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'SIC é uma pálida sombra do que já foi'

Em 1992 largou a TSF para mudar a história da televisão portuguesa. Dirigiu o primeiro canal privado, que rápido conseguiu ultrapassar as expectativas. Até ao aparecimento do programa ‘Big Brother’, na TVI, nenhuma estação conseguia ter mais audiências do que a de Carnaxide.
14 de Janeiro de 2007 às 00:00
Após uma década a trabalhar na SIC, lado a lado com Francisco Pinto Balsemão, Emídio Rangel, 59 anos, natural de Angola, virgem de signo, olhos verdes, bateu com a porta de coração magoado. Passado pouco tempo, a RTP nomeou-o director, mas, foi sol que pouco durou. O governo de Durão Barroso despediu-o e mandou-o para casa. Rangel nunca foi. Um tumor maligno traiu-lhe o corpo e não o venceu, divorciou-se da jornalista Margarida Marante, mas a vida nem a meio ia. O cancro deu uma curva. Considera-se um homem de afectos. E a Comunicação Social faz parte de si. Cronista de jornais, de rádio, e consultor, neste momento está a finalizar um projecto para uma televisão em Angola. Nesta longa conversa um dos homens que mais sabe de televisão em Portugal abre o livro da sua vida. E como sempre acontece fala sem papas na língua.
Mantém a ideia que a televisão nacional estagnou?
Claro! Os proprietários e os accionistas das estações televisivas, desinvestiram do essencial: o produto – naquilo que oferecem ao público – e portanto, a actual programação é bastante inferior àquela que havia há três anos.
A que nível?
Em tantas coisas! As estações privadas acabaram com programas de informação e de grande entretenimento. Antes, por exemplo, no ‘prime time’, a SIC tinha a novela que era seguida de um programa de divertimento, com a particularidade de ser diferente todos os dias.
Há muita novela?
Demasiada. Desde as quatro da tarde até, pelo menos, à meia-noite e meia! É uma plataforma bastante diferente daquela que eu deixei. Eles lá sabem com que linhas se cosem! Desta maneira estão a afastar os públicos das suas próprias estações. É óbvio que as pessoas sentem dificuldade em suportar todos os dias as duas principais estações com a mesma programação: novelas. E em resultado dessa fragmentação quem ganha são os canais cabo. De vez em quando há um ‘reality show’, mas do ‘Big Brother’ para outros, existem quedas acentuadas.
Está a falar da TVI?
Sim. É o que tem vindo a fazer. São ‘reality shows’ uns atrás dos outros, o que na minha opinião representa um erro de estratégia.
Desde que saiu da SIC, a sua relação com o Dr. Balsemão esfriou. Voltaram-se a encontrar?
Uma, duas vezes. Cumprimentámo-nos muito friamente, mas eu não tenho nada contra ele. Estou só certo que ele enveredou por um caminho que está provado não produziu nenhum resultado.
Como vê a estação de Carnaxide?
Uma pálida sombra daquilo que já foi. Deixou de ser uma referência no País. O Dr. Balsemão estragou um dos projectos mais fascinantes do mundo da comunicação.
Criticou a televisão estatal por considerar que a informação era dúbia, e acabou por dirigir a RTP...
Mas eu consegui mudar isso! A RTP estava numa fase em que queria crescer e progredir, e foram nessas circunstâncias que surgiu o convite.
O Dr. Durão Barroso demitiu-o.
Sim, é verdade. Retaliou porque escrevi duas crónicas dizendo que tinha sido um bom ministro dos Negócios Estrangeiros, mas não me parecia com perfil para liderar o PSD.
Olhou para si como alguém ligado ao Partido Socialista?
Não sei. Os políticos conhecem a minha sensibilidade política, mas sabem que não faço parte de nenhum partido, que só sou um homem que tem ideias políticas.
E nas suas crónicas já demonstrou a sua franca simpatia pelo Eng. José Sócrates.
