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SIZA VIEIRA: O DESENHO É O DESEJO DA INTELIGêNCIA

Este é um momento especialmente puro, quase ingénuo, de um homem modesto que considera o seu trabalho “cauteloso”. Os seus desenhos nunca são resultado de súbita inspiração, possuem equilíbrio, instabilidade controlada, poesia e retórica imprevistas.
7 de Setembro de 2003 às 17:44
Para que uma forma seja bela, ela precisa ser compreensível. Criando formas no concreto real, recusando modelos formais estáticos, Siza Vieira expressa um modo de ver facilmente fruído. A sua obra incorpora os valores poéticos e sensíveis da realidade. Uma articulação entre o social, o técnico e o expressivo.
Fruto de uma poética pessoal, os desenhos possuem elementos ocultos mas virtualmente decifráveis, resultantes de uma ordem criativa consciente. É o olhar desperto de um homem procurando uma criação que resulta dessa demanda feita de disponibilidade, de atenção ao Mundo e às pessoas. Nestes desenhos, que a Domingo Magazine revela em exclusivo, o arquitecto Álvaro de Siza Vieira mostra-nos toda a sua candura e sensibilidade, ternura e solidão, nostalgia e humor. Com traços de uma paixão imaginativa, observa, retém e vivifica. E cria novos caminhos. “Não sou capaz de aceitar uma linguagem preestabelecida. Quando trabalho num contexto tenho que decidir qual é o estilo apropriado para utilizar nesse contexto”, justifica. E também não é capaz de separar o mundo da geometria do mundo natural. A sua arte é o oposto dum modelo e dum estilo.
Em Siza Vieira expressa-se um modo de ver. Um modo de desenvolvimento que se revela misterioso e oculto e que o próprio artista, à partida, não domina. O jogo da criação estética é a transcendência inesperada diante dos acontecimentos. Daí a obsessão constante pelo homem. “Movo-me entre conflitos, compromissos, mestiçagem, transformação”, admite.
Estes desenhos, representativos da Fase “família”, “atletas” e “cavalos”, têm subjacente um processo de entrega, uma realização baseada em códigos diferentes que procuram a comunicação inteligível, sensível e funcional entre humanos. Por vezes dá a sensação que estes desenhos não estão terminados. Ou então, que saltam para além das medidas do quadro, desenvolvendo-se para além do formato, encontrando-se uns com os outros.
A fase “família” é a mais significativa, devido ao grande humanismo que encerra, com relevância para o nascimento do ser e para a interligação do homem com a mulher.
Nos desenhos subordinados ao tema “cavalos”, há uma grande importância da forma e do movimento gestual e em “atletas” a energia está muito visível. Mas em todos os quadros há uma continuidade.
Explorando a natureza dos materiais, os seus valores textuais, a luz e a cor, a que acrescenta a dimensão temporal, estes desenhos talvez venham a determinar a sua obra arquitectónica, pois têm vindo a incentivar a sua espontânea criatividade.
Obras que demonstram que é no confronto com a realidade que Siza Vieira encontra o método, procura o modelo, a técnica ou a linguagem. “Dou respostas a um problema concreto, a uma situação em transformação na qual participo sem fixar uma linguagem, porque é simplesmente uma participação num movimento de transformação com implicações mais vastas.”
BI
Nome: Álvaro Joaquim Melo Siza Vieira
Profissão: Arquitecto
Data de nascimento: 25 de Junho de 1933
Local: Matosinhos
Filiação: Cacilda Carneiro de Melo Siza Vieira e Júlio Siza Vieira
Primeira obra realizada: cozinha da avó
Desporto: hóquei em patins
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