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“Sentiam-se mais seguros só por nos verem lá em cima a voar”

A nossa missão era a evacuação dos feridos e o abastecimento de víveres às tropas que estavam em locais inacessíveis
Manuela Guerreiro 9 de Fevereiro de 2020 às 09:00

Saí de Lisboa a 20 de maio de 1970 e viajei no TAM – Transporte Aéreo Militar. Na primeira tirada, fiz oito horas de voo até Bissau . Depois do avião reabastecer, continuei a viagem até Luanda. Mais 10 horas de voo. Passei o resto do dia em Luanda e também a noite, porque os pilotos têm de descansar     após     algumas     horas     de     voo. Depois, saí para Lourenço Marques (hoje Maputo), onde cheguei no final do mês de maio. Estive uns dias em Lourenço Marques e depois fui para Nampula. Éramos colocados nas várias bases e eu fiquei no Aeródromo Militar 51. Fazíamos vários destacamentos, de sensivelmente um mês, e estive também     em     Mueda,     Tete     e     Vila Cabral     (Lichinga).     Antes     de     me meter a caminho tive um espécie de treino, uma preparação, para a nova condição de piloto-militar de helicópteros.

Quando     cheguei     a     Mueda,     no dia 10 de junho, estava uma parelha de jatos Fiat G-91 a descolar para uma missão de bombardeamento.     Saiu     bem     o     chefe     após uma corrida de descolagem vertiginosa. Olho para o fim da pista e aí está ele no ar. Entretanto, não vislumbro     o     asa     a      descolar     e     o pessoal começa a gritar: ‘Acidente! Acidente!’

Em vez do avião vejo uma nuvem imensa a subir no ar, que, a princípio,     penso     ser     de     fumo, mas depressa me apercebi ser de poeira. Corri até à pista, juntamente com outras pessoas, e vejo o     avião     fora     da     pista,     já     com     a poeira a assentar. Reparo então que o aparelho aterrara sobre as bombas de 100 quilos que levava sob as asas. Estava incólume. O chefe da parelha que descolara ficou     apreensivo     a     perguntar pelo asa, mas depressa foi informado que o seu camarada se encontrava bem. O chefe prosseguiu a missão sozinho, uma vez que teria de largar as bombas que levava sob as asas, não podendo aterrar com elas.

Quando tudo acalmou, o piloto do avião acidentado contou o que tinha acontecido. Na corrida de descolagem     levantou     cedo     demais a roda de nariz, devido a uma irregularidade da pista, e deveria ter baixado até atingir a velocidade indicada para o fazer. Ao tentar descolar a uma velocidade mais baixa, já com a roda de nariz no ar, o     avião     não     saiu     do     chamado ‘efeito     de     solo’,     continuando agarrado     à     pista.     Logo     que     se apercebeu de que não iria descolar, recolheu o trem e aterrou fora da pista, com as bombas a fazerem as vezes do trem. Que sorte não terem explodido!

Socorrer os feridos

O nosso trabalho – pilotos de helicóptero     –     prioritário     era     a     evacuação dos feridos em combate. Quando acionavam as minas ficavam     amputados,     era     uma     coisa tremenda.     Íamos     buscá-los     ao mato e às picadas, quando as colunas de transporte terrestre eram atacadas. Também abastecíamos as tropas estacionadas em lugares inacessíveis por via terrestre (os chamados ‘buracos’) de víveres frescos     e     de     ração     de     combate. Quando o Exército fazia uma operação,     por     exemplo,     se     atacava uma base da Frelimo, e depois os militares ficavam no local bastante tempo, era preciso serem reabastecidos. Levei barris de água a alguns locais, onde eles estavam sem beber há muito tempo – é impressionante a sofreguidão quando a sede é a sério.

Amigos     dos     Comandos     dizem que ficavam mais seguros só pelo facto de andarmos lá por cima, a voar.     Mas     os     helicópteros     também eram atacados quando lançávamos no terreno tropas aerotransportadas,     geralmente     comandos     e     paraquedistas.     Nessa altura, os aparelhos ficavam mais vulneráveis e, de vez em quando, aterravam todos furados.

Saíamos com alguma frequência e nalgumas missões várias vezes ao dia. Lembro-me de uma missão que foi do nascer ao pôr do sol. Sempre a abastecer e a levantar voo outra vez. Regressei a a Lisboa a 1 de julho de 1972.

Ex-combatente: Osvaldo dos Santos Francês

Moçambique (1970-72)

Piloto da Força Aérea

Tem 70 anos, é casado e tem uma filha

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