Separados pelas vidas, unidos por ideais

O nacionalismo juntou um designer gráfico, um empresário na área dos recursos humanos e uma futura neurocirurgiã. Os três dizem que lutam pelo amor à pátria e dão a cara pela extrema-direita em Portugal.
22.04.07
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Separados pelas vidas, unidos por ideais
José Pinto Coelho Foto Dora Carvalhas
Parece haver pouco em comum entre um designer gráfico, de 46 anos, um empresário na área dos recursos humanos, de 33, e uma estudante de Medicina, de apenas 24. Mas José Pinto Coelho, Pedro Marques e Rita Vaz partilham a mesma ideologia: os três identificam-se com os princípios nacionalistas, defendem a tradição e a pátria e lutam contra a imigração descontrolada. Eles são a extrema-direita de Portugal.
Rita Vaz não foge ao estilo informal de qualquer outra jovem da sua idade. Veste calças de ganga, t-shirt e ténis e todas as semanas faz uma viagem de Lisboa à Covilhã para concretizar o sonho que trouxe da infância, ser neurocirurgiã. Paralelamente empenha-se na Política. Até quarta-feira à noite era a líder da Juventude Nacionalista, em Portugal, e deu a cara pela organização do maior evento nacionalista alguma vez organizado no País: uma conferência sobre o activismo nacionalista e um concerto de música. Com a operação da Polícia Judiciária – que culminou em 30 detenções e 60 buscas domiciliárias – Rita ponderou a posição no Partido Nacional Renovador e "por razões pessoais" demitiu-se do cargo.
Apesar da demissão, Rita mantém os ideais que descobriu aos 16 anos. Enquanto as colegas de escola liam as revistas da moda, a futura neurocirurgiã pesquisava os princípios de cada partido político para, assim que completasse 18 anos, votar no que mais se identificasse."Não encontrei nenhum. Sempre defendi o povo português, a tradição, as raízes e nenhum partido político do sistema satisfazia esses valores", referiu à Domingo.
Na internet encontrou um grupo de nacionalistas com quem se identificou. E, desde então, não tem deixado de participar nos eventos e nas divulgações em escolas do único partido de extrema-direita do País.
Mas assumir-se uma nacionalista "não é fácil". Quando disse aos pais que integrava um grupo de extrema-direita eles não aceitaram. "Apresentei-lhes as pessoas, inclusivamente o presidente do partido, José Pinto Coelho, e eles ficaram mais descansados", disse. Esta semana, Rita não conseguiu ceder à pressão e acabou por deixar de dar a cara. "Dou muito valor à minha carreira profissional e não posso prejudicar-me", alegou.
A família e o trabalho não têm sido um problema para o empresário Pedro Marques, de 33 anos. Este, consultor e gestor de recursos humanos, conheceu o PNR em 2005 através da internet. Não hesitou em preencher a ficha de inscrição e fazer logo a transferência do valor das quotas.
Nunca se preocupou com o facto de no partido haver um grande grupo de militantes que são skinheads e integram a Portuguese Hammerskin – uma organizção violenta com raízes americanas, em que uma das regras de entrada é cometer um crime. "Os nacionalistas podem ser skins, punks, rockabillys, qualquer um", afirma.
Em família discute os princípios nacionalistas que contrapõe aos socilistas de outros familiares. E conseguiu convencer a mãe a trocar a Esquerda pela Direita. Actualmente o empresário é o secretário-geral do PNR e braço de ferro do presidente, José Pinto Coelho.
 Há pouco mais de um ano com a mudança no PNR, José Pinto Coelho deixou de ter tempo para as aulas de Artes Gráficas. O actual presidente do PNR chegou a estudar Direito na Universidade Católica, mas descobriu mais jeito nas Artes.
Pinto Coelho diz que sempre se considerou um nacionalista. Tinha 13 anos quando aconteceu a Revolução do 25 de Abril e viu o pai, arquitecto, ficar desempregado. Emigrou para o Brasil com a família em busca de trabalho. Hoje critica a "imigração desgovernada". "A imigração sempre existiu, mas em Portugal e na Europa estamos a ser alvo de uma invasão que vai resultar numa substituição populacional." "A culpa não é do imigrante é do governante, de um capitalismo selvagem", afirma.
