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SIMONETTA LUZ AFONSO: A EXPO DEU-NOS CONFIANÇA

A Comissária do Pavilhão de Portugal foi um dos rostos mais marcantes da Expo’ 98. Durante quatro meses, Simonetta Luz Afonso foi uma verdadeira embaixadora da nação e recebeu os chefes de Estado do mundo inteiro. Mas, com alguma modéstia, prefere dizer que se limitou a ser ‘uma boa dona-de-casa’
25 de Maio de 2003 às 00:00
Quando ouviu falar da Expo’ 98 pela primeira vez, ficou desde logo conquistada pelo projecto?
Não sou fã de grandes aglomerações. Gostava mais de ir a museus do que a este tipo de eventos. Visitei a Feira de Sevilha, em 1992, e se não tivesse trabalhado na Expo’ 98, nunca tinha mudado este meu ponto de vista. No início, confesso que o projecto não me atraiu. Mas pelo facto de ser feito em Portugal, achei que era importante tirarmos dividendos.
Quais eram as suas expectativas?
Acreditei que a Exposição Mundial seria bem organizada porque os portugueses têm inúmeras capacidades. Nunca tive dúvidas. Aliás, até se abrirem as portas, poucos acreditavam que a Expo’ 98 ia estar pronta a 22 de Maio.
Nem por um momento duvidou que as obras se iriam atrasar?
Não. As pessoas é que não estavam habituadas a ver um projecto desta dimensão crescer. Além disso, os portugueses têm tanto o vício de se autocriticar, que chegam a paralisar-se. Quem trabalhou na construção da Exposição, fartou-se de ser constantemente questionado se ela ia ou não estar pronta a tempo e horas. Houve até uma altura em que só me apetecia desatar à ‘chapada’ [risos].
É por essas e por outras que tem fama de ter mau feitio...
Eu? Tenho péssimo feitio! Não tenho problemas em dizer o que penso às pessoas. Às vezes, elas precisam de ‘levar nas orelhas’...
Os primeiros dias da Expo não corresponderam às expectativas
criadas...
De início houve um certo distanciamento. Esperava-se uma avalancha a 22 de Maio, mas as pessoas preferiram ficar à espera da reacção dos outros e decidir se valia ou não a pena visitar a zona oriental de Lisboa. Passado pouco tempo, tudo mudou.
Quando ocorreu o ponto de viragem?
A adesão foi crescendo pouco a pouco, mas o ponto de viragem deu-se a 10 de Junho, Dia de Portugal. A partir daí, as pessoas começaram a ver que, afinal, valia a pena visitar a Expo’ 98.
Que marcas é que a Exposição Mundial deixou no imaginário colectivo?
Em primeiro lugar, deu-se uma nova leitura aos Descobrimentos portugueses, o tema central da exposição. Foi tratado de uma forma contemporânea, com o olhar de hoje sobre o passado. Em segundo lugar, promoveu-se a reabilitação urbana da zona oriental de Lisboa, até então desprezada.
A UTOPIA DO ‘CUSTO ZERO’
Houve o cuidado de deixar obra feita mesmo depois da exposição encerrar. A organização da Expo’ 98 aprendeu com os erros de Sevilha?
A Expo’ 98 foi uma exposição efémera, mas deixou marcas profundas na cidade. As pessoas ficaram com uma zona agradável para viverem, com vista para o rio Tejo e uma boa rede de transportes, por exemplo.
Lisboa deixou de estar de costas viradas para o rio...
Finalmente! Mas claro, os custos dessa ‘operação’ não eram para ser rebatidos com os bilhetes de entrada. Isso nunca esteve na cabeça de ninguém. Acho que as pessoas confundem os custos finais da Expo’ 98 com todas as obras que a cidade já tinha que realizar, mas que ainda não tinham passado do papel.
Mas, no início, Cardoso e Cunha [primeiro comissário da exposição] chegou a dizer que a Expo’ 98 teria ‘custo zero’.
Num prazo de dez anos, a Expo vai acabar por se pagar a ela própria. Principalmente devido aos investimentos imobiliários realizados naquela zona. De qualquer forma, era imperioso despoluir aquela parte da cidade, onde estava instalada uma petrolífera. E isso podia ter sido feito em qualquer altura, sem outros benefícios para a capital. No final, ficámos todos a ganhar com a Exposição...
Até a arquitectura portuguesa. Os grandes projectos, como o Pavilhão de Portugal ou o da Utopia, têm a assinatura de arquitectos nacionais reputados.
A Exposição chamou a atenção sobre a arquitectura porque num só espaço concentraram-se inúmeros projectos interessantes e de muita qualidade. Passou-se a dar mais importância à arquitectura de ‘autor’. E nós temos excelentes arquitectos, como Siza Vieira, Souto Moura ou Manuel Salgado, que dizem ser mais reconhecidos no estrangeiro do que no seu próprio país.
