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Correio da Manhã

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SEPARADOS: TUDO BONS RAPAZES….

Têm 30, 40 ou 50 anos e um passado pautado por rupturas amorosas. Muitas vezes trazem filhos pela mão. Como é a vida a solo? Retrato dos divorciados à portuguesa.
28 de Setembro de 2003 às 14:32
João Areias dos Reis, 40 anos, empresário, possui no seu ‘curriculum’ um divórcio e dois filhos: João, com 11 e o Duarte, com 7. “Só me casei uma vez, embora o meu filho mais velho seja fruto de uma relação que tive antes de me casar”, conta. Em 1995, João tinha 32 anos e decidiu ‘dar o nó’. Casou pela Igreja em Fevereiro e, nesse mesmo ano, no mês de Outubro, fez as malas e foi para França tirar um mestrado. “A minha mulher foi-me visitar duas ou três vezes”, recorda. No entanto, esta união, da qual nasceu uma criança, terminou rapidamente. “Na prática estive casado pouco tempo e nunca vivi o casamento a 100% pela distância que nos separava”, revela. Os anos que se seguiram não foram fáceis. “Tentei reatar a relação mas, não consegui”, confessa.
Para João, o pior não foi confrontar-se com uma casa vazia — até porque desde muito jovem estava habituado a viver sozinho — nem tão pouco entrar para o ‘Clube dos Divorciados’. O seu grande desafio foi conseguir gerir o tempo de forma a aproveitar ao máximo o seu papel de pai. “A minha vida profissional foi sempre propositadamente condicionada no sentido de poder estar com os meus dois filhos. E faço questão de estar com eles ao mesmo tempo. Penso que é importante para eles conviverem o mais possível um com o outro”, realça.
ALMA GÉMEA
O sociólogo norte-americano Sandy Burchest afirma que, para as pessoas serem felizes, necessitam de quatro casamentos: o primeiro é o chamado ‘the breaker marriage’. Ou seja, funciona como um casamento de arranque e é onde se sentem as primeiras crises conjugais. Depois, existe o ‘parenting marriage’, que simboliza a relação onde nascem os filhos. Segue-se o ‘self marriage’, ou matrimónio egoísta e focalizado nas próprias necessidades. Finalmente, quando uma pessoa atravessou todos estes ‘géneros’, chega ao quarto casamento, o ‘soul mate connection’ que designa o encontro da alma gémea e a fase da vida em que, finalmente, se encontra a ligação perfeita.
Vítor Quelhas, 57 anos, jornalista, já passou por diversas fases. Entre casamentos e uniões de factos, na bagagem afectiva transporta cinco separações, três filhos de uniões distintas e dois netos. Para o professor José Gameiro, especialista em terapia familiar (ver entrevista), Vítor Quelhas enquadrar-se-ia na ‘categoria’ dos “grandes amantes do casamento”. “Essa história do namoro nunca funcionou comigo”, conta Vítor.
“A minha primeira mulher é brasileira. Conheci-a no Brasil. Estávamos em pleno período de Ditadura Militar e ela vivia clandestina. Eramos amigos e, um dia, numa peça de Brecht, olhámos um para o outro e eu disse-lhe: ‘temos que resolver isto’”, recorda. E assim foi, três semanas depois tinham arranjado uma casa e estavam a viver juntos. Mais tarde, casaram em Paris, nasceu Tiago, — actualmente com 32 anos e pai de duas crianças — e, ao fim de cinco anos de vida em comum, separaram-se. “Foi em Paris que a nossa relação entrou em crise, começámos a ter mundos diferentes”, conta Vítor, prosseguindo: “Todas as minhas separações tiveram como pano de fundo crises extruturais e nunca a existência de uma terceira pessoa”. Depois desta mulher, veio outra relação ‘sem namoro’. “Conhecemo-nos e às tantas juntámos os trapinhos”. Dessa ‘junção’, nasceu Dinis, hoje com 23 anos. “Este casamento durou oito anos”, revela. Mais uma separação, e eis que Vítor junta novamente os trapinhos, desta feita com uma bailarina. Dois anos depois, outra vez o regresso à vida a solo. “Entretanto, reencontrei uma velha amiga e também decidimos acertar agulhas”, revela, entre risos. E nasce mais uma criança: o Pedro, actualmente com 12 anos. A união durou seis anos mas, pouco tempo depois, o protagonista desta história atribulada voltou a ‘montar casa’ com outra mulher. A ‘coisa’ durou 10 anos e, desta feita, não nasceram crianças. Uf!