Porque ele faz um trabalho acertado. O engenheiro José Sócrates é, sem dúvida alguma, um excelente primeiro-ministro, um homem de grande coragem e de extraordinária clareza. Gosto de pessoas que olham nos olhos, que têm franqueza, falam com verdade, são corajosas.
Concorda que o governo socialista accionou melhorias nas relações comerciais com Angola?
Penso que o partido que melhor se relacionou com Angola foi o PSD, ainda durante Sá Carneiro. O Dr. Durão Barroso também, quando foi ministro dos Negócios Estrangeiros, teve uma acção de grande aproximação com aquele país. Por razões que se prendiam ao facto de existir pela parte do Dr. Mário Soares e do João Soares uma simpatia pela UNITA, causou uma grande dificuldade de relacionamento com o Governo do MPLA.
O Eng. Sócrates afastou-se disso?
Claro! E colocou em primeiro lugar e acima de tudo um estabelecimento de uma plataforma de interesses entre esses países, com grande pragmatismo e com uma grande objectividade.
Então, as relações melhoraram?
Sim, mas não só na área comercial, como em outras vertentes: amizade, cooperação, cultura, etc. Sou apologista que deve existir um bom relacionamento geral para se propiciarem boas relações.
Que tipo de projecto está a desenvolver para Angola?
Fui convidado por um grupo privado angolano para projectar uma estação televisiva, que também será privada.
Em que fase está?
A formatar, a estabelecer que tipo de estação pode servir um país como Angola. Diria que o projecto está definido na minha cabeça, estou só a escrevê-lo. É um trabalho que já leva cinco meses.
Quando será entregue?
No espaço de dois meses.
Mudar-se-á para Angola?
Não! Mas, é claro, se o projecto se concretizar estou disponível para ir ajudar a pô-lo de pé e a formar os angolanos que irão trabalhar.
Não há portugueses?
Não existem razões para ninguém ser excluído. O mais importante é que esse projecto seja angolano e feito por angolanos, e que tenha essa matriz bem solidificada. Muito bem consolidada.
Que é projectado por um angolano?
Eu sou angolano e português!
É verdade que é afectivo?
Eu sou um homem de afectos. Sou um emocional. Tenho fases em que tenho que ser muito racional, mas a minha componente essencial é emocional. Até na vida profissional. Não acredito na Comunicação Social sem ligação afectiva.
Quando esfriou a relação com o Dr. Balsemão, onde ficaram os afectos?
Nós tínhamos uma relação muito respeitável. Eu diria com algum afecto, mas era uma relação, sobretudo, de muito respeito. O lado mais vincado e mais forte é uma relação de mútuo respeito, de sensibilidade em relação àquilo que cada um fez na área da Comunicação. Até eu ter saído da SIC, as coisas não tinham assumido a proporção que depois tiveram.
Refere-se ao quê?
Um processo que se desenvolveu nas minhas costas. Eu era líder daquele projecto, fui eu que formatei a SIC. Nunca pensei que fosse possível desenvolverem jogos nas minhas costas. E isso aconteceu. De certa maneira, o Dr. Balsemão teve participação nisso.
Por que razão afirmou que era saudável o surgimento de um jornal que entrasse em competição com o ‘Expresso’?
Bastava olhar para a realidade, a história do percurso que fizemos desde o 25 de Abril de 1974, para percebermos que havia espaço, lugar e condições. Sempre tivemos semanários: O Jornal, O País, O Tempo, etc. Desapareceu quase tudo! Era óbvio que havia lugar para o aparecimento de um jornal novo.
O que sentiu com o nascimento do semanário ‘Sol’?
Que havia em perspectiva uma hipótese de concorrência com o ‘Expresso’, que vivia uma fase de jornalismo sentado, com gente que estava cansada e farta de trabalhar, ainda que fossem muito jovens. Havia preguiça. O aparecimento do ‘Sol’ podia também ter este mérito: desafiar, estimular e obrigar a melhorar o ‘Expresso’.
