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Só pensava em vir para Portugal

Daniela Teixeira tornou-se a primeira mulher portuguesa a escalar 8000 metros depois de em 2005 ter tentado a proeza. Resistiu ao mau tempo e, no passado dia 7, alcançou o cume da montanha Cho Oyu, com 8201 metros, a sexta mais alta da Terra, na cordilheira dos Himalaias, na fronteira entre o Tibete e o Nepal. Aos 31 anos, conjuga a profissão de geóloga no Seixal com a aventura nas alturas.
22 de Outubro de 2006 às 00:00
“Quando estou lá em cima estou completamente de férias”. O desporto está-lhe no sangue desde pequena mas o alpinismo “aconteceu muito depressa, apenas há quatro anos”. ‘Rocha Podre e Pedra Dura’, é o blogue que mantém com os colegas Paulo Roxo e Miguel Grillo (www.rppd.blogspot.com) onde narram as escaladas de fim-de-semana e as grandes expedições que elevam a modalidade. “Não é uma actividade muito praticada”, lamenta Daniela, que não se vê livre de rótulos. “O que dizia muito lá fora é que sou a primeira portuguesa e isso só representa o quão atrasada esta actividade se encontra em Portugal. Espero que funcione como incentivo”. No curriculum já inscreveu os Alpes, Pirenéus, Andes e os Montes Atlas. Depois dos Himalaias, regressou segunda-feira a Lisboa, cerca de um mês depois da partida, com a confiança de que o céu é o limite. “Mesmo que não saiba qual é o próximo objectivo, tenho a certeza que haverá um!”
- Como é voltar a terra firme depois de um mês fora de casa?
- Daniela Teixeira - É muito bom, quase um alívio. Tive alguns problemas com a agência que contratei para organizar a expedição. No último dia, ao sair do Tibete para Katmandu, disseram-me que não tinha licença de ascensão porque a minha agência não tinha pago o necessário às autoridades chinesas que controlam estas montanhas, o que fez com que na teoria eu tivesse subido ‘à pirata’. Tive que obrigar a empresa a pagar, senão a esta hora ainda não estava em Portugal!
- E o trabalho ia todo montanha abaixo...
- Pois... Pessoalmente não ia, havia testemunhas e tudo o mais, mas só o facto de saber que não poderia mais escalar em território chinês, onde há montanhas que ainda hoje me atraem, era extremamente complicado.
- Foi a segunda tentativa. Era um ponto de honra chegar a este cume?
- O ano passado sim, que era uma montanha com uma face mais difícil. Mas este ano, como resolvi custear a minha própria expedição, e como em Portugal não achei ninguém com quem realmente quisesse escalar, acabei por não arriscar uma montanha tão técnica, porque ia sozinha.
- Quanto lhe custou esta aventura?
- Cerca de 5000 euros. Tudo do meu bolso. Mas por outro lado também não tenho a pressão mental de ter um patrocinador nas costas. Deixa-me mais centrada naquilo que vou fazer e muito menos no emblema que tem que aparecer.
- Pensou duas vezes antes de partir sozinha, ou nem por isso?
- Não. Pensei: “Já que vou fazer uma montanha tecnicamente mais fácil, vou subir a fasquia e vou sozinha.” Se formos com um grupo, temos sempre um incentivo psicológico extra, porque há sempre alturas em que nos sentimos mais em baixo, a querer desistir.
- E sentiu-se em baixo muitas vezes?
- Senti, bastantes. Nos primeiros quatro dias cheguei a mandar uma mensagem a dizer: “É triste mas amanhã vou ter que decidir se vou para cima ou volto para Portugal e a expedição acabou aqui.” As condições que apanhei no Campo Base foram muito más, tínhamos um material muito fraquinho, que não dava para estar a sete mil metros no meio de uma tempestade. O mau tempo e as condições deficientes desmotivaram-me imenso. Ao fim de quatro dias a minha motivação era quase nula, só pensava em vir para Portugal.
- O que a fez resistir?