JOGO E BEBIDA
“Na maior parte dos casos, quando as pessoas se divorciam as coisas não deixam de funcionar, ou seja, as pessoas mantêm a sua vida e os seus empregos”, afirma José Gameiro (ver entrevista). No entanto, nem todas as separações são ‘fáceis’ de ultrapassar e, muitas vezes, os homens recorrem a escapes pouco saudáveis. Pedro Sousa, 46 anos, advogado, dois divórcios, sem filhos mas com o desejo latente de ser pai, confessa: “Quando me separei da minha segunda mulher, demorei muito tempo até compreender onde tinha errado. E, enquanto os meus amigos passavam os fins-de-semana em família, eu sentia-me sozinho. Comecei a trabalhar até tarde e vi-me envolvido num esquema de loucura absoluta que envolvia jogo, copos, noitadas e relações ‘descartáveis’ com miúdas.”. Pedro vai mais longe ao admitir, com um brilhozinho nos olhos: “libertei-me dos vícios e sinto-me bem como divorciado.”
O CABO DAS TORMENTAS
Rui Guerreiro, 36 anos, gestor de produto recorda a sua longa epopeia. “Casei aos 25 anos, depois de namorar um ano e tal. Estávamos convictos de que era aquele o nosso caminho. No final do primeiro ano de namoro o nosso amor era tão grande que extravasava qualquer dimensão. Ou seja, não nos casámos por capricho mas por amor”. Tal como manda a tradição, fizeram juras perante Deus e prometeram amar-se até ao final dos seus dias. No entanto, ao fim de um ano de vida a dois — e com uma criança a caminho —, as coisas começaram a correr menos bem. “Tivemos entre seis meses a um ano de felicidade, tal como tínhamos no namoro. A partir daí, foi o cabo das tormentas”, lamenta Rui que, mesmo assim, continuou mais dois anos casado. “Um dia, ela decidiu que tínhamos que nos separar. O nosso filho – o Francisco, hoje com 11 anos – tinha três anos e o meu sofrimento máximo foi ter que deixar de privar com ele diariamente”. Os anos passaram e Rui Guerreiro teve vários outros relacionamentos mas ainda não encontrou a ‘tal’ mulher com a qual possa refazer a vida. “Vivo a 100% o meu papel de pai e sinto que estou a viver uma fase em que estou completamente disponível para amar”.
UM HOMEM NÃO DEIXA A MULHER
O jornalista e autor francês Philippe Lemoîne, no seu livro ‘Sorria, Está Divorciado’, afirma que “quando as coisas correm mal num casamento, o homem não deixa a mulher. Espera que ele o deixe”. Este autor, divorciado duas vezes, vai mais longe ao afirmar que “é sempre ao fim da tarde que os casais se maltratam e à noite se separam”.
Ramón de Mello, 33 anos, fotógrafo e empresário, tem um percurso de vida, no mínimo singular, e que contraria a tese de Philippe Lemoîne. Aos 28 anos conheceu Joana. Começaram a namorar em Janeiro, decidiram viver juntos e, em Dezembro desse mesmo ano, casaram pela Igreja. “Foi um casamento misto porque eu não sou baptizado”, recorda Ramón. Ao fim de ano e meio, e com um filho de meses (hoje o Baltazar caminha para os quatro anos), ele decidiu sair de casa. Hoje em dia, têm uma relação harmoniosa.
“A minha ‘ex’ é muito porreira e facilita-me sempre ao máximo para eu poder estar com o Baltazar”, admite. Entretanto, Ramón teve uma série de outros relacionamentos e nunca sentiu aquilo a que a psiquiatria designa de ‘luto’, ou seja, a fase de tristeza e de raiva que, em alguns casos, sucede a um divórcio. Há pouco tempo, foi pai novamente. “Tive uma namorada mas a relação terminou em Dezembro. Ela estava grávida e, obviamente, assumi a criança”. Na brincadeira, os amigos dizem que ele se apaixona facilmente. Ramón responde a rir: “Se calhar tenho muitas relações. Mas quando me envolvo com uma mulher, envolvo-me mesmo. Pode é durar um mês!”. E salienta ainda que “mesmo tendo muitas namoradas, é uma de cada vez!”.
Aos 33 anos, o fotógrafo diz estar preparado para ‘assentar’. “Para mim, é frustrante não criar os meus filhos a tempo inteiro. Tenho uma vida porreira, vivo sozinho mas gostava de voltar a casar e de construir uma família”.
APRENDER A SER PAI
Manuel Bastos, bancário, 39 anos, confrontou-se com um admirável mundo novo a partir do momento em que a separação foi um dado adquirido. Com três filhos pequenos e uma vida profissional intensa, sentia-se uma ‘barata tonta’ quando chegava a casa e a encontrava vazia, ou quando passava os fins-de-semana com as crianças. “Arranjei uma empregada que me deixava o jantar feito e, confesso, comia muitas vezes fora. O pior era aos fins-de-semana, quando tinha os três pequenos comigo”, recorda. “Reconheço que aprendi a ser pai depois de me separar e que me aproximei muito dos meus filhos”.
