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Correio da Manhã

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Simone

Ela pinta a boca de vermelho, veste smoking para ser no palco Marlene Dietrich, a má. Simone pouco tem a ver com a alemã. Ela não põe alfinetes para repuxar as rugas e se se escondesse em casa como a outra o fez quando envelheceu, morria. Oito meses depois de ter sido operada à anca, a sua quinta intervenção cirúrgica, Simone volta a representar e a cantar. “Tenho como que uma genica que vem cá do alto, ou do baixo, eu sei lá!”
1 de Maio de 2005 às 00:00
Simone
Simone FOTO: Sérgio Lemos
Simone de Oliveira começou a cantar por prescrição médica - era adolescente e estava com nervos. Depois foi o que se viu, a apoteose em Santa Apolónia, que culminou a jornada ferroviária desde a Eurovisão. Todos gritavam pela intérprete da ‘Desfolhada’. Simone cantou até que a voz lhe doesse; depois, quando a perdeu, foi actriz. Quando voltou a cantar, a voz tinha a força com ela que caminhou pela vida, seus dissabores e suas paixões.
Marlene Dietrich foi o ‘Anjo Azul’ de Sternberg, que bateu com a porta a Hitler, triunfou em Hollywood e depois se fechou em casa 19 anos por não saber como ficar feia. Dela disse Hemingway, o escritor: “Se ela não tivesse mais nada do que a voz, podia ainda assim estilhaçar corações.”
Simone está no Cinema Mundial, em Lisboa, e é a Dietrich do texto de Pam Genes, numa direcção de Carlos Quintas em que contracena com Mafalda Drumnond e Amélia Videira.
Na atulhada mesa do camarim estão um frasquinho de um perfume da Givenchy, um maço vazio de cigarros Cartier e, em três porta-retratos, o marido de quem enviuvou, o actor Varela Silva, os pais e os dois filhos.
Aos 67 anos, ela volta às 34 páginas A4 do texto da brasileira, ao papel da diva do smoking. Há quatro anos tinha-o lido para a Seiva Trupe, no Porto. “Embora o texto seja o mesmo, nada mais é o mesmo. Esta Marlene é melhor, talvez por ter envelhecido.”
Quatro anos deram-lhe sapiência?
Ninguém tem sapiência. Essa palavra não se usa para pessoas como eu. Observei e emendei os erros cometidos. Sapiência, não. Para se o ser, é preciso ser-se mais do que eu sou, uma simples mortal que canta, representa e conversa.
Sabedoria…
Sabedoria é outra coisa. Deus, Cristo, se existiu, era sapiente. Eu faço uso da minha experiência de vida. Agora, tenho muito pouco a ver com a Dietrich - não me construí como ela se construiu, não ponho alfinetes na pele para as rugas, não me sei pintar como ela;para isso, tenho aqui a minha querida Maria Alice.
Interpreta a Marlene má e não a sedutora.
Sim, mas estou convencida que a Marlene seria ainda pior do que aparece no texto da Pam Genes. A Dietrich construiu-se e quando percebeu que já não o podia fazer, fechou-se num quarto de hotel até morrer. Era uma coisa que jamais, jamais, faria na vida. Três dias fechada em casa e começava logo a faltar-me o ar e saltava pela janela. Deus me perdoe. Tenho duas coisas a meu favor, ela fez uma prótese na anca, eu também fiz; ela estava mal dos joelhos, eu também.
Quando surgiu o convite para esta peça?
Este convite é um ataque de loucura da Fátima Bernardo Casa das Artes e do Nuno Marques da Silva In Scala. Não tivemos nenhum apoio, só o da Media Capital que cedeu este espaço e fez a publicidade. Ninguém deu dez contos… nada, zero. Foi tudo assim: ‘Fazes isso?’; ‘Faço.’ Ou porque era um conhecido da Fátima ou meu. ‘É pá, então quanto é?’; ‘Pela tua saúde!’, foi sempre a resposta. A Maria Alice está aqui a maquilhar-me porque é amiga do Carlos Quintas; o Vítor Hugo, que faz as cabeleiras, penteia-me há 36 anos.
É um espectáculo de amigos?
E de boas vontades com uma produção muito séria, muito straight. Straight! Ai, que bem que eu estou a falar. Olhe, dê-me um cigarro! A Alice conhece-me mal, dou com ela a rir-se; deve pensar: ‘Esta mulher não é boa da cabeça!’. As pessoas conhecem-me muito mal porque só me conhecem das entrevistas. Como dizia a Marlene: ‘Não acreditem em tudo o que escrevem sobre mim’.
E aí está um ponto de contacto entre a Simone e a Marlene.
