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Só as guerras cancelaram os Olímpicos

A pandemia adiou para 2021 os Jogos que já passaram por momentos muito difíceis
Fernando Madaíl 5 de Abril de 2020 às 10:00
Só as guerras cancelaram os Olímpicos
Só as guerras cancelaram os Olímpicos FOTO: Direitos Reservados

Os Jogos Olímpicos tornaram-se um dos símbolos dos anos bissextos desde que, em 1896, o Barão Pierre de Coubertin conseguiu retomar, em Atenas, o espírito da antiga competição helénica, com os velhos ramos de louro substituídos pelas medalhas de ouro. Mas, ao contrário das tréguas estabelecidas nos tempos em que Píndaro e outros poetas enalteciam os clássicos heróis dos estádios, as novas Olimpíadas não conseguiram evitar as Guerras Mundiais de 1914-1918 e de 1939-1945.

Na Grande Guerra, quando as opiniões públicas festejavam o início do conflito, convencidas de que os seus soldados regressariam a casa, vitoriosos e famosos, para comemorarem o Natal de 1914, o brutal conflito prolongou-se por quatro anos sangrentos. A edição de 1916, agendada para Berlim, foi cancelada – e a capital germânica só seria palco dos Jogos Olímpicos em 1936, quando Hitler estava no poder e o negro americano Jesse Owens, ao correr e saltar mais que os arianos, vencendo quatro provas, mostrou ao Führer que não existem raças superiores.

As Olimpíadas seguintes estavam marcadas para Tóquio, mas seriam transferidas para Copenhaga, como sanção pelas tropas nipónicas, em 1937, terem invadido a China. A II Guerra Mundial impediria que os melhores atletas se reunissem na capital dinamarquesa, em 1940,
e também em Londres, em 1944.

Massacre de Munique
Os Jogos de Munique, em 1972, deviam ter ficado na História pela façanha do nadador americano Mark Spitz, que conquistou sete medalhas de ouro – o que só seria superado pelo seu compatriota Michael Phelps, com oito vitórias nos Jogos de Pequim, em 2008. Mas o massacre de 11 membros da comitiva de Israel (cinco atletas e seis treinadores), sequestrados por um comando palestiniano da Organização Setembro Negro, que entrou na aldeia olímpica de madrugada com mochilas carregadas de metralhadoras, pistolas e granadas, marcaria a sangue a XX Olimpíada – e ainda se juntariam as mortes de um polícia alemão e de cinco terroristas.

Outra demonstração de violência já tinha ocorrido na Cidade do México. Nesse ano de 1968, em que as elites universitárias do Planeta contestavam o ‘statu quo’ – um dos slogans dos ‘soixante-huitards’ parisienses esclarecia que os jovens não queriam ser "nem escravos, nem robots" –, dez dias antes de se acender a chama olímpica, o exército mexicano esmagou os manifestantes da Praça das Três Culturas – provocando centenas de mortos, feridos e presos.

Aliás, esses Jogos – em que Bob Beamon conseguiu 8,90 metros no salto em comprimento, distância que só seria superada pelo também americano Mike Powell, em 1991, mas que ainda permanece como recorde olímpico – foram aqueles em que melhor se percebeu a dimensão política do maior acontecimento desportivo do Mundo. E não só pela África do Sul, devido à sua política segregacionista do apartheid, passar a ser impedida de participar.

Mas a imagem icónica foi a dos negros americanos Tommie Smith e John Carlos, primeiro e terceiro na corrida de 200 metros, a ergueram o punho com uma luva preta, quando estavam no pódio e era executado o hino e hasteada a bandeira do seu país, numa demonstração de apoio ao Black Power, na fase aguda da luta pelos Direitos Civis nos EUA. E também a da ginasta checa Vìra Èáslavská, medalha de prata na trave (conquistaria um total de seis, quatro de ouro), recordando a invasão dos blindados do Pacto de Varsóvia, que esmagaram a ‘Primavera de Praga’, baixou a cabeça quando tocava o hino da URSS – que, nesta edição, se tornou a maior potência olímpica.

O ingénuo Coubertin nunca suspeitaria que a sua ideia se transformaria num dos polos da disputa entre os blocos capitalista e comunista, para demonstrar qual dos modelos de sociedade estava mais evoluído. A RDA – o país comunista de uma Alemanha dividida simbolicamente pelo Muro de Berlim –, graças ao ‘mago do doping’, o médico Manfred Höppner, apesar de ter apenas 17 milhões de habitantes, desde Montreal (1976) até Seul (1988), era a segunda no ranking das medalhas.

A invasão soviética do Afeganistão, em dezembro de 1979, provocou uma onda de protestos no mundo ocidental. A administração americana, como forma de pressão, apelou ao boicote dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, sendo apoiada por 69 dos seus aliados – incluindo Portugal. Nessa altura, de grande crispação ideológica, ter uma reprodução do Misha, a mascote desses JO, era quase tão ‘comunista' como ter em casa umas matrioskas’.

Quatro anos depois, quando as Olimpíadas foram em Los Angeles, houve a retaliação – à URSS e seus países satélites, juntaram-se vários regimes marxistas-leninistas, de Angola ao Vietname, num total de 14 delegações. Dos países da antiga Cortina de Ferro, apenas a ‘desalinhada’ Romênia compareceu – e, assim, ficou em segundo lugar na classificação, logo a seguir ao país anfitrião. Curiosamente, estes são uns Jogos importantes para Portugal, pois na última prova do calendário, Carlos Lopes entraria no Los Angeles Memorial Coliseum à frente de todos os maratonistas e, pela primeira vez, no içar das bandeiras, ouviu-se ‘A Portuguesa’.

Agora, devido ao vírus que assusta o Mundo, a edição dos Jogos Olímpicos de Tóquio será a primeira realizada num ano que não é bissexto.

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