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Serge Gainsbourg: sexo, álcool, tabaco e rock

Provocador, era um mestre da metáfora nas suas canções eróticas
João Pedro Ferreira 22 de Setembro de 2019 às 11:00

Lucien Ginsburg, conhecido pelo nome artístico Serge Gainsbourg (1928-1991), foi um poeta, cantor, compositor, pianista, ator, guionista e realizador de cinema que deixou um rasto de escândalo e provocação na literatura e na música francesas da segunda metade do século XX. A sua poesia - e as letras das canções que compôs para si e para outros intérpretes - usava e abusava do humor.

A ironia, a metáfora e os jogos de palavras foram as ferramentas com que burilou poemas eróticos em que, sem recorrer a um único palavrão, descreve a masturbação feminina (‘Variations sur Marilou’) ou o sexo oral (‘Les Sucettes’). Neste último caso, a intérprete, France Gall (1947-2018), disse durante muitos anos que nunca se deu conta das insinuações sexuais da letra.

O seu maior êxito, porém, foi ‘Je t’aime... moi non plus’, de 1969, um dueto com Jane Birkin (então sua mulher) entrecortado de gemidos, em que reproduz o ato sexual. Em Portugal, para contornar a censura do regime, as rádios passavam a versão instrumental do disco - indispensável, na versão integral, em todas as festas de adolescentes.

Gainsbourg, nascido numa família de judeus ucranianos, cultivava a imagem do artista ‘maldito’, aparecia em entrevistas e eventos sociais (incluindo uma receção no Palácio do Eliseu, a convite do presidente Mitterrand) de barba por fazer, a fumar cigarros Gitanes e frequentemente alcoolizado. Voltou a escandalizar quando gravou uma versão reggae do hino francês.

Trad. da letra da canção ‘Je t’aime... moi non plus’

‘Amo-te... eu também não’

"Amo-te, amo-te, sim amo-te

Eu também não

Oh meu amor

Como a vaga hesitante

Eu vou, vou e venho

Entre os teus rins

E retenho-me

 

Amo-te, amo-te, sim amo-te

Eu também não

Oh meu amor, tu és a vaga

Eu a ilha nua

Tu vais e tu vens

Entre os meus rins

E eu acompanho-te

 

Amo-te, amo-te, oh sim, amo-te

Eu também não

Oh meu amor

O amor físico é um beco saída

Eu vou, vou e venho

Entre os teus rins

Vou e venho, retenho-me

Não

Agora vem"

 

Trad. da letra da canção

‘Les Sucettes’

‘Os chupa-chupas’

Annie gosta de chupa-chupas

Os chupa-chupas de anis

Os chupa-chupas de anis

Da Annie

Dão aos seus beijos

Um gosto anisado

Quando o açúcar de cevada

Perfumado com anis

Corre pela garganta da Annie

Ela está no paraíso

Por alguns ‘pennies’

Annie tem os seus chupa-chupas

De anis

(…) Os chupa-chupas de anis

Da Annie

Dão aos seus beijos

Um gosto anisado

Quando ela já só tem na língua

O pauzinho

Ela junta as pernas ao corpo

E…"

 

Trad. da letra da canção ‘Variations sur Marilou’

‘Variações sobre Marilou’

"(…) Pupilas ausentes, íris de absinto,
‘baby doll’

Escuta os seus ídolos, Jimi Hendrix, Elvis Presley, T-Rex, Alice Cooper,

Lou Reed, é doida pelos Rolling Stones

Lá de cima, qual narciso, mergulha
deliciada

Na noite azul-petróleo do seu par
de ‘Levi’s’

Chega ao púbis e muito ‘cool’ a saber
a mentol

Ela exerce o ‘self control’ no seu pequeno orifício

Enfiando, por fim, o vício até à borda
do cálice

Afastando a corola com um dedo
‘sex symbol’

Com um fundo de ‘rock and roll’ perde-se a minha Alice

No país das malícias de Lewis Carroll"

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