- Uma boa parte foi o sol. Resolvi ir dar uma voltinha de reconhecimento no primeiro dia de bom tempo, e correu-me fantasticamente bem. Atingi um campo intermédio entre o campo base e o campo 1 em muito pouco tempo. No outro dia veio o bom tempo, preparei-me para a aclimatação e em quatro dias consegui iniciar e terminar o processo, o que me deixou muito animada.
- Essa volta que deu sozinha. O montanhismo também é uma actividade muito solitária, não?
Foi mesmo uma actividade solitária porque parti sozinha. Mas não pensei que após um curto período de tempo na montanha sentisse a necessidade tão grande de estar com pessoas.
- Estava rodeada por quantas expedições?
- Cerca de 60 expedições no campo base a coabitar, de todas as nacionalidades. Tive a sorte de partilhar tenda com uma expedição de filipinos, porque a minha era muito pequena e desconfortável em altitude.
- Viveu muitas peripécias?
- Um dia estava a descer da aclimatação e um alpinista disse--me que tinham andado aos tiros no campo base. As tropas do governo chinês tinham simplesmente abatido a tiro oito tibetanos que tentavam cruzar a fronteira entre o Tibete e o Nepal numa zona a cerca de uma hora e meia do campo base, onde não há um calhau para uma pessoa se proteger. Uma coisa inacreditável. Felizmente não presenciei, mas quando cheguei ao campo base as pessoas estavam emocionadas e o ambiente era muitíssimo pesado.
- A noção de perigo associada à subida é algo presente?
- Não, nem pensar. Nunca na vida me passou pela cabeça presenciar uma situação de pressão política. Tem-se noção do perigo na montanha, mas é daquelas coisas que se pensa quando as condições da própria montanha ou meteorológicas não são ideais e eventualmente pensa-se um bocadinho à noite (risos), antes de se tentar o cume, quais são os perigos e objectivos em cima da mesa.
- E como foi a sensação de chegar, com o suplemento de ser a primeira portuguesa a ultrapassar os 8000 metros?
- Na altura nem pensei nisso porque estava tanto frio que a minha prioridade era tirar fotografias e ir-me embora o mais rapidamente possível! Ainda tive tempo para fazer duas chamadas com um telefone satélite. Tentei fazer uma chamada para a pessoa que actualiza o site da expedição do Cho Oyu e ouço a voz do meu pai do outro lado. Fiquei um bocado baralhada e disse: “Pai, pai, olha, estou no cume, estou no cume!” (risos).
- Como é que a família vê estas andanças?
- De início, perguntam se eu quero ir e aperta-se o coração com a partida. Depois quando sabem que tudo está bem ficam super orgulhosos. Há essa passagem entre o quase “não vás!” e a enorme felicidade.
- Sente diferença de tratamento pelo facto de ser mulher?
- Lá em cima é igual. Eventualmente há algum paternalismo. Também ia com aquela ideia: “Sou mulher, provavelmente terei sítio para dormir” (risos), mas pouco mais, não há quem nos dê um tratamento especial.
- De que é que se sente mais falta lá em cima?
- O mais difícil em ser mulher é ir à casa de banho e não poder voltar as costas. Temos que ter a capacidade de nos desinibir completamente. Mas não noto nenhuma dificuldade acrescida. Pode-se dizer que o alpinismo está mais no sexo masculino por eles terem uma força física maior. Por outro lado, em altitude, temos mais facilidade.
- E já há novo desafio à vista?
- Já tenho mais ou menos, mas ainda é segredo...
- Será uma montanha ainda mais alta?
- Pode ser que sim, ou não, nunca se sabe. Há muitas altitudes inferiores que tecnicamente são mais exigentes. As montanhas não se medem aos palmos!
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... todos os que têm montanhas!
Uma pessoa... Paulo Roxo, o meu companheiro da montanha anterior, tecnicamente é cinco estrelas.
Um livro... ‘O Perfume’, de Patrick Süskind.
Uma música... ‘Dancemos no Mundo’, de Sérgio Godinho.
Um lema... ‘Nunca desistir’.
Um clube... para mim não existem clubes, são um coisa muito restrita.
Um prato... Bacalhau com natas.
Um filme... ‘A Idade do Gelo II’
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