O líder do PNR ainda integrou o grupo de extrema-direita criado pelo general Kaúlza de Arriaga, o Movimento para a Independência e Reconstrução Nacional (MIRN), e o já extinto Partido da Democracia Cristã (PDC). Hoje dá a cara pelo PNR, criado em 2000, mas "que só há um ano deixou de ser um partido tímido para ser um partido de rua".
ASSOCIADOS À VIOLÊNCIA
Alguns dos skins detidos na mega-operação da PJ – desencadeada quarta-feira por todo o País – são militantes do PNR. Não é a primeira vez que o partido de Pinto Coelho, cuja sede também foi alvo de buscas, está associado à prática de crimes como tráfico de armas e discriminação racial. Mário Machado, líder do movimento de extrema-direita Frente Nacional, já esteve preso pelo envolvimento na morte de Alcino Monteiro, espancado no Bairro Alto, em 1995. Também já foi detido por extorsão, num processo que data de 2003, posse de armas ilegais e agressão. Esta semana foi acusado de um outro crime, o de discriminação racional. Ele e, pelo menos, outros dez skins militantes do PNR. Pinto Coelho desvaloriza os processos, diz que não passam de “perseguição política”.
A EXTREMA-DIREITA NA EUROPA
PORTUGAL
O Partido Nacional Renovador, liderado por Pinto Coelho desde 2000, conseguiu dez mil votos nas últimas eleições.
A Juventude Nacionalista era liderada até quarta-feira por Rita Vaz, uma estudante de Medicina. Dedica-se à organização de eventos e ao recrutamento de jovens.
FRANÇA
A Front National, liderada por Jean-Marie Le Pen, é o maior partido de extrema-direita na Europa. Em 2002, os franceses foram surpreendidos com os resultados das eleições presidenciais: o FN chegou à segunda volta.
BÉLGICA
Vlaams Belang conseguiu, no ano passado, obter mais de 30 por cento dos votos na zona de Antuérpia. É liderado por Philipe de Winter.
O Nation é liderado por Laethen e composto por grupos de skinheads. O líder cumpre dez anos de cadeia pelo crime de propaganda racista.
ALEMANHA
No ano passado, o NPD, liderado por Udo Voight, conseguiu representação no parlamento com 7,3 por cento dos votos na região de Pomerânia.
A JN tentar libertar-se da imagem violenta dos nacionalistas. No primeiro semestre de 2006, elementos da extrema-direita praticaram oito mil crimes no país.
REINO UNIDO
O British National Party é liderado por Nick Griffin – acusado e ilibado de xenofobia – e nas últimas eleições arrecadou 10 mil votos.
ROMÉNIA
Noua Dreapta, sobre o punho de Nicolae Calota, começa agora a ganhar relevância entre os outros partidos.
ESPANHA
A Alianza Nacional foi criada em 2006. Os líderes Iñigo Urquijo e Pedro Peña, presos por posse de armas ilegais, defendem a nação, a raça e o socialismo.
A Democracia Nacional é dirigida por Manuel Canduela, um extremista espanhol associado à violência e que já esteve preso.
SUÉCIA
A Nordic Alliance, sem símbolo nem líder conhecido, defende a pureza da raça branca e a recuperação de valores vickings.
ITÁLIA
Roberto Fiore está à frente do movimento Forza Nuova (FN). Fugiu do país para escapar a uma pena de prisão.
Roberto Belivacqua, líder da Fiamma Tricolore, colabora com Le Pen na implementação da extrema-direita na Europa.
ÁUSTRIA
Em 2002, o FPO alcançou o governo em coligação com o Partido Conservador. Jorg Haider, antecessor de Heinz-Christian Strache, com 27% dos votos.
SUÍÇA
O PNOS é o movimento de extrema-direita suíço. Já reuniu 800 simpatizantes num evento.

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