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Sérgio Godinho: “Se tivesse medo da crítica comprava um cão"

‘Estocolmo’ é o mais recente romance de Sérgio Godinho. Conta a história da relação entre um cativo e a sua captora.
Fernanda Cachão 20 de Janeiro de 2019 às 09:00
Sérgio Godinho
Sérgio Godinho FOTO: Rita Carmo

Diana Albuquerque é pivô do telejornal das oito, Vicente é um universitário que acaba refém no quarto que ela lhe arrenda. A relação entre as duas personagens depressa se torna ambigua.

"De repente, ela puxou-o para si, beijou-o num ímpeto, fê-lo cair no sofá.

‘Hoje és todo meu, percebes? Vais fazer amor comigo, vais-me foder e eu vou foder-te de volta.’

Beijava-o.

‘Amanhã tens a tua Raquel de volta, jingle bells. Espero que ela te beije tão bem quanto eu.’

Abriu-lhe as calças, tirou-lhe o sexo já duro, chupou-o e beijou-o. Ele fincou-lhe as mãos nos cabelos e afastou-lhe a cabeça."

O último romance de Sérgio Godinho, ‘Estocolmo’ (ed. Quetzal), não cabe portanto na estante da literatura de viagens. A entrevista com o autor de uma história ambigua.

‘Estocolmo’ afinal não tem como pano de fundo a cidade sueca mas é antes sobre a síndrome de Estocolmo, o estado psicológico em que a vítima não se consegue libertar do seu captor. Como lhe ocorreu esta ideia?

Mais do que não conseguir libertar-se, a vítima cria uma relação ambígua e perturbante de amor-ódio com o captor. No caso desta história, inverti o padrão mais frequente, que é o de um homem mais velho raptar uma rapariga. Aqui, é uma mulher de 40 anos que se envolve com um rapaz de 20, e acaba por o raptar.

A relação entre Diana e Vicente domina o livro e naturalmente a questão sexual é descrita. É fácil escrever sobre sexo? Nunca receou cair no grotesco ou no cliché? Nunca receou a crítica dos outros?

É sempre um assunto delicado, para mais num caso tão extremo. Um equilíbrio difícil entre o explícito e o sugerido. Mas quanto à crítica dos outros, se tivesse medo, comprava um cão. E não me dá jeito nenhum ter um cão…

Qual a melhor cena de sexo na literatura portuguesa?

Só posso dizer que li aos 13 anos ‘O crime do padre Amaro’ [Eça de Queiroz], e há cenas verdadeiramente eróticas que ainda hoje me perduram…

Porque é que escolheu esta relação de idades, 20, 40 e depois 60, a mãe da captora?... O rapaz, a dominadora e a sexagenária que o salva?

Porque corresponde, simbolicamente, ao tempo de uma geração. Fez sentido.

É músico, escritor de canções, poeta, já fez filmes, já foi ator. Este é o seu segundo romance. Ser escritor de romances não foi então uma atividade extemporânea?

De maneira nenhuma, tornou-se mesmo essencial na minha vida criativa. Sempre a par da vida musical, claro. Seja em palcos, seja compondo. A música é uma respiração especial para mim. Mas tinha experimentado vários contos infantojuvenis, com grande prazer, e, sem dar por ela, descobri uma continuidade na escrita, digamos, para adultos. O certo é que escrevi em sequência um livro de nove contos, ‘Vida dupla’, e a seguir o primeiro romance, ‘Coração mais que perfeito’, e depois este, ‘Estocolmo’. Vou continuar na ficção, não tenho dúvidas, embora possa também ocupar alguns caminhos autobiográficos.

É natural que quem escreveu, por exemplo, ‘Alice no País dos Matraquilhos’ ou ‘A noite passada’ e tantas outras, acabe por precisar de papel para contar as histórias que antes cantava?

A vontade narrativa sempre existiu nas minhas canções. Contei histórias, dei o nome a muitas personagens, fiz, por assim dizer, outros esboços de fluxos ficcionais. Faz parte, faz tudo parte.

Sente-se escritor?

Sinto-me o tradutor de mim mesmo (para o bem e para o mal). A pensar e a sentir e a criar.

Quanto tempo levou a escrever ‘Estocolmo’?

Um ano, e depois uma interrupção, e depois mais de um ano. Foi também um trabalho de desbastagem. O que é que está a mais? É importante reescrever, e, se for necessário, eliminar.

É verdade que a vida acaba por ser de alguma forma uma espécie de jaula como a certa altura refere uma das personagens?

Não precisa de ser, mas todos nós criamos, de uma forma ou de outra, as nossas pequenas (ou grandes) prisões…

Está com 73 anos. O que lhe falta fazer?

Oh, sempre tanta coisa… Continuar a vida com prazer e exigência para comigo mesmo. E conhecer outros países.

Sérgio Godinho Estocolmo Quetzal
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