As pessoas nunca conhecem quem entrevistam. Temos um lado que, como dizia o Varela, é o nosso jardim secreto. Eu não sou nada diva, sou a da calça e do casaco, do rabo de cavalo, das sardinhas assadas e de um bom copo de vinho tinto. Diva tivemos uma, chamava-se Amália.
E era diva?
Era. Eu vi o Maracananzinho, que leva 50 mil pessoas, levantar-se quando entrou a Amália com aquelas andas - era muito pequenina - e um sari azul bordado a ouro. Parar o trânsito em Paris, porque lá estava Madame Rodrigues… Isso é ser uma diva.
Quando viu a Madame Rodrigues ambicionou ser como ela?
Eu nunca ambicionei, nunca quis cantar ou representar, foi um acaso.
Mas foi um acaso sério…
Foi um acaso muito sério, foi mesmo receita médica. Vamos tirar esta menina da cama que está mal dos nervos e pô-la a fazer uma coisa de que ela goste.
Para quem não queria fazer carreira, a Simone teve sempre uma legião de gente atrás de si.
Oh, sabe lá Deus porquê!
Sempre falaram muito de si, às vezes mal.
Desde que falem de mim... Há bocado tive um telefonema do Eládio Clímaco que me deixou sem fala; porque me diz ele tais coisas? No último espectáculo que fiz, há um ano e tal, a Alma Mahler ouvi coisas de pessoas alemãs, francesas, que nunca me tinham visto na vida, de fazer chorar as pedras da calçada. Agora fui convidada pelo Paulus Manker (que com Simone contracenava) para ir a Viena de Áustria fazer esse espectáculo. Alguma coisa aconteceu.
Não foi favor.
Ele olhou para uma fotografia minha e disse: ‘Eu quero esta mulher.’ Disse ele que eu tinha um ar, uma cara que era aquilo que ele queria.
Olhando para esse espelho que tem à sua frente, o que acha que ele viu?
Uma mulher de 67 anos. Sei que tenho um certo ar. A minha mãezinha dizia que eu tinha ar de princesa ofendida, que é um ar que é nosso, dos Macedo. A família do lado do pai tem um arzinho de nariz no ar. Tenho fama de ser vaidosa, emproada; é mentira. É um ar que é meu, que a minha filha tem em triplicado. Se eu sou a princesa ofendida, ela então é a baronesa do pano cru.
E mãe e filha dão-se bem?
Muito bem. Os meus filhos são extraordinários: nunca tive um problema com eles, nunca tiveram uma má nota, foram extraordinários netos, soube sempre onde estavam. No final da noite da estreia, o meu filho fazia assim: Uau! O rapaz está parvo! Rapaz não, o senhor doutor. A Eduarda vive no Luxemburgo. Quando fiz a Marlene no Porto, ela foi lá ver. Os meus filhos na plateia são a minha morte; são críticos se for caso disso. E a Fátima (Bernardo) também, diz: ‘Simone, hoje não aconteceu’.
E quando ouve isso fica com o coração pesado?
Sim, porque não gosto nada de não ter razão. Mas reconheço, o que me custa horrores porque sou orgulhosa p’ra caramba. E logo a seguir suficientemente humilde para reconhecer.
Como se equilibram os pratos da balança?
Sei lá como se equilibram! Eu não sou má pessoa, tenho defeitos: sou repentista, bato-me pelas minhas ideias até convencer os outros de que tenho razão. Tenho sido uma mulher de sorte, a vida deu-me momentos terríveis mas contrabalançou com coisas magníficas. Às vezes estou em casa, a queixar-me comigo própria, e logo digo: ‘Cala-te Simone, devias estar todos os dias com grão debaixo dos joelhos, grão cru, por te queixares assim!’ E eu, agora, até nem posso com os meus joelhos; assim como não podia a Marlene.
Parece aquele monólogo da Ivone Silva: o da Ivone Silva patroa e da Ivone Silva empregada.
Ai, sim... Há uma Simone respondona e outra que diz para ter calma. Eu não sou uma pessoa fria, sou do coração. Com a idade, sou mais capaz de me sentar e pensar nas coisas. Não são exames de consciência porque honestamente nunca fiz mal a ninguém. Terei respondido violentamente, às vezes… E foi tudo.
O que é uma boa pessoa?
Pessoas que são honestas, rectas, que têm sensibilidade e que procuram não fazer mal aos outros, mesmo que façam a si próprias. A bondade é subjectiva, como a felicidade. Há coisas que deixam uma pessoa muito feliz e que a mim não me dizem nada.
Como por exemplo?
Grandes festas, grandes andanças. Não vivo obcecada com a moda, as marcas, os cremes… Pfutt! Sei que há um creme, o La Mer, que é caríssimo e óptimo. Eu vou ao supermercado e compro aquele Nívea que é maravilhoso. Não ligo a essas coisas.
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