Na sua opinião, que obras foram símbolo da Exposição?
O Pavilhão do Conhecimento e o Pavilhão de Portugal, pelo qual tenho uma profunda admiração. Desde a primeira hora, ‘apaixonei-me’ pelo projecto do arquitecto Siza Vieira. Os dois falávamos muito da importância da relação do edifício com
o mar. Conversas essas que deram origem àquela praça grandiosa, fundamental para as cerimónias oficiais. Sabíamos que o edifício ia ter filas, por isso a famosa pala garantia uma sombra agradável e permitia-nos fazer a ‘festa’ em frente do
pavilhão.
Em relação aos pavilhões dos países estrangeiros, quais a surpreenderam pela positiva?
Não posso deixar de referir o Pavilhão do Japão, porque eles não se esqueceram de que os portugueses foram dos primeiros povos a lá chegar. Houve mesmo um intercâmbio cultural entre os nipónicos e o Pavilhão de Portugal. Destaco também o da Croácia e o da Argentina, este último com espectáculos de tango ao vivo.
Dizem que os meses que passou na Expo’ 98 foram o ponto alto da sua carreira por, mais uma vez, conseguir pôr em prática o ‘eductainment’ [misto de educação com entretenimento]...
Eu comecei o ‘eduteinment’ há muito tempo, no Palácio de Queluz, numa tentativa de aproximar o público dos espaços culturais. Uma aposta que foi ganha e que tenho usado ao longo da minha vida profissional. A cultura não tem de ser maçadora, porque faz parte do lazer das pessoas.
Talvez assim se explique o sucesso da Expo’ 98. O espaço estava pensado para agradar a todo o tipo de pessoas. Ninguém se sentia excluído...
A Expo foi uma ‘pedrada no charco’. Tivemos o cuidado de contar a história dos Descobrimentos de uma forma acessível, que fosse compreensível por todos os visitantes. Veja-se o caso do vídeo do Pavilhão de Portugal. Como é que em três minutos apenas, foi possível contar tanta coisa?!
Houve certamente alguma coisa que correu mal. Ou não?
Não me lembro de nada em particular. E eu sou muito crítica! Recordo-me apenas de que se falou na falta da água, mas acho que isso tinha mais a ver com os maus hábitos dos empresários da restauração. Ao contrário do que se passa nas cidades, na Expo’ 98, as cargas e descargas só se faziam à noite.
DO BOM AO MEDÍOCRE
No encerramento da Expo’ 98, o director do ‘Público’, José Manuel Fernandes, escreveu no seu editorial que “Depois de terem apreciado o bom, os portugueses são menos tolerantes para com o medíocre”. Concorda?
As pessoas respeitaram a Expo porque a zona estava sempre limpa e impecável. Quando os espaços públicos têm qualidade, há por norma um maior civismo. Pelo contrário, quando os portugueses chegam a um sítio sujo e degradado, já não se importam de deitar papéis para o chão, por exemplo.
Julga que estes valores se perderam com o passar do tempo ou ainda persistem, cinco anos após a Expo?
Sempre que visito o Parque das Nações, e para minha alegria, vejo que aquela zona se mantém limpa e cuidada. Ou seja, ali as pessoas continuam a respeitar o espaço. Agora, não sei responder se alguns dos valores que a Expo’ 98 incutiu nos portugueses, como a confiança ou a auto-estima, ainda persistem. A memória é muita curta.
Acha que o Euro’ 2004 pode voltar a unir os portugueses em torno de um projecto?
Não tenho a certeza. Mas quando o evento terminar, gostava de saber o que vão fazer com aqueles estádios todos. No futuro, espero que sirvam para mais alguma coisa, nem que seja para concertos ‘rock’. Julgo que os fãs do futebol vêm assistir a um jogo e depois vão-se embora. Não me parece que estejam interessados em descobrir o país, com mais profundidade.
Mas em termos promocionais, Portugal vai ou não beneficiar com o Euro’ 2004?
Julgo que sim, mas há um pormenor importante do qual as pessoas não se podem esquecer: A promoção de um país é um trabalho constante. Não deve ser feita esporadicamente. Temos que estar sempre a preparar eventos e a chamar a atenção das pessoas.
Voltando à Expo, comoveu-se quando as portas encerraram, no dia 1 de Outubro?
Comovi-me muito. Chorei e tudo... Durante o período da Exposição, os dias eram vividos de uma forma muito intensa. De repente, tive de me despedir de pessoas com quem cheguei a trabalhar 18 horas por dia. De um dia para o outro, deixei de os ver. Foi uma sensação de angústia que me tocou muito. A Expo’ 98 foi uma experiência que só se vive uma vez na vida.
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