Se, para Manuel Bastos foi quase necessário separar-se para aprender a ser pai, o mesmo não aconteceu com João Areias dos Reis. “Depois de me divorciar a minha maior preocupação era ter tempo comum para os dois e admito que eles passam 40 por cento do tempo comigo. Sinto que sou um pai muito mais presente do que alguns amigos meus casados que só conseguem ver as crianças de raspão. Não abdico das nossas noites semanais, dos fins-de-semana e das férias. Ainda agora estivémos os três no Brasil...”, conta.
Também Vítor Quelhas mantém uma ligação próxima aos seus três filhos e, em particular do mais novo, que é quem precisa de mais atenção. “Todos os dias, depois do trabalho, estou pelo menos uma hora com o meu filhote mais novo, que tem 12 anos”, revela. Ramón de Mello e Rui Guerreiro, os outros entrevistados, também demonstraram ser pais muito atentos. Em comum, todos estes homens possuem o nobre facto de, em circunstância alguma, abdicarem do seu papel de pai. Tudo o resto — como a lida da casa ou o saber cozinhar — são pequenas facetas do quotidiano que ultrapassaram com relativa facilidade. E se assim não for, haja paciência.
O GALÃ DO PSD PEDRO SANTANA LOPES, 47 ANOS
No currículo amoroso do presidente da CML, constam três casamentos, três divórcios, cinco filhos e vários romances, entre os quais com Cinha Jardim, da qual se separou — de forma pouco pacífica. Em 2001 começou a aparecer publicamente na companhia de Catarina Flores, mas, em Julho deste ano, cada um terá seguido o seu caminho. Ao que tudo indica, aquele que é um dos políticos mais cobiçados da nossa praça, está novamente ‘livre’. Ouviram?
O IRREVERENTE GNR RUI REININHO, 44 ANOS
Deu voz ao tema ‘Homens temporariamente sós’ e agora é um deles, não se sabendo, todavia, por quanto tempo. Rui Reininho, vocalista dos GNR, foi casado com Alexandra Leite — actriz habitual no programa ‘Os Malucos do Riso’, da SIC. Dessa união nasceu um filho – António, hoje com oito anos — mas entretanto o casal divorciou-se e o homem com ‘Pronuncia do Norte’ é mais um dos residentes do clube dos divorciados. Eis um tímido que disfarça bem...
O MENINO BONITO DA BOLA NUNO GOMES, 26 ANOS
Este Verão, o avançado do Sport Lisboa e Benfica também passou a fazer parte do clube dos divorciados. Casado desde os 20 anos com Esménia — de quem tem uma filha, Laura Sofia, de três anos —, o craque do clube da luz, hoje com 26 anos, e a mulher puseram um ponto final numa das relações mais duradouras do futebol luso. As fãs que se cuidem porque o menino bonito — que chegou a ser considerado um dos mais ‘sexy’ no Europeu de Futebol’ — anda por aí.
O SENHOR AMBIENTE JOSÉ SÓCRATES, 46 ANOS
José Sócrates, ex-ministro do Ambiente e Ordenamento do Território nos governos de António Guterres, também não escapou à separação. Pai de dois filhos, adolescentes, desde que se separou que o actual deputado e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS — e Secretário Nacional do Partido — não assumiu mais nenhuma relação amorosa. Embora se tenha falado num caso com uma jornalista do grupo Lusomundo.
O HOMEM DO ‘DNA’ PEDRO ROLO DUARTE, 39 ANOS
Depois de um longo casamento, Pedro Rolo Duarte, director do ‘DNA’, separou-se em 2001 de Cristina Coutinho, da qual tem um filho, António Maria, de 7 anos. O cronista reencontrou o amor ao lado da apresentadora de televisão Ana Marques, uma das caras da SIC Mulher, mas o romance — que fez as delícias das revistas cor-de-rosa durante o Verão chegou ao fim. O que quer dizer que ele está livre...
COMO ULTRAPASSAR A SEPARAÇÃO?
O especialista em terapia familiar José Gameiro (ver entrevista), deixa uma série de conselhos que ajudam a ultrapassar uma ruptura amorosa.
1.Evite estar sozinho. Saia com os amigos.
2.Arranje um passatempo (leitura, desporto, etc).
3.Procure socializar-se. Se tem filhos, marque programas com outras pessoas que também tenham os filhos aos fins-de-semana.
4.Não se isole. Se tiver tendência para se isolar, tente contrariá-la.
5.Se for possível, expanda a sua rede social. Caso não seja, pelo menos mantenha a que já existe.
6.Depende de cada um mas, geralmente, quando as pessoas se separam têm tendência a envolver-se rapidamente com outros. Deixe passar algum tempo antes de um novo envolvimento.
7.E, principalmente, viva o dia a dia. Cada dia é um dia e depois logo se vê. Podem acontecer coisas boas...
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