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Síndrome da Primeira Pessoa do Plural

“A Teresa diz invariavelmente “nós achamos isto”, “nós decidimos aquilo”, ainda que nove em dez vezes eu não tenha decidido nada e apenas me tenha limitado a ir a reboque”
11 de Julho de 2010 às 00:00
Síndrome da Primeira Pessoa do Plural
Síndrome da Primeira Pessoa do Plural FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Entre os futebolistas há uma doença muito bem documentada chamada STPS – Síndrome da Terceira Pessoa do Singular –, que basicamente consiste em falar de si próprio usando o pronome pessoal "ele" em vez de "eu". Por exemplo, ao comentar a sua prestação no Mundial de Futebol, Cristiano Ronaldo diria de si próprio: "As pessoas falam muito do Cristiano Ronaldo, mas o Cristiano não tem de provar nada a ninguém".

Literatura sobre o STPS é coisa que não falta, e qualquer pessoa o sabe reconhecer, fruto de uma vida a assistir a conferências de imprensa com "agentes desportivos". No entanto, apercebi-me que o problema com os pronomes pessoais não é exclusivo do mundo do futebol. A minha mulher também tem um, e é dele que me proponho aqui falar, antes de enviar um ‘paper’ para o ‘New England Journal of Medicine’ anunciando pomposamente a descoberta de uma nova doença, que decidi apelidar de SPPP – Síndrome da Primeira Pessoa do Plural.

E em que consiste o SPPP?, perguntam os leitores já em pulgas, perante a perspectiva de estarem a ver nascer diante dos seus olhos um futuro prémio Nobel da Medicina. Nisto: o SPPP manifesta-se sempre que alguém recorre à primeira pessoa do plural para resolver questões (em geral, familiares) junto de terceiros. Sei que isto parece confuso, mas é bastante simples de compreender. Esteja a discutir as obras na casa nova com o empreiteiro, esteja a explicar à mãe porque é que vamos passar o fim-de-semana a Manta Rota, a minha excelentíssima esposa usa sempre o pronome pessoal "nós", mesmo quando as decisões são só dela (e as decisões são quase sempre só dela). A Teresa diz invariavelmente "nós achamos isto", "nós decidimos aquilo", ainda que nove em dez vezes eu não tenha decidido nada e apenas me tenha limitado a ir a reboque (que é, aliás, a minha grande vocação).

Esta compulsão para arregimentar a minha pessoa de forma a aderir às suas opiniões particulares tem um lado, vá lá, luminoso: significa que para a Teresa nós somos um casal unido, coeso, duas metades de uma laranja (ainda que por vezes amarga). Mas também tem o lado deveras irritante de maltratar com frequência a minha primeira pessoa do singular, que tanto prezo. Já lhe disse várias vezes: "Nós? Mas porquê nós, se eu não tive nada a ver com isso?" Mas não adianta. O SPPP é impiedoso. Só me resta meter o eu no bolso e lá vamos nós.

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