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Correio da Manhã

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“Sentíamos um medo constante”

Fomos mobilizados para Angola sem termos experiência de nada. A guerra, o terreno, o clima e o desconhecido eram ameaças terríveis
27 de Novembro de 2011 às 00:00
Estou à direita, com outro soldado, num quartel de Buco-Zau, na zona de Cabinda, onde o perigo estava sempre à espreita. Na foto vê-se a minha placa de identificação – era o que trazíamos sempre ao peito, para sermos reconhecidos em caso de acidente
Estou à direita, com outro soldado, num quartel de Buco-Zau, na zona de Cabinda, onde o perigo estava sempre à espreita. Na foto vê-se a minha placa de identificação – era o que trazíamos sempre ao peito, para sermos reconhecidos em caso de acidente FOTO: Direitos reservados

Fui mobilizado aos 21 anos, em cumprimento de serviço militar. Hoje reconheço que essa experiência teve um lado positivo, permitiu-me conhecer algo novo, outro continente, diferente de tudo o que estava ao alcance do meu olhar. Mas no momento da mobilização o receio foi grande. Não sabíamos o que iríamos encontrar e o que nos poderia acontecer. Era um sentimento comum a todos. Felizmente estou aqui, mas aquela experiência marcou-me bastante, mudou profundamente a minha maneira de olhar a vida.

Em Angola a situação estava difícil. Fui em 1964, passados apenas três anos do início do conflito e a tensão era constante. Tinha a missão de apontador de morteiro e, tal como outros da minha idade, nenhuma experiência. Recebemos apenas três meses de preparação, em Aveiro e Santa Margarida, e daí logo mobilizados.

Fomos directamente para Cabinda, para a zona da povoação de Prata, onde encontrámos condições deploráveis, dormíamos numa serração, comíamos o que calhava: arroz, grão, feijão frade, frango frito, esparguete. Depois, seguimos para outros locais, como Buco-Zau, etc. E as maiores dificuldades estavam ligadas ao terreno, diferente de tudo o que conhecíamos. Andámos muitas vezes perdidos, chegámos a estar duas horas em terreno que não era dominado pelos portugueses. A par disso, havia o temor do desconhecido, um calor a que não estávamos habituados e os insectos que não nos deixavam dormir. E tínhamos sempre a pressão do inimigo na cabeça.

Felizmente sofremos poucos encontros, mas sempre aconteceram alguns ataques. Lembro--me de duas situações marcantes: quando vi um colega todo cravado com estilhaços de granadas e outro acontecimento, num dia, em que fomos acordados às 02h00 para fazer escolta à engenharia. Quando chegámos ao local eles estavam mortos. Tinham sofrido um ataque. Pessoalmente, nunca passei por um grande susto, mas sentíamos um medo constante.

AMOR NA GUERRA

Reconheço que houve momentos bons, principalmente no Natal, na Páscoa, na passagem de ano, quando organizávamos festas, ríamos, bebíamos uma cerveja e até esquecíamos essa tal sensação de medo.

Tivemos muitos encontros com a população local, a quem distribuíamos material escolar e de saúde. Éramos sempre bem recebidos nas sanzalas. Lembro--me que o treino militar era intenso, saímos sempre em patrulha para descobrir os esconderijos e as zonas do inimigo, e que só vi Luanda quando aguardava o barco de regresso.

Angola ficou para sempre na minha memória. Gostei de conhecer, mas nunca pensei ficar por lá. Regressei a 16 de Dezembro de 1966. Estava tão feliz por voltar a casa que nem fiz o desfile em Lisboa. Tinha os meus pais à espera e vim logo para Espinho, onde estava preparada uma festa com o padre da freguesia. No dia seguinte, tinha duas praças de guarda à porta de minha casa para me levarem à prisão, por ter faltado ao desfile. Felizmente, o padre falou em meu apoio.

Voltar à vida civil foi um processo lento e difícil. Casei, em Outubro de 1967, com Cristiana, a minha madrinha de guerra. Fizemos a vida juntos, temos dois filhos, emigrámos para França. Agora, já reformados, voltámos a Espinho.

PERFIL

Nome: Alpoim Rodrigues Sabença

Comissão: Angola (1964-1966)

Força: Companhia de Caçadores 719 do Batalhão Caç. 721

Actualidade: Reformado, 64 anos. Casado e pai de dois filhos

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