Conseguiu?
Sim. Voltou a trazer notícias, que é o mais importante num jornal! Tudo o resto também, mas vem a seguir. Lembro-me de assistir a fases em que o ‘Expresso’ estava em letargia, e, às vezes, trazia acontecimentos já publicados em jornais diários.
O arquitecto José António Saraiva está ressabiado com o Dr. Balsemão?
Não sei, no entanto, um ajuste de contas não é razão para lançar um projecto jornalístico.
Que tipo de jornais lê?
Todos! Tenho que estar informado, e gosto de consultar todos os órgãos de Comunicação Social, mesmo aqueles que são mal feitos.
Quais?
Não digo nomes por uma única razão: há coisas que ferem.
Como caracteriza a leitura do ‘Expresso’ e do ‘Sol’?
O ‘Sol’ tem coisas interessantes. Mostrou um bom trabalho de pesquisa de notícias. Mas a meu ver, a revista ‘Tabu’ é muito fraca. O caderno de Economia parece-me bastante frágil, muito pouco acabado. Anunciou que a Política seria uma coisa secundária, mas a realidade é que passou a ter muitas páginas. A ‘Única’ – a revista do ‘Expresso’ é superior, e é um jornal que faz melhor informação económica. Mas o jornal tem muito que caminhar. A concorrência vai ajudar.
Confirma que, em tempos, o Eng. Pais do Amaral o convidou para dirigir a TVI?
Não! Fui consultor do engenheiro Pais do Amaral e fiz trabalhos que ele me pediu, mas nunca me convidou rigorosamente para nada.
José Eduardo Moniz tem sido um bom director?
Durante uma fase José Eduardo Moniz foi um homem atento à evolução das coisas. Nos últimos dois anos, a TVI parou. Não progride e não marcou distância em relação aos seus concorrentes. Em 2006, o ano em que a SIC esteve no seu pior, ele teve uma péssima performance, um resultado muito mau. Não fez nada de novo. Continuou a dar o mesmo produto: novelas e ‘reality shows’. As pessoas não aguentam.
O que lhe pareceu a recente entrevista a José Eduardo Moniz?
José Eduardo Moniz dá a ideia de alguém que não está em paz com as pessoas que o rodeiam.
Estará a fazer de propósito para se ir embora?
Não faço ideia das suas intenções.
Ou zangado com o afastamento da mulher do ecrã?
Na entrevista que acaba de citar parece-me que fica nítido que não gostou nada que a Prisa tivesse afastado a Manuela Moura Guedes.
Ela era uma mais-valia?
Sim, a nível jornalístico. Era uma repórter atenta e cuidadosa, mas não como pivot.
Porquê?
Enquanto pivot, Manuela Moura Guedes é normalíssima. Não faz a diferença.
Onde é que a TVI falhou?
Na Informação. Não consegue criar credibilidade.
Qual é o canal televisivo português que prefere?
Embora não considere que a RTP seja um projecto inteiramente conseguido, é a melhor das três. Tem uma área de informação muito bem consolidada, e a mais credível. É uma estação televisiva que trabalha todas as disciplinas do jornalismo – entrevista, debate, bons serviços noticiosos, uma imagem modernizada.
O que acha de Nuno Santos, director da RTP, alguém com quem cortou relações, ter sido apontado para a figura do ano?
José António Saraiva já reclamou que devia receber o Nobel da Literatura... agora podemos ter outros como figura do ano. Falta saber a credibilidade de quem o aponta para esse prémio.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
- Um País... Itália.
- Uma pessoa... Nelson Mandela.
- Um livro... último livro do Lobo Antunes.
- Uma música... ‘Let it Be’.
- Um lema... Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti.
- Um clube... Benfica.
- Um prato... Moamba.
- Um filme... ‘Rumble Fish’.
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