedeu uma entrevista a esse periódico. Caso único, e, diga-se de passagem, bizarro, entre os titulares da pasta das Finanças nos últimos 25 anos. António Albuquerque ofereceu cacetada, e da grossa, ao seu antigo camarada de jornal, Filipe Alves. Via mensagens escritas, mas, ainda assim, uma ameaça é uma ameaça. E neste caso foram três: "…Tira a minha mulher da equação senão vou-te aos cornos". Depois, "…Metes a minha mulher ao barulho e podes ter a certeza de que vais parar ao hospital". E finalmente: "…Estás avisado, se metes a minha mulher ao barulho nesta história…Vais parar ao hospital". O que motivou a fúria do correspondente da Soico, o maior grupo de comunicação social moçambicano, embrulha-se num artigo assinado por Filipe Alves: ‘O que Acontece se o Novo Banco for Vendido com Prejuízo’ (2013). As suas dúvidas sobre a forma apurada pelo Governo e pelo Banco de Portugal para resgatar o BES fizeram perder a cabeça do esposo, com infinitas qualidades de pai, também por ser ele a levar os rebentos à escola. Porém, na função de editor-executivo, vários colegas se queixaram ao director, António Costa, de algumas atitudes menos convenientes. Se alguém publicasse uma notícia que beliscasse Maria Luís Albuquerque, na manhã seguinte, "olhava de lado", fazia comentários sarcásticos, desagradáveis ou mesmo sinistros, do género "sei com quem falaste na empresa X ou no ministério Y", "não vou deixar que destruam aquilo que eu e a minha mulher demorámos anos a construir". Alguns jornalistas receavam que o António Albuquerque ‘sabotasse’ as fontes no Governo e na administração pública. Além disso, o seu cargo dava-lhe acesso a todo o planeamento da edição. A determinada altura, face às suas atitudes, o próprio acabaria por ser afastado da edição diária.
Dispensado do jornal, começou a prestar serviços de consultoria nos projectos fora de Portugal do grupo EDP. Aqueceu pouco o lugar na empresa que a esposa privatizara.
O curso de Economia, Maria Luís Albuquerque completa-o sem sobressaltos numa universidade privada: Lusíada. Provavelmente terá tido média para ingressar na estatal. Mas o milho de contactos podia lá não estar. É oficialmente laranja, foi ministra de um governo de direita, mas a sua estreia política foi na esquerda socialista. O esposo foi nomeado para exercer funções no gabinete do secretário de Estado da Indústria e Energia, Victor Manuel da Silva Santos, como adjunto do gabinete. Estávamos na regência de António Guterres. Maria Luís assessorava o então secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, Manuel Pedro da Cruz Baganha. Em 2001, diz-se que Baganha ter-lhe-á dado uma mãozinha, ou melhor, uma senhora mão, para que entrasse na REFER na qualidade de directora do Departamento de Gestão Financeira. Também se diz que a esposa de Baganha, Maria Luísa Pacheco, chefiou o gabinete de Maria Luís Albuquerque, em 2011, por sugestão do próprio Baganha. Questionado através de email, em três perguntas – ‘Como conheceu a Dra. Maria Luís Albuquerque?’, ‘Através de quem foram apresentados?’, ‘Já a conhecia antes de ser sua assessora?’ –, o actual presidente do conselho directivo da Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social, I.P, não disse nem ai nem ui. Adiante. Fonte social-democrata insurge-se com o que considera "falta de lealdade política. Falamos nós dos boys e das girls dos outros partidos, e isto – esta situação - parece ser da mesma leva". Um carrossel de interesses.
Como coordenadora do Núcleo de Emissões e Mercados do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), entre 2007 e 2011, no consulado socrático, cabia-lhe a responsabilidade de traçar e de efectuar as emissões de dívida pública, num tempo em que Portugal corria o sério risco de ver pelo canudo a entrada aos mercados. Muitas informações que advinham desta sua incumbência, e de outras futuras, acabaram por valer ouro para o seu antigo discípulo Pedro e para todos que estivessem na fila.
É que Pedro, antes de ser o primeiro-ministro Passos Coelho, foi aluno da Dra. Maria Luís. Deu-lhe ‘gandas notas’: no ano lectivo de 1999/2000, em Microeconomia I, 15 valores; no ano de 2000/2001, em Macroeconomia II, 15 valores. Em 2001/2002, a Economia Financeira ficou pelos 13 valores, mas Pedro limpou a Matemática Financeira, no lectivo seguinte, com 17 valores, que não se esquecem facilmente.
A passagem pelas Finanças deixou marca nas funcionárias da limpeza. "Entre! Entre!", e lá entravam as senhoras no gabinete da ministra que nunca tinham visto ninguém em tão altas funções com tão grande à-vontade com a limpeza. 
Economia Universidade Lusíada de Lisboa Maria Luís Casanova Morgado Dias Maria Luís Albuquerque
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