SÉRIES: MEMÓRIA DA TV EM EPISÓDIOS

Quem matou JR Ewing? Quem roubou a vida à Laura 'Twin Peaks' Palmer? Pode a vida sexual de uma trintona alimentar uma história? Pode uma família amarela prender ao ecrã? E a ocupação nazi fazer rir? Sim.
14.09.03
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Uma das séries com maior sucesso dos anos 80, 'Dallas', vai ser adaptada para o cinema. Só isso demonstra como a memória de uma das épocas de ouro das séries que prendiam milhões de pessoas ao pequeno ecrã, nas sete partidas do mundo, não desapareceu. Ainda não se sabe quem interpretará o papel de ‘JR Ewing’, que Larry Hagman encarnou durante os cerca de 350 episódios que acompanhámos em Portugal enquanto roíamos as unhas para saber que intrigas ele tinha maquinado entre dois sorrisos. E no episódio em que iríamos descobrir quem matou ‘JR’, o mundo literalmente parou. E pediu a repetição, para ver os pormenores. Da mesma forma que, depois de ter sido anunciado o fim dos 'Sopranos', surge agora a notícia que é muito provável que venha a ser produzida a sexta série de episódios. O canal de cabo HBO não se esquece que a saga do mafioso ‘Tony Soprano’ foi a principal responsável pelo crescimento do seu número de assinantes.
Estes dois exemplos, espaçados por duas décadas, mostram como as séries continuam a ser dos programas que mais fidelizam espectadores que, uma vez por semana, esperam impacientemente pela sua série favorita. Os conteúdos das séries mudaram ao longo dos anos e comparar, por exemplo, 'Viver no Campo' com Eva Gabor (que está ser repetida na RTP2), com a sua ambiência rural norte-americana típica dos anos 50 e 60 e ‘NYPD Blues’ é quase impossível. Mas é isso que faz parte do seu fascínio, do culto que à volta de algumas se criou.
ANTES DE CHEGAR A BRIDESHEAD
Os portugueses sempre foram muito marcados pelas séries americanas, que a partir dos anos 60 marcaram o ritmo das nossas noites televisivas. Algumas vezes séries francesas, brasileiras ou inglesas (quem não se lembra de algumas da BBC ou da Granada Television, nos anos 80, como 'Reviver o Passado em Brideshead' e 'A Jóia da Coroa'?), marcaram épocas, mas foram as americanas que ficaram na memória. Ainda haverá quem se recorde 'O Santo' (com o novíssimo Roger Moore), 'O homem da U.N.C.L.E.' ou esse sucesso que foram 'Os Vingadores', com o muito britânico Patrick McNee e Diana Rigg, que marcaram um dos momentos fortes da produção britânica em plenos anos 60. Os americanos respondiam à sua maneira com o universo dos rancheiros ('Bonanza' ou 'Chaparral'), das aventuras mais ou menos exóticas e familiares ('Lassie' 'Daktari' ou 'Casei com uma Feiticeira'), ou mesmo de antecipação científica, como 'Star Trek'.
CHAMBERLAIN OU PETER FALK?
Nos anos 70 continuaram as sagas típicas das duas décadas anteriores. Os públicos eram os mesmos e os jovens nascidos nos anos 50 e 60 estavam entretidos com a música 'pop' e 'rock'. Houve momentos, claro, que ficaram na memória. Quem é que perdia um episódio daquele detective interpretado por Peter Falk, que parecia ser incapaz de resolver algum crime, com o era 'Columbo'? E quem é que não estava apaixonado pelos assuntos da medicina com Richard Chamberlain em 'Dr. Kildare'? Mas a televisão começava a piscar o olho aos mais novos através de séries que falavam dos ritmos de quem se interessava pela música 'pop', como “A Família Partridge”. Um género que, nos anos 80, se alargaria com 'Fame', a célebre academia de músicos e actores que procuravam a ribalta. O mundo fora da Terra continuava a hipnotizar as televisões, como em 'Espaço 1999', sobre a colonização da Lua, onde as roupas que Martin Landau e os seus subordinados utilizavam nos parecem hoje ridículas. A série fez época mas não se tornou um culto, como 'Star Trek'.
Os anos 80 foram de verdadeira revolução. Não só os meios técnicos melhoraram a olhos vistos, permitindo séries mais arrojadas, como os argumentos se tornaram mais sérios e substanciais. Numa Inglaterra saudosa do Império, a Granada produzia duas referências televisivas: 'Reviver o Passado em Brideshead', segundo um romance de Evelyn Waugh, e 'A Jóia da Coroa', o fim do 'raj' indiano segundo o livro de Paul Scott. Ainda hoje apetece revê-las tal o cuidado posto no argumento e na recriação histórica. Ao mesmo tempo surgia “Sim, Sr. Ministro”, uma das mais corrosivas séries sobre o mundo da política de que há memória. Na mesma lógica surgiram depois séries inglesas onde o humor ácido é um grande trunfo: 'Monty Phyton', 'Allô, Allô', 'Black Adder', 'Fawlty Towers' ou a recente 'A Minha Família'. Mas era nos Estados Unidos que se preparavam as grandes alterações: não falemos, claro, do idílico 'Barco do Amor', nem das sagas 'Dallas', 'Falcon Crest' ou 'Dinastia', cujos tenebrosos dramas familiares mostravam um mundo onde nada era inocente.
CAPITÃO FURILLO, EM NOME DA ORDEM
As séries policiais trouxeram o realismo. Tudo muito por culpa de 'Hill Street Blues' (transmitida na NBC entre 1981 e 1987, foi traduzida, e mal, em português, para 'A Balada de Hill Street'). A série de Steven Bochco, com o ‘capitão Furillo’, trouxe os polícias para as ruas não muito agradáveis das grandes cidades. Os anos 80 foram uma forma de se baralharem de novo as cartas da ficção e de não saírem os mesmos trunfos. Já nem se fala da série de animação 'Max Headroom', que anunciaria a época da virtualidade na televisão, ou mesmo de 'Os Simpsons', com a sua ironia ácida em animação desenhada.
Mas nos Estados Unidos o surgimento da Home Box Office (HBO), da Fox e da CNN marcaria um novo ritmo para as televisões. 'Modelo e Detective', com Cybill Sheperd e Bruce Willis, tornar-se-ia uma série de culto para os então emergentes 'yuppies' e 'Cheers', o célebre bar, tornou-se um local onde todos gostariam de ir ao fim da tarde. Isto para já não falar de 'Thirtysomething' (transmitida entre 1987 e 1991 na ABC), que procurava ir ao encontro dos 'yuppies' que tinham vergonha de se olhar ao espelho. Surgiram, claro, séries que apenas tentavam atingir o mais vasto público, fosse pela beleza das actrizes ('Os Anjos de Charlie'), pela delirante conversa entre um homem e o seu carro ('Night Rider' com David Hasselhoff), pela lógica da invasão extra-terrestre ('V'), pelo charme dos detectives ('Miami Vice' com Don Johnson), pela pura acção ('The A-Team' com George Peppard e o musculoso ‘Mr. T’) ou pelo simples delírio ('Alf'). Ao mesmo tempo que inovava, os anos 80 reencontravam os velhos conceitos.
LAURA PALMER VERSUS ALLY MCBEAL
Nos anos de transição para aquilo que foi a grande escola dos anos 90 (e que bebeu muito em 'Hill Street Blues'), a grande pedrada no charco foi 'Twin Peaks', a surreal série criada por David Lynch e Mark Frost, o folhetim alucinante, com o ‘agente Dale Cooper’, que se tornou um verdadeiro culto. Novos modelos surgiam e muitos deles nos novos e emergentes canais por cabo, a começar pela HBO. Uma das séries que fez muito sucesso foi 'Sexo e a Cidade', inspirada no livro de Candace Bushnell, a crónica ácida do quotidiano de quatro amigas nova-iorquinas que ciclicamente tentam resolver as suas dúvidas amorosas. Uma série que tem pouco a ver com 'Friends'. Em 'Sexo e a Cidade' não se tem medo das palavras, e Sarah Jessica Parker fez o grande papel da sua vida de actriz. ‘Ally McBeal’ (de David E. Kelley, um dos grandes criadores de séries dos anos 90), jovem advogada frágil de Boston, com Calista Flockhart, seguiu-lhe as pisadas e o êxito.
E mesmo a área policial realista não escapou às televisões. 'NYPD Blues' (de Steven Bochco e David Milch) marcou o ritmo da ligação ao passado recente. Aqui as angústias dos polícias na vida profissional misturavam-se com as da vida pessoal. Em Portugal, surgiu na SIC a horas pouco próprias e viria a passar depois para a SIC Radical. Foi aqui que encontrámos um grande actor: Dennis Franz. Outras séries que giravam à volta da lei e da justiça surgiram e a generalidade delas puderam ser vistas em Portugal: 'The Practice', 'Law and Order' ou 'Profiler' criaram núcleos de fãs. Noutras áreas surgiram 'Seinfeld', 'Will & Grace', 'Jack e Jill' ou 'Buffy'. Divertidas e inteligentes. E há, claro, 'Marés Vivas', o regresso ao sonho da liberdade e do prazer americano, com as nadadoras-salvadoras que todos gostariam que nos fossem tirar das ondas...
A MÁFIA SEGUNDO TONY SOPRANO
Claro que os anos 90 trariam algumas séries de culto: 'Os Sopranos' foi uma delas. Criada por David Chase, e com um elenco fabuloso onde se destacava James Gandolfini (Tony Soprano) seria referenciada como um símbolo da América. A revista 'Rolling Stone' dizia mesmo que “através da série a América via reflectidos os seus próprios dilemas morais”. E agora já só se espera uma nova colecção de episódios. A outra série que marcou os anos 90 foi 'X-Files', que criou uma das maiores euforias a nível mundial. As teorias da conspiração e a presença extraterrestre, investigadas por dois detectives criados pelo génio de Chris Carter, passaram a ser seguidas infinitamente por milhões de espectadores em todo o mundo. Outros estilos surgiram entretanto: 'Six Feet Under' de Alan Ball (passada num ambiente surpreendente, uma agência funerária), mostrava como só canais de cabo como a HBO apostavam em produtos surpreendentes e '24' (mais uma vez sobre um conceito que atormenta os norte-americanos desde o assassínio de Kennedy: as teorias da conspiração), com a sua acção baseada em tempo real, como se fosse um “reality show”, prendiam os espectadores. E sorte a nossa que vamos vendo alguns dos melhores exemplos das séries mundiais no nosso pequeno ecrã.
O QUE SE PODE VER EM PORTUGAL
Na TVI, a série diária ‘Morangos com Açúcar’, com um elenco repleto de jovens actores, promete aquecer os meses mais frios. Já os mais pequenos, aguardam com expectativa a chegada de novos episódios da série ‘Ana e os Sete’, com Alexandra Lencastre e Vergilio Castelo nos principais papéis – mas as gravações só deverão recomeçar no início de 2004. Apesar da produção nacional dominar a grelha da TVI, os fãs das prestigiadas séries ‘Causa Justa’ – que fez a sua estreia esta terça-feira - e os ‘Homens do Presidente’ (ainda sem data de estreia) já têm motivos para ficar acordados até tarde. Na SIC, os fãs de Carrie Bradshaw e das suas três amigas nova-iorquinas, na divertida ‘sitcom’ ‘O Sexo e a Cidade’, podem continuar a seguir todas as suas aventuras à sexta-feira à noite. Para os telespectadores que entram noite dentro agarrados à TV, nota para o regresso de ‘South Park’, os desenhos animados mais politicamente incorrectos dos últimos tempos. Até ver, as novidades na estação pública sabem a pouco. ‘Smallville’, que estreou ontem à tarde, conta a história da juventude de Clark Kent, o famoso super-homem. Enquanto se aguarda pela remodelação da RTP2 – ‘a dois’ já tem agendada as séries ‘Os Sopranos’ e ‘Sete Palmos de Terra’ – é possível continuar a assistir às ‘sitcoms’ ‘Casei com uma Feiticeira’, ‘S-Club 7: Viva S Club’ (transmitidas todos os dias) e ‘Philly’.
O QUE É QUE FAZEM OS AMERICANOS
As televisões norte-americanas preparam muitas novas séries (ou a reposição de outras), para a temporada que se adivinha. “Karen Sisco” (na ABC) com Carla Gugino e Robert Forster é uma delas. Ela é esperta e “sexy” e nem por isso deixa de ser uma “marshall” de uma localidade da costa de Miami. Segue fugitivos perigosos e tenta ganhar o respeito dos colegas e superiores. É uma aposta forte da estação. No activo vão continuar a notável “The Practice” (ABC), sobre uma firma de advogados, e “NYPD Blues” (ABC). Vão surgir “Without A Trace” (CBS) com Anthony LaPaglia, sobre um departamento do FBI que busca pessoas desaparecidas. A equipa, aqui, reconstrói todos os detalhes dos acontecimentos, minuto a minuto, nas 24 horas que antecederam o desaparecimento.
Outro trunfo forte é “The Brotherhood of Poland” (CBS), de David E. Kelley com Randy Quaid e Brian Haley, uma série que segue a carreira de três irmãos na cidade de Poland. Um é capitão da polícia, outro é o “mayor” e o terceiro está desempregado. “Joan of Arcadia” (CBS), com Joe Mantegna e Mary Steenburgen, é sobre uma família típica com situações atípicas e “The District” (CBS), baseado na vida real do comissário da polícia de New York, Jack Maple, com Craig T. Nelson, é o elogio de um homem cujas técnicas fizeram com que as estatísticas do crime na cidade caíssem. Outra série sobre a qual recaem muitas atenções é “The Handler” (CBS) com Joe Pantoliano (dos “Sopranos”), como Joe Renato, um agente do FBI que treina polícias preparados para se infiltrarem na sociedade mais corrupta de Los Angeles. Finalmente a HBO prepara a continuação de “The Wire”, criado por David Simon, uma série onde seguimos o ponto de vista da polícia e dos seus